terça-feira, 16 de julho de 2013

SEM QUERER

Acidentes não são previstos.
Se forem previstos é porque há erros e se os erros não forem sanados, não será mais um acidente.
Nesse caso, a quem poderemos culpar?
Quem deixou de observar o dever que tinha de cuidar para que as coisas não se complicassem?
Quem será culpado por negligenciar detalhes importantes do processo?
Quem vai pagar por agir sabendo no que ia dar, por não ignorar que em determinadas circunstâncias de atmosfera e pressão uma bomba explode, uma tampa voa da panela e atinge o teto da cozinha?
Quem sofrerá a pena por ousar conduzir situações sem conhecer as variáveis e as constantes, por dar testemunho do que não viu, por afirmar o que desconhece?
Quando estivermos caminhando pelos escombros, juntando os cacos e fazendo torniquetes para estancar o sangue, suplicando anestesia para que a dor não nos aniquile, a quem atribuir os danos?
Ninguém precisava de bola de cristal para antever os fatos, entende-los e agir conforme esse entendimento.
Se podem nos imputar a responsabilidade, é porque sabiam que nós possuíamos condições de evitar o estrago.
Nem sempre fica claro que um Dó sustenido menor vem após o Lá. Mas é uma possibilidade a se considerar.
Assumimos o risco e agora dolosamente optamos por isso ou aquilo seja lá que efeito isso ou aquilo cause, entretanto, se alguém se ferir, se algo quebrar, não foi por querer.
O que deveria ser feito, foi feito. No tempo disponível, com os recursos disponíveis.
Por mais que você diga que havia como agir de maneira diversa, quem sabe bem é quem tinha o leme nas mãos.
Essas coisas que nós assumimos, o desejo de que alguma mágica sustente o mundo e reverta as leis naturais para que tudo fique intacto no fim, nos torna mais culpados ou menos culpados?
De qualquer maneira, não há acidente previsível...
Ou não seriam acidentes.

terça-feira, 9 de julho de 2013

SÓ O HE-MAN TEM A FORÇA E É INVENCÍVEL

A Espanha perdeu pro Brasil, o que não seria nenhuma novidade em 94.
E o Spider perdeu pro Weidman. O que não seria novidade se ele não fosse invencível como a vara cível.  O SpiderMan sempre vence os vilões, o que não era exatamente o caso do Weidman. Tiraram o man do Spider e colocaram no Weid, por isso ele perdeu. Tira o "homem" do ringue e deixa por conta dos prazos... Se não pagar em dia, vence mesmo. Quem ganha? É claro que é quem comprou o carnê do baú ou quem apostar corretamente no sexo do bebê real da Kate e do William. Ele é um feto real, todos os outros são de mentira e quem aposta em mentira?? Quem?
Quem já sabe que vai ganhar, é claro! Ou Salvador Dali, porque pra ele tudo é surreal.
O caso foi que o moço lá fez firula, e isso é uma afronta laranja ou uva se preferir.
Afronta Uva pra tomar de canudinho ou no queixo. Dançou com Marisa Monte e dançou na lona.
Eu também queria socar a cara de quem me afronta, o que não seria nenhuma novidade em 94. Mas hoje quero atlânticos e pacíficos.
Tô na maré...
Estou aqui e ali enquanto o caos segue em frente com toda a calma do mundo.
Tudo bem. Sei da obediência das coisas ao tempo e isso me deixa em paz.
As vezes uma notícia me leva a nocaute, desnorteia e eu fico só para leste ou este norte precoce. 
Muuuu, Sul, Mano, vacas dizendo gírias funkeiras ruminam na minha cabeça sem orientação, aliás, orientada conforme meus próprios protocolos, afim de ver novo faraó reinando no Egito, só pra saber se cola ou se o Brendan Fraser aparece para resolver o conflito. De quebra, viria pra cá, juntamente com o Homem Aranha e todos o X-Man decidir se o plebiscito rola ou Rolling Stone. Ah, tá... O Homem Pedra também...
Disseram que meu olhar ficou desfocado. Sim, perdi as focas da retina e agora tenho um parque aquático na íris sem foca, apenas baleias dançantes. Baleias são tudo o que vejo quando olho o futuro ou pra borra de café. Adoro batatas fritas, chocolate e refrigerante, mas não posso mais me dar o luxo sempre, porque isso me expande e não quero ser sua ex mulher caso eu mude progressivamente de manequim e isso te afete. Faith no more só pra ouvir Easy com eles, porque minha fé não costuma faiá. Sempre tem mais de onde vem esta.
Olha, eu poderia te dar uma rosa, o que não seria nenhuma novidade em 94, mas se eu fizer isso hoje, seria tão inesperado quanto a jornada de um Hobbit. E eu estou sendo muito literal, my dear! 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O FUTURO ACABOU DE ACABAR


A lua estava tão perto e tão cheia de tudo
explodindo e rindo, dando gargalhadas
enquanto daqui eu a contemplava
sem ver tanto tamanho no que ela era
sem saber ao certo a medida exata das coisas:
sempre fica um ,0058
que a gente quer arredondar
Eu não gosto de comer a ponta do pão
e a ponta da salsicha jogo pro cachorro
Não fiz um cartaz e não sei o que reivindicar
enquanto fazem por mim o almoço
vou comer quando a fome matar
vou morrer quando a hora chegar
mas por ora, não posso me pronunciar
pra não correr o risco de dizer bobagens
pra não matar no útero verbal
o que poderia nascer de bom
Fico aqui fazendo o que me cabe, onde alcanço
fazendo o que acredito e vejo florescer.  

Precisamos semear e isso é tão urgente...

Americana Pátria, morena  
Quiero tener Guitarra y canto libre  
En tu amanecer.
(Semeadura de Vitor Ramil) 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

ATALHO

Então desceu dos céus um cometa fulgurante que espatifou o asteróide pequeno que todos chamam de Terra.

E o problema foi parcialmente resolvido.

FIM

******

Música incidental: 

Parabéns, ó brasileiros!
Já, com garbo varonil.
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

*****
Resplandece a do Brasil? Deve ser por causa das dimensões continentais. De qualquer jeito, o cometa... 
Enfim!

******
Estrelinhas para Zé Ramalho, Evaristo da Veiga e D.Pedro I

terça-feira, 11 de junho de 2013

CORAÇÃO RAMALHETE

Pois é...
Os fatos me anestesiaram e eu parei de sentir saudades.
Vez ou outra, quando ouço uma frase ou uma música, as lembranças tomam primeiro plano e nasce um sorriso que morre logo nas reticências do ato.
Alguém me disse que não sou uma boa amiga.
Eu só acho que não tenho apegos.
As pessoas passam. Sentimentos se intensificam quando as pessoas são constantes e cotidianas. A convivência as torna tão essenciais! Merecem nosso afeto, declarações, gratidão, mensagens de texto, e-mails gigantes, ligação pra falar sobre nada. Não possuo facebook e isso me distancia ainda mais do presente frenético que nos envolve e  nos aproxima. (Será?) Ver suas fotos e frases talvez não surta o mesmo efeito do que estar em suas fotos e frases! Acreditamos na distância entre nós.
A vida é repleta de caminhos e em certos momentos tomamos rumos diferentes, vamos pra longe, conhecemos outras pessoas e estreitamos outros laços, pela vontade ou pela necessidade, consequência das escolhas que fizemos.. As vezes velhos amigos se reencontram e percebem o quanto mudaram. Quantos filmes deixamos de ver juntos no cinema? Quantas coisas deixei de cozinhar pra vocês? Há quanto tempo eu não ligo no seu aniversário? Quantas notícias você deixou de saber e que agora tanto faz? Quantos interesses mudaram?
Meu amigo, meus amigos, que nem visitam mais ou nunca visitaram esse blog, ninguém deixou de ser importante. O tempo é como âmbar que preserva o que se passou, o amor que desenvolvemos juntos. 
Na arqueologia de minha vida, a amizade que houve é fóssil que descreve nossa história e relata a importância de uma época. O que estiver por vir nos reencontros, é outra forma de vida com o código genético originado em nosso passado, forte, bela e estranhamente nova.
*
*
*
Estrelinhas para A Lista do Oswaldo Montenegro e para o Clube da Esquina

terça-feira, 4 de junho de 2013

CÉU - DE ONDE SAI O DIA

A criança que fui era como uma jujuba verde.
Alguns gostam, mas a maioria rechaça.
Eu montava o mundo com as peças erradas e achava impressionante o mundo simplesmente entender o contrário do que eu entendia. O meu óbvio era um absurdo para os outros e foi por sorte (ou mérito) que tive uma família que decodificava meus absurdos e os transformavam em algo normal.
Ocorre, que a verdade está la fora.
Demorei muito para aprender algumas coisas.
Aprendi a duras penas o significado da palavra depois.
Fiz um pedido de manhã e me responderam: depois.
Esperei tanto esse depois... Quando o pedido foi atendido, o sol já desaparecia no horizonte.
Passei muito tempo da minha infância acreditando que "depois" era o pôr do sol.
- Olha mãe, que depois bonito!
Outra vez era perguntar pra onde meu pai estava indo.
Ele dizia: Pra China.
Um dia, de tanto insistirmos, meu pai levou a mim e ao meu irmão pra China.
- Pai, leva nós na China?
- Paaaai, nós qué i pra China também.
(sic)
E ele levou. Era uma bica no meio do mato, a uns 10 km da nossa casa.
A gente enchia o cantilzinho de água e voltava pra casa. 
Lembro de que lá havia  2 vira-latas, um caramelo e um preto.
Cachorros da China que nunca pudemos levar pra casa.
Eu adorava ir pra China, sem carimbos e passaportes, só o velho passat.
Outras vezes via o Jornal Nacional e quando eles falavam de conflitos, eu achava que cada país era uma bola girando no espaço e que se um brigasse com o outro, ia sair um monte de bolinhas da bola maior, como pedras arremessadas. Não sabia distinguir países e planetas. Pra mim tudo era uma bola colorida girando no espaço cheio de estrelas e de problemas.
O pior pra mim foi o ingreso na escola.
Foi a coisa mais mágica e mais sofrida que aconteceu nos meus 5 anos.
Eu e o meu irmão não fizemos o maternal. Entramos direto no pré, hoje 3º período, pois somos do início do ano.
Nós já sabíamos ler, mas eu não sabia socializar.
Meus colegas não sabiam ler, mas sabiam o mundo.
Um dia a professora pediu que fizéssemos tiras.
Quando ela disse "tiras", me deu uma angústia enorme.
Olhei para os lados e vi que meus colegas cortavam o papel parecendo batata frita. 
Pensei preocupada:
Nossa eles vão fazer um tanto de tiras. Eu não sei fazer nenhum direito.
Naquele momento, comecei a fazer o melhor desenho que podia em um pequeno espaço.
Fiz o quepe, o uniforme, o distintivo e o revólver.
Depois fiz outro e outro.
E a professora veio perguntar o que havia de errado comigo:
- Por que você não está fazendo tirinhas como todos? Agora não é hora de desenhar.
Falei que fiz sim e mostrei o desenho dos tiras. (Na minha cabeça só lembrava das frases de A Gata e o Rato).
Ela pegou e levou embora. Disse que tava errado.
Me deu outro papel e pediu pra eu fazer de novo.
Fique sentada em minha carteira com a tesoura na mão e o papel na outra.
Estava um pouco aliviada de não ter que desenhar policiais (eu ainda não desenhava bem e isso nunca mudou muito!), mas também decepcionada de saber que minha missão era fazer um monte de batatas fritas sem graça.
E assim a gente começa a descobrir que uma palavra pode significar mais de uma coisa e que se você não entender as coisas direito, a professora vai acabar achando que seu pai tem problemas com a polícia.



Legal ver:
http://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/dicionario-feito-por-criancas-revela-a-adultos-um-mundo-que-ja-esqueceram/

quinta-feira, 23 de maio de 2013

INÊS, ATA A MEDIDA!

 
É só chover para que as pessoas comecem a censurar quem sente frio quando chove.
Qual é o problema de vestir meu casaco?
Ficam se vangloriando, falando do frio do sul do país...
Os mais sofisticados ou aqueles que aproveitam pacotes aéreos baratos dizem:
- Se você estivesse em Bariloche, saberia o que é frio.
Hahaha!!! Bariloche!? Tem dó...
Não. Eu não sei do frio de Bariloche, porque eu moro em Sete Lagoas e aqui fica quente na maior parte do ano. E nem sempre quando chove faz frio.
Mas às vezes eu sinto frio quando chove.
E daí?
Isso é simplório? Isso me desabona? Isso te incomoda?
Por que?
Não preciso estar na Groenlândia,
em Bariloche ou no Bar da esquina pra saber que as pessoas têm dificuldade de deixar que as outras pessoas vivenciem sua esfera íntima: o sentir.
Isso é algo personalíssimo. Que seja psicológico ou não. Incoerente ou não. 
Se a pessoa sente, essa é a verdade dela naquele momento.
Por que taxar, fazer pedágio, tributar o que o outro sente diferente de você?
Analisam o outro com suas inexatas medidas e liberam fórmulas como caixas eletrônicos liberam comprovantes*.
Então, se chove em Sete Lagoas e você não sente frio, isso faz parte do seu quadrado, mas no meu quadrado cabe sim um casaco, que eu até posso tirar daqui 15 minutos, mas vou colocar porque estou arrepiando já.
E também vou tomar um caldo no final da noite.
E deixo que diguem, que pensem, que falem...
 
* Caixas eletrônicos às vezes não liberam comprovantes, há que se salientar!!!

terça-feira, 21 de maio de 2013

LOGÍSTICA

 
Ele portava as peças importantes
E ela, outras peças importantes
Mas quem se importava a ponto
de comportar o que era preciso
no mesmo suporte?
Ele, meia boca.
Ela, meio cansada.
Sem fins que justificassem
os meios escolhidos,
Sem e-mails, cartilhas, mensagens
ou manual de instruções.
Ambos perambulavam incompletos
buscando outra forma de montar a paisagem:
Um medicamento, uma nova lei,
Uma cópia autenticada da peça que falta,
uma cláusula em letras pequenas
no final do contrato.
E até que decidissem unir seus recursos,
continuariam quebrando a cabeça
com todas as peças nas mãos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

CHAMA DAS ESTRELAS (Amor, futebol e gestação)

 
 


 
 
 
 
 
 
 


 

 
 
A cidade acordou alvinegra.
Antes isso fazia tanta diferença:
Nós chorávamos, lembra?
Hoje pouco importa
É só azucrinar o amigo, o chefe, o parente...
Ser vencedor sem benefícios.
Nunca fui de vestir essa camisa.
Enfim, não há mais grandes ganhos a não ser as faíscas
Muita coisa vira faísca enquanto outras se tornam incêndios, cinzas e fumaça
Não sei dobrar o fogo embora seja menina de elemento fogo de ascendente fogo.
Vivo com um balde de água na mão e combustão no peito
Aliás, é mentira, tenho peitos pequenos e campos minados.
Queria ter campos elísios, mas por hora, vivo meu calcinattio
O galo canta cedo, enquanto o céu ainda está estrelado.
E o amor é uma habilidade em desenvolvimento em mim.
Preciso de ar, outras terras, de água benta e não fogo fátuo.
Preciso me mover no éter, solver a eternidade
sentir novamente as possibilidades de conseguir equilíbrio no escuro e no frio
pacificar tempestades e oferecer flores aos meninos e meninas que vão chegar.
*
Pequeno (a), aqui não parece ser tão promissor, mas somos os homens presentes
e lhe amaremos, preparados ou não, lhe amaremos.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

MEDIDAS

 
Todo mundo tem uma dica,
um conselho pra dar,
todo mundo tem boa intenção,
remédio pra curar,
todo mundo sabe o melhor preço,
a melhor promoção,
todo mundo quer um grande mar
pra dissolver o verão
  
Todo mundo sabe o melhor trecho
pra você caminhar
Todo mundo sabe a melhor hora
pra você começar
Todo mundo quer dizer a dica
que melhor lhe couber
Sempre que você chega com o doce
o povo mete a colher
 
Todo mundo quer gratidão
dos conselhos que dá
Todo mundo tem opinião
pra você creditar no final
se afinal você acertar
Mas decerto haverá deserto
se no fim o seu caldo entornar
 
Na pressão, todo mundo é esperto
e na pressa chegamos tão perto
e morremos de tanto nadar
Percebemos, então, a verdade
que aos outros caía tão bem
Perecemos de fome e de sede
no próprio armazém.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CANÇÕES PARA CHAMAR A CHUVA


Provavelmente
não sou o tipo de pessoa com a presciência felina
que protege o coração porque prevê o golpe.
Se apenas por algum acaso eu antecipar seu movimento,
rezarei pra que ele mude e se torne um afago ou um aceno, quem sabe?
E mesmo que ele se perca no nada, no que poderia ser e não foi,
 haverá um ganho, um alívio, uma graça.
Acho graça no mundo mesmo quando ele cospe, mesmo quando escorrego no lodo
e ostente após, um hematoma no corpo
Não é felicidade o que sinto, uma felicidade de hiena, dispersa de sentido
É mais uma certeza que dispensa senhas e logins,
que não precisa ser iderrogável nem absoluta.
Certeza de que as coisas são cheias de obediência.
Isso me enche de paz e paz é quase felicidade.
Colocaram um manifesto anarquista na porta e
mesmo assim as coisas obedecem, zombam dos manifestos.
A ordem está na impressão digital de tudo.
Tudo se reveste de cadência e ritmo e produz música.
O universo inteiro é uma sinfonia.
É a subversão do movimento e isso me deixa deslumbrada.
Você não ouviu, não ouve?
Chama de ingenuidade, porque eu acredito,
mas eu lamento sua surdez
e aguardaria seu golpe como aguardo o espirro,
mesmo que ele desista e me faça lacrimejar sem nunca ter sido espirro de fato.
Eu sei que ele quis, eu o senti, mas fica entre nós e meus olhos molhados.
Insisto no sorriso, embora você va me ver chorando algumas vezes.
Quando dói, eu sei chorar.
Quando dói eu reclamo e quero atirar também.
Quero sair pregando manifestos, revelar a ferida,
Expor a carne e a nudez da alma,
matar a chineladas as moscas que rondam,
fazer você sentir que pode doer em você
com a mesma intensidade que dói em mim...
Mas você tem um sistema nervoso central e o meu sistema é suburbano.
Vejo suas pernas inquietas e isso não me irrita como lhe irrita quando são as minhas.
Suas pernas também obedecem, marcam o compasso frenético
 e embora eu não possua a presciência dos fatos, antevejo com todo o meu estômago
o efeito das palavras e sentimentos que estão em você em estado gestacional.
O chão é um tamborim.
Pressinto uma canção prestes a emergir.

E certas canções, eu bem sei, são para chamar a chuva.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

TORTO

Estão cada vez mais frequentes as histórias trágicas que aparentemente demonstram que o ser humano faliu. Isso sedimenta no coração das pessoas a sensação e quiçá, a certeza de que não existe sentido nas coisas, no mecanismo da vida. A criminalidade, a decadência da juventude, a epidemia da depressão, a imundície na política, nossas leis tão imperfeitas como nós, as crianças que matam e que morrem, a educação deficitária, a desestruturação da família... São fatos que tem cheiro de apocalipse. São fatos que corroem a fé frágil, a esperança morna e o amor desbotado. São fatos que entortam o sistema nos fazendo pensar em soluções mais problemáticas do que o próprio estado vigente de tudo.
 
Muitos se preocupam com a estrutura do telescópio e esquecem das estrelas no cosmos infinito. A simplicidade está nas coisas comuns. Amar é comum, é natural, mas não é pauta das reuniões de Estado. E dái?

As coisas não vão bem, mas nunca foram tão melhores do que estão e nem por isso estamos em extinção. Passamos por guerras, por calamidades, ainda há vida na Somália e no Haiti! A Alemanha está de pé, a Rússia também. Os japoneses continuam avançando a tecnologia. Nós perecemos, mas nos preservamos, e já que não funciona combinar um suicídio coletivo e morrer todo mundo junto (sempre haveria um furão!), então por que nós mesmos não construímos o sentido para o existir?
O mundo pode nos entristecer, mas não devemos desistir por que um cara levou um tiro no semáforo em plena manhã ensolarada no centro de uma metrópole.
Na boa, eu me assumi cristã aqui e nunca gostei de ficar pregando ou doutrinando as pessoas. Cada um sabe o que lhe apetece, no entanto, se eu cito Sartre, Durkheim, Marx ou o Homer Simpson, não posso ter cautela em citar o Cristo.  Ele, ao ser questionado por Pedro em determinada passagem do Evangelho, sobre o destino e as tarefas de outro discípulo, responde de forma bem significativa:

“Que te importa a ti? Segue-Me tu.”
 
Gostas formam o oceano. As respostas são simples e simplicidade não é simploriedade ou ingenuidade, utopia. É da lei. O ser humano só vai falir, se eu falir.
O amor só é aniquilado se eu deixar de amar.
E a Terra vai continuar girando, bem ou  mal, todavia, girará muito melhor se eu fizer a minha parte.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Reverência à Vida!

 
Procuramos aflitos o ouro
Em montanhas, em escavações
Nos ferimos demais, nós suamos demais
para encontrar minerais sem valor
 
Nós perdemos a fé no início
e vertemos a lágrima vã
Nos movemos demais, nós perdemos demais
olvidamos o ensino da dor
 
Nossos braços agora são fortes
E mais forte é nosso coração
Percebemos sinais, descobrindo, afinal
que a mina está dentro de nós
 
Preciosa vida burilando seres
Na forja, na lida, na força do sol
no amor que doa, no cumprir deveres e
nos passos que deixam um rastro de luz
 
Ave, Vida!

terça-feira, 7 de maio de 2013

INTIMIDADE

Não é contar segredo.
A gente nem sabe guardar segredo.
Não é o sexo.
Para muitos, sexo é fácil e rápido de conseguir.
Não é olhar o contra cheque,
conhecer os pais,
viajar junto,
ter conta conjunta,
ter fotos e sorrisos e amigos em comum.
Intimidade é soltar pum
e não se envergonhar.
(...)
E fazer isso de novo.

Depois disso, meu filho, aguenta.
Entre a intimidade e o respeito escasso a linha é tênue, meu bem!!!

terça-feira, 16 de abril de 2013

FIQUE COMIGO, SEJA LEGAL

                                                      Salvador Dali que me perdoe...


Estava eu a esperar na porta.
Veio o tempo, fez a proposta:
- Coroarei você com experiência. Com ela você pode adquirir o mundo necessário e caso queria, pode ir até além do necessário. Em troca você me dá o colágeno, os planos que prescrevem agora e a facilidade para metabolizar gorduras e doces.
Pergunto ao tempo:
- Isso é uma alternativa?
- Infelizmente não.
- Fazer o que? Deixa aí o que trouxe. Leva o que pede! Volta depois... Mas se quiser ficar, não me oponho!
- Você bem sabe que mal existo, mas que nessa malexistência eu faço efeito em seus olhos, em seu corpo, em sua mente, em seu coração... É até estranho me chamarem de convenção enquanto vocês se guiam por calendários e relógios! Paradoxal, não é?! Sou mesmo "o cara"!!!
- Pode se vangloriar... Não ligo. Mas se eu acordar de novo com essa dor nas costas, amaldiçôo você.
- Ora, por que me culpa?
- Porque é culpa sua. Antes não era assim, essa dor na coluna. Agora é. Logo...
- Logo você estagnou. Não fez o que era preciso enquanto eu passava. Não resmungue. Aceite e se mexa! Alongamento, movimento, essas coisas ajudam, sabia?!
- Você acelerou e me deixou mais lenta... Não é justo.
- Você tornou permanente tudo o que era pra ser transitório. Não reclame.
- Você me fez de palhaça quando eu fiquei sem saber o que era trolar.. Ave, isso não é do meu tempo. Que verbo é esse?!!!
- Mulher, que tem eu a ver com isso? Nunca imaginaria inventar essa palavra!
- Mas fez aquele menino crescer. Dia desses peguei o garoto no colo, falei com vozinha animada, imitei bicho? Agora ele tá com quase 2 metros de altura, me chamou de tia na rua. Tem até CNH!
- E...
- Uai, vai dizer que não tem nada a ver com isso? Me chamar de tia? Porque não chamou de vó logo de uma vez... Nem sou tia dele...
- ...
- Qualquer um nascido em 92 pode votar, me namorar, se candidatar a vereador, prefeito, ser pai, mãe...
- Natural!
- Natural? Eu dei aula no maternal pro povo de 92. Isso é surreal!
- (...)
- Ah, tá?! Continua sem ter nada com isso? E os efeitos colaterais? Isso é coisa sua... Fui brincar com meu sobrinho. Fiquei entrevada depois, gemendo até pra virar na cama.
- Extravagância sua.
- Sacanagem sua, isso sim!
- Certeza? Eu é que teimo em fazer coisas das quais não sou mais capaz?
- Não sou capaz? Está insinuando o que? Tá dizendo que estou velha demais pra isso?
- Eeeeeeeeeeeu?!! Essa é boa!
- Se eu achar que sou capaz, posso ser sim, ué! Você acha que sabe passar e eu não sei? Eu sei sim! Pensamento é vida!! Vontade é tudo!
- Que lindo! Então pratique! Step by step, oh baby...
- Nóooooo, step, by step? Nem eu pensaria numa frase tão new kids on the block assim!! De new não tem nada!!
- Tipo você, né?!
- (...) Vai, zomba mesmo... Olha, tá bom por hoje... Toma aqui o que veio buscar. Não vai ficar zombando aí todo senhor do destino, tambor de todos os ritmos...
- Eu posso, amor!!! Mas se puder perceber, você também pode. Você não sabe se existe tanto quanto eu.
- Claro que existo...
- Prove!
- Anéim... Eu penso, eu existo, ué! Que conversa é essa? Olha eu aqui sentindo seus efeitos na carne e na alma... Existíssimo! Super existo.
- Não sei se você tem tanta convicção assim. Contudo, ainda acredito ser possível reunirmo-nos num outro nível de vínculo.
- Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei...
-  O suficiente pra não se atrasar! Quanto a mim, sou sempre Just in time!
- Melhor que Justin Bieber...
- Nossa, com o tempo você só piora seus trocadilhos... Fica just in fame!!
- Touchê!!!Com o tempo, né?! Pelo menos isso é culpa sua!!!!
- Tudo seu é falar em culpa. Já é tempo de superar isso. Você faz pésimos trocadilhos e transfere a culpa pra mim?!!!! Responsabilize-se, assuma alguma coisa!
-  Já assumi nas postagem abaixo.
- (...)
- Aff
- Tá bom... Só vim mesmo pra ver seu rosto balzaco! E quer saber? Nem parece!
- Ah... Obrigada pela espinha bem no meio da minha bochecha! Ameniza as coisas!
- É... Tenho esse dom!

E o tempo fez uma super piscadinha e passou!

 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ASSUNÇÃO (PARTE 2)



Sou homossexual.
A única coisa que isso quer dizer é que romanticamente sou atraída por pessoas do mesmo sexo que eu.
Nada mais.
Isso não interfere em meu caráter, na filha que sou, na irmã que sou, na profissional que sou, na pessoa que sou e nem no meu papel na sociedade, no mundo.
Isso não quer dizer que uso bermudão, que coço o saco e que tenho toda a coleção de Ana Carolina e Adriana Calcanhoto. Isso não quer dizer que seja necessário estereotipar tudo como se tudo fosse a mesma coisa. Não é.
No meu caso, minha identidade se harmoniza com meu corpo, com minha condição. Amo ser mulher, anseio a maternidade, gosto do meu corpo e dos seus ciclos.
Eu não achei bonito gostar de mulher e decidi ir lá gostar. Ser homossexual não foi uma opção. Se eu pudesse optar, eu escolheria o lado mais fácil, mais convencional. Seria hetero, lógico! Iria me casar com um homem e não enfrentaria problema algum de ordem religiosa, psicológica ou política.
Não escolhi desejar e sentir. Escolhi orientar o meu desejo e o meu sentimento.
Mas...
Nem sempre foi assim.
Já namorei homens, já me apaixonei por homens, já me casei com um homem e há pouco tempo quase me casei novamente com outro homem. No intervalo entre esses homens surgiu um sentimento que se desenvolveu de uma forma muito dolorida dentro de mim.
Tal sentimento se tornou sensação, um desejo que na época eu pensava ter que aniquilar, embora minha vontade fosse de vivenciá-lo sem culpas.
Ah, a culpa... Filha da nossa compreensão pseudo-cristã da vida...
Ela nos faz metamorfosear de humano para extra-terrestre, nos torna uma anomalia, uma aberração.
Passei a acreditar que tudo o que diziam de negativo sobre a homossexualidade era verdade e passei a lutar contra toda essa vida que palpitava em mim, asfixiando com a mão algo que poderia ser bonito, mas que meus olhos enganados enxergavam apenas o pecado.
Circula na doutrina espírita (que agasalha meus anseios religiosos) a hipótese de que existe uma programação para nós e que se nasci homossexual, devo me esforçar para canalizar essa energia para algo Bom e Belo como a Arte e preferir a abstenção. Dizem também que numa relação sexual entre pessoas do mesmo sexo não existe uma troca de energias a que chamam de "retroalimentação", e que tudo o que é vivenciado entre homossexuais é desperdiçado energeticamente falando.
Munida deste pensamento, sufoquei quem eu era por anos, crente de que fazia a coisa certa. Frustrava homens e mulheres e a felicidade que eu almejava experienciar num relacionamento parecia cada vez mais distante e desbotada, algo utópico demais para quem eu estava me transformando.
Quando me casei com um homem, não objetivei criar uma fachada hetero para convencer o mundo. Eu acreditava no que fazia e talvez pudesse ter dado certo, não fossem outros problemas totalmente indiferentes à minha orientação sexual. Novamente solteira, o chamado não cessava. E eu cedi por algumas vezes... E feri pessoas que esperavam que eu assumisse o que era sem medo. Não fui capaz de assumir. Eu havia decidido lutar com unhas e dentes para ser a pessoa perfeita, sem fraquezas. Precisava canalizar, me envolver com a arte, trabalhar, trabalhar. Ou eu me absteria ou viveria como heterossexual. Ocorre que o chamado que antes sussurrava dentro de mim, agora berrava em megafones. Era obsessão ou trauma? Por quê? Por que?
Comecei a fazer terapia. Acreditei de todo o coração que se eu tivesse um casamento convencional, uma família convencional, eu estaria cumprindo com o que constava em minha imaginária "programação cármica". Acontece que ficou visível que meu esforço era um soco no estômago de quem queria me oferecer ajuda e amor sinceros e era uma sabotagem contra mim. Minha  auto sabotagem. Eu me tornava infeliz e não tinha condição de colaborar para a felicidade de ninguém com quem eu me envolvesse.
Olhava para as coisas belas que eu tinha e não conseguia plenitude. Era como se eu tivesse ganhado um carro importado lindíssimo e não pudesse pagar seus impostos.
Não, aquilo não podia ser o certo. O amor deveria fluir e ser natural. Deus não é essa represa.
Após anos, quando se tornou quase insustentável conter a gama de sentimentos que me invadia, decidi finalmente (não sem lágrimas) que o melhor era mesmo assumir quem eu era, assumir o que eu sentia e pensava e assumir as consequências de uma decisão dessa natureza, que são diversas.
Foi o que me libertou. Embarcar me libertou. Decidir embarcar me libertou.
Na mesma doutrina em que alguns posicionamentos me fuzilavam e fuzilavam a tantos como eu que com o coração aberto empreendiam lutas quixotescas contra os próprios sentimentos, encontrei apoio, alento, consolação e esclarecimento.
Não. Não sou uma aberração. Não sou uma anomalia como um trevo de quatro folhas ou um sexto dedo na mão.
Sou um ser que ama. Não reduzirei à simples bolha genital a energia mais poderosa do universo que destrói e cria mundos inteiros. NÃO. Não vou me abster e construir hipocritamente uma máscara que não tenho condição de sustentar.
Porque sou filha de Deus e Ele vibra em mim como infinito, como AMOR.
Quando amo, posso expressar o deus que há em mim, posso ver que a felicidade é um jeito de andar e posso plantar e colher flores.
Porque existe amor em mim e isso é tudo o que de mais valioso eu posso ofertar ao mundo.
Minha opção é amar.
E o amor, como diz cumpade meu Quelemém, o amor possui muitos caminhos...
*
*
Eu tive a sorte de viver esse processo rodeada de pessoas cheias de luz.
Agradeço à toda minha família que me aceita e me ama exatamente como sou (pai, pela coisa toda incondicional, mãe, pelo esforço que fez para destruir e reconstruir conceitos, Jane Canoa por sempre ter entendido sem eu ter que explicar), ao psicólogo Luiz Benigno, ao Emmanuel (sim, o espírito!!) aos doutores Andrei Moreira e Gibson Bastos pelo esclarecimento consolador, ao Max (cumpade meu Quelemém) por toda a luz do conhecimento que propaga, ao amor que me salva do Luiz H e da Vã (incondicionais), da Ieda, Caio, Sergitos e Marcelita, da Bia e Cia (família escolhida), do pessoal do Caminheiros do Bem, do Alvim, do Costinha e da Dani, do Adelino, da Patrícia e da Janice, e finalmente agradeço à Gabriela por abrir meus olhos e me fazer enxergar que a liberdade e a felicidade pulsam na simplicidade do Amor Vivido.
À você dedico a canção final!!!

Quando Fui Chuva
Luis Kiari e Caio Soh

Quando já não tinha espaço, pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança, os meu traços de chuva
E o que é estar em paz?
Pra ser minha e assim ser tua

Quando já não procurava mais
Pude enfim nos olhos teus, vestidos d'água,
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas

E assim, no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim, no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver

Nada do que eu fui me veste agora
Sou toda gota, que escorre livre pelo rosto
E só sossega quando encontra tua boca

E mesmo que em ti me perca,
Nunca mais serei aquela
Que se fez seca
Vendo a vida passar pela janela

Quando já não procurava mais
Pude enfim nos olhos teus, vestidos d'água,
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas

E assim, no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim, no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver.

terça-feira, 26 de março de 2013

ASSUNÇÃO (PARTE 01)




Sou cristã.
Sou aprendiz das lições do Cristo.
Amo Jesus com todas as forças do meu coração, mesmo que tudo o que eu consiga vivenciar de seus ensinamentos seja apenas uma pequena parte, ínfima parte...
Já li as cartas de Paulo, inclusive as polêmicas cartas aos romanos e procurei saber das traduções menos afetadas, mais fiés ao vernáculo em que foram escritas. Foi preciso conhecer o pensamento do povo hebreu e dos gregos para concluir que um documento tão sublime não poderia embasar o assassinato da filósofa Hepatia, a desvalorização e submissão da mulher, o ódio aos homossexuais, aos cabeludos e nem a estigmatização de nenhum ser humano. De nenhum ser humano.
Mesmo assim, fico espantada com as interpretações que dão ao que é realmente sagrado (a essência e não o papel), com as manipulações, com todo o desvirtuamento que pretende tornar o amor algo menor, mesquinho e impuro.
As coisas que fazem em nome de Deus, de Jesus, de Paulo ou de qualquer um que serviu a humanidade em nome do Amor, não possuem ligação alguma com a caridade benfazeja, com o Bem, com o Belo, com o não julgar, com o oferecer a outra face, com o perdoar e com o servir.
As Cruzadas, a Inquisição, a negação da ciência, o preconceito, o vilipêndio, os julgamentos sumários, as condenações sumárias e outras diversas formas de ignorância, são atitudes que distanciam o homem de Deus ao invés de reconduzi-lo. É assim que geramos um deus à NOSSA imagem e semelhança e o deixamos agonizar em nossas mãos, morto lentamente pela corrosão de uma fé arbitrária e delirante.
A Religião não seria necessária se fôssemos perfeitos. Ela serve apenas de muleta para quem não consegue ainda caminhar sozinho, ser dono do próprio destino e ter autonomia para fazer escolhas sem afetar negativamente a vida do seu próximo.
Madre Tereza entendeu isso quando se livrou de qualquer rótulo religioso e percebeu que sua maior religião era seu próximo. Era o outro.
Nós outros mal exergamos o outro. Nós outros somos mancos e carecemos dessas muletas.
De qualquer forma, a religião fez mais bem ao mundo do que o materialismo e é por isso mesmo que não consigo entender... Não entendo em qual parte do caminho nós nos aprisionamos, nós nos escravizamos assim. 
A religião deveria nos libertar, deveria nos oferecer ampla vista, deveria nos estimular a melhorar o mundo, a melhorar a nós mesmos, acabar com as guerras e os protocolos, os cárceres do mundo e os cárceres íntimos. Deveria fazer o filho confiar nos pais e vice-versa, deveria nos unir, mostrar que somos todos da mesma família universal e que por isso mesmo deveríamos nos amar, procurar nos entender e estender a mão para aquele que ainda não consegue caminhar sozinho, para aquele que ainda enfrenta inúmeras dificuldades. Estender a mão como já fizeram conosco tantas, tantas vezes.
A Religião deveria nos mostrar que a Ciência é uma expressão divina que nos conduz ao progresso, por mais que as perguntas se multipliquem a cada resposta encontrada. A religião deveria tornar evidente toda a ciência contida nos ensinamentos evangélicos, explicando com racionalidade os aparentes absurdos e assumindo os erros propositais cometidos por homens comuns e não negar o que é difícil de entender.
A função da religião deveria ser (e é!) nos religar a algo maior, a Deus, Alah, Força que Rege o Universo, Inteligência Suprema, Elohim, Causa Primária de Todas as Coisas, Jeová ou qualquer outra denominação que nos remeta ao Amor.
Então porque as pessoas (tão religiosas!) querem privatizar a verdade e o amor e após privatizar, tributar  aquele que ousa sentir? Por que privilegiar um povo, tachar quem não foi eleito, emburrecer as massas, separar os diferentes e deletá-los do caminho da redenção? Por que distanciar do nosso irmão que o sangue nos ofereceu quando ele pensa diferente de nós? Por que tanto escarcéu e guerra se nem o próprio Jesus lançou qualquer olhar de reprovação a Pedro em suas mancadas, a Judas em seu engano ou à turba (burra) que o crucificou? 
Por que tantos insistem em enxergar o próximo como inimigo, como anomalia e não como irmão?
(...)
Pecar significa errar o alvo.
Pelo que vejo, muitos do povo de Deus estão acertando a borda.
Ou o ar ao redor...

*
*

PODRES PODERES
Caetano Veloso

 Enquanto os homens exercem
 Seus podres poderes
 Motos e fuscas avançam
 Os sinais vermelhos
 E perdem os verdes
 Somos uns boçais...

 Queria querer gritar
 Setecentas mil vezes
 Como são lindos
 Como são lindos os burgueses
 E os japoneses
 Mas tudo é muito mais...

 Será que nunca faremo senão confirmar
 A incompetência da América católica
 Que sempre precisará de ridículos tiranos
 Será, será, que será?
 Que será, que será?
 Será que esta minha estúpida retórica
 Terá que soar
 Terá que se ouvir
 Por mais zil anos...

 Enquanto os homens exercem
 Seus podres poderes
 Índios e padres e bichas
 Negros e mulheres
 E adolescentes
 Fazem o carnaval...

 Queria querer cantar
 Afinado com eles
 Silenciar em respeito
 Ao seu transe num êxtase
 Ser indecente
 Mas tudo é muito mau...

 Ou então cada paisano
 E cada capataz
 Com sua burrice fará
 Jorrar sangue demais
 Nos pantanais, nas cidades
 Caatingas e nos gerais
 Será que apenas
 Os hermetismos pascoais
 E os tons, os mil tons
 Seus sons e seus dons geniais
 Nos salvam, nos salvarão
 Dessas trevas e nada mais...

 Enquanto os homens exercem
 Seus podres poderes
 Morrer e matar de fome
 De raiva e de sede
 São tantas vezes
 Gestos naturais...

 Eu quero aproximar
 O meu cantar vagabundo
 Daqueles que velam
 Pela alegria do mundo
 Indo e mais fundo
 Tins e bens e tais...
 

terça-feira, 5 de março de 2013

Tudo soa tão bem...

Estilhaçaram a prateleira de palavras.
Morreu a inspiração.
Mas tudo soa também...



Estrelinhas para Iggy Pop e Capital Inicial...

sábado, 2 de março de 2013

Há espaço para todos. Há um imenso vazio...


O tempo não existe, mas estou sempre atrasada para alguma questão.
A verdade é só fragmento, mas sofremos quando mentem para nós.
Não sei se Hitler era cristão, judeu ou gay, se Gandhi era gay, se Charles foi Ray, se Charles será Rei...
Se o pop não poupa ninguém, não sei o que vale a pena “eruditizar”...  
Só sei que não sei, mas mesmo que eu saiba que não saiba, invisto meu tempo em conhecer outras milhões de informações que preenchem um espaço quase invisível do espaço que há pra se saber na eternidade.
Estamos aqui por segundos, contudo a pungência dos dias e dos apelos nos envelhecem, cobram-nos por milhas rodadas.
Por que apertamos tanto essas pedras na mão?
Por que esperneamos, sofremos, perdemos a fé e a fome nessa angústia, nas pílulas e ideias de dominação? 
Tudo sendo fugidio demais, não temos nada além de nós para dominar...
A quem pertence o cetro, o poder, a prerrogativa de deixar as coisas em ordem?
O papa cedeu, o meteorito caiu e quanto ao pano dos confetes, já passou meu carnaval.
Quase tudo o que nos importa é delírio. Um delírio aceitável como um closet com 400 pares de sapatos. Um delírio suportável como perguntar um nome. Um delírio justificado como lutar para convencer os outros de que temos razão. Um dilúvio, um delírio desarrazoado como supor qualquer coisa...
Se eu tivesse uma banda, seria The Lírios!
Mais vasto é meu coração...


Obrigada Engenheiros, Nenhum de nós (Neruda), Drummond, Zé Ramalho, Ang Lee e Tio Patinhas

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

EXTREME


O filho de uma égua teve uma diarreia galopante em minha rua. Acordei cedo e fui colocar o lixo pra fora e se não fosse o aroma inebriante no ar, eu poderia jurar que tinham gramado o asfalto na frente da minha casa. O que será que esse cavalo comeu, Jesus, pra fazer um efeito hecatombe assim? Eu deveria ter flagrado o cavaleiro e pedir que ele limpasse a sujeira como devem fazer os donos dos cachorros que passeiam ao redor da lagoa.

E o lixo não passou. A cidade está sofrendo com essa transição de empresas de limpeza urbana. A anterior, que passava terça, quinta e sábado, se envolveu num desses escândalos de licitação. Ocorre que a nova contratada não passou sábado. Não avisou aos moradores os dias de passar, não fez nada, a não ser deixar o lixo na rua. Quem é que limpa essa sujeira?

Transições são assim. Existe todo o incômodo, mas resta a esperança de sairmos limpos ou aprendendo com os erros. Meu chefe dizia que depois que descobriram que estrume é adubo, tudo serve pra alguma coisa.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Zíper


Pois é, estamos aí.
Virando mais uma, mais um.
Passamos por tantas coisas, até pelo fim do mundo!
Passamos pelos medos imaginários, monstros imaginários, delírios, rios, lagoas, mares...
Passamos a roupa pra sair.
E saímos, fomos longe.
E voltamos!
Por que a gente volta sempre pra algum lugar, para o status quo.
O legal é que nunca voltamos igual.
Pode até ser a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, todavia, nós não somos os mesmos.

Para mim, não ser o mesmo é sempre bom, mesmo que os defeitos sanados com o tempo fosse o melhor que havia em nós. Eu acredito em nós. Eu vejo tragédias nos jornais. Li que um cara estuprou uma velha de 92 anos, o carteiro me disse que o mundo está perdido... E eu acredito em nós. Continuo acreditando e sei que acredito nisso porque acredito em tantas outras coisas que me fazem mais do que crer, saber que ta tudo bem. Ver cometa na poça de lama, como a historinha da toupeira do Rubem Alves.
 E são esses cometas que desejo para seus olhos.

Sabe, não vou desejar dinheiro, saúde, grande amor, essas coisas...

Sei lá se com dinheiro você seria a mesa pessoa que é, que batalha, que respeita, que sua a camisa e que tem sonhos pra realizar. Que pensa nos outros e sabe o quanto é difícil conseguir as coisas. Eu desejo o necessário para o seu crescimento.

Sei lá se com saúde perfeita, sem dor nenhuma, sem cólica, sem dor de dente, de pé, de mão, você teria o juízo que tem. A doença ou o estado adoentado que nós passamos às vezes podem ser dádivas, freios que nos impedem de quebrar a cara. Desejo o necessário para seu aprendizado.

Sei lá se você sabe exatamente o que fazer com um grande amor. Se você vai respeitá-lo, vai amar, vai construir, se você vai dialogar, procurar entender... Desejo o providencial para seu coração.

Desejo que você saiba viver e enxergar a perfeição no mundo. Entender essa idéia nos dá paz, nos tira os limites que a dor e a ignorância impõem. É como a luz que ilumina sem nos torrar como esse sol de dezembro.

Desejo que você saiba o que procura e que encontre o que procura. Desejo que nesse encontro você possa ver nascer a felicidade em seu terreno íntimo e saiba empregá-la em sua vida e ve-la multiplicada na vida de quem está perto de você! Claro que haverão dias ruins, contudo, com amor por dentro, a gente luta e transforma fogo em luz.

E quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar! Pra recomeçar!

*
*
Estrelinhas para A lista do Oswaldo Montenegro, A toupeira que queria ver o cometa do Rubem Alves, Jornal Super de R$0,25, Amor pra Recomeçar do Frejat e para todo o resto que me compõe!
*
Felizes Coisas! 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Perfeito pra hoje!



Saindo daqui, tomar um caldo de costela.
Mais tarde, ver um filme, tomar chocolate quente, ficar debaixo do edredon até a manhã de amanhã...
Perfeito pra hoje!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Oh, crianças, isso é só o fim, isso é só o fim!

A manhã aqui nasceu serena após uma noite de tempestade.
Ontem pareceu-me que o sol queria passar ao nível Supersayadin 10.
Era impossível dizer a alguém:
- Não esquenta não, sô!!!
E mesmo sem estar em apuros, poderíamos dizer:
- Estou frita!E agora?
Desde o início dos tempos desse blog eu manifesto meu desagrado com esses dias quentes do fim do ano.
E o mais paradoxal é passar pelas lojas e casas enfeitadas e ver bonecos de neve sorrindo felizes com seus narizes de cenoura e bronze!!
Olho para o boneco e penso: Cê tá de brincadeira, né?
O suor criando fluxos e oceanos em nosso corpo e o boneco lá, doidão, feliz, inderretível em sua função ornamental!!
Fico até com pena do Papai Noel adiposo dentro daquele casaco vermelho. Aff!!
O Natal é paradoxal, mas é o melhor de nós em fraternidade. Sério mesmo. O espírito natalino não deve sentir o calor que eu sinto, mas derrete geleiras no coração de quem passou o ano no Polo Norte caçando pinguins.
Eles não estavam lá. Não moram lá. Estavam em Madagascar junto com macacos, um leão, um hipopótamo, uma girafa, uma zebra, renas... Renas não..
Rena, rena, se eu chamasse Madalena, seria uma rima, não uma solução!
Se eu chamasse Magdalena, ia abrir uma concessionária de automóveis chamada: Madagas Car!!
E venderia Renas Motorizadas sem IPI pro Papai Noel, só pra rimar.Até o Rudolph.
Mas o Papai Noel deu descanso para elas!! Ele agora vem de avião e pula de pára-quedas!! Vocês já viram a quantidade deles em seus pára-quedas?
R$5,00 um Papai Noel no sinal.
R$3,80 duas bolas de sorvete.
Com R$5,00 no bolso eu prefiro o sorvete.
Com o troco e mais 5 centarros a gente aposta na lotofácil e torce pra ter sorte e para o mundo não acabar...
Tudo por causa dos Maias, da Ana Paula Arósio, do Fábio Assunção... Irmão com irmão é o fim do mundo mesmo! (nóoo, foi ruim, admito.).
Porque parece balela, mas até o mais cético quer chegar no dia 22 /12/2012 e dizer:
- EU JÁ SABIA!!!
Eu sei que estaremos aqui com as mesmas coisas dia 22, apesar de ontem ter feito um calor apocalipso!! Profeta Chimbinha se rejubila com ventiladores e ares condicionados!
Nossa, tô falando, o quentume de ontem dissolveu alguns neurônios que possiblitaram esse post tosco com piadas ruins.
Todavia, meus caros, estamos em trânsito.
As transformações virão, pessoas vão morrer de qualquer jeito, coletivamente ou a sós.
A destruição faz parte de tudo. A gente troca de células periodicamente. Os dentes de leite caem. Unhas crescem e precisam de corte para noooossa higiene. Os caras fazem a barba, a gente repica o cabelo, depila a virilha...
As coisas precisam de manutenção e renovação. Tente sair na rua com roupas de novela épica!! Tenta não trocar a água do aquário de vez em quando pra ver no que dá!
Então,  porque seria diferente com o planeta?
Contudo, nada é pra já, a não ser o Amor!!!
E quando digo Amor, não falo de um sentimento rodeado por coraçõezinhos e borboletas, tão ornamentais quanto os bonecos de neve nos trópicos.
Falo desse Sol interior que nos aquece sim, sem nossos reclames.
Que pode nos transformar e provar que o fim do mundo não está nas catástrofes e hecatombes, e sim na destruição do homem velho que não sabe promover a paz onde quer que esteja, no homem velho e orgulhoso que nunca esteve disposto a ceder em prol do outro. Do homem velho que vomitou tantas palavras e sentimentos coléricos que criou seu próprio laboratório de dejetos.
Esse Amor conduz pela mão o homem novo que que doa e perdoa a quem fez doer! E é perdoado.
E já não importarão os graus fahrenheits ou celsius, não importarão as piadas ruins, as catástrofes, os presentes de natal, as músicas novas de sucesso do Roberto Carlos...
Não importarão os pinguins e os ursos, cada um no seu quadrado polar. Tudo estará no lugar onde que deve estar e não exigirá mais a nossa preocupação.
Porque não seremos mais os mesmos e teremos uns aos outros.
Enquanto o Sr.Lobo não vem, vou procurar um suco de laranja!
E...
Nos veremos amanhã!!!
S.P!!



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

PARTIDOS AO MEIO

 
*Ei, dor, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada...
 
Fato é que dói existir. Talvez seja inevitável.
Ocorre que existir sem que a dor possa nos conduzir a um destino, mesmo que desconhecido, é alimentar a dor de existir com a dor de não ver sentido em nada que existe, ou em tudo que existe. Isso é quase insuportável. É uma retroalimentação de dores que não nos move avante, mas que nos faz rodar no eterno retorno do mesmo.
Sendo assim, ao redor do eixo da existência, o sentido de qualquer coisa implode e se perde em si, no suposto nada, no ralo que nem havia.
Para ver sentido, viver o sentido e não se desintegrar, mesmo continuando a existir, é preciso crer em algo... Na ciência, na matéria, em Deus, deus, deuses, deusa ou só acreditar no semáforo, no avião ou no relógio. Porque não crer em nada, em absolutamente NADA, também é insuportável. Todavia, não basta crer e viver apartado daquilo em que se crê. Andar paralelamente ao que se crê, é alimentar a hipocrisia, pois, a priori, paralelas nunca se cruzam. Não há encontro, há divisas. Na hipocrisia somos partidos ao meio. Eu vejo de perto a vida em que acredito, mas vivo outra vida que mais me convém. Ou não convém. Não a mim. Estou no convés quando o leme era meu.
Sim, porque se eu assumir a vida na qual acredito, precisaria também assumir a dor e todas as conseqüências igualmente dolorosas que exigem de mim um calcinatio.
No entanto, se eu negar a vida, a dor, as crenças e as conseqüências, eu nego a perfeição do mundo e nego a mim mesma. Escancaro as portas do meu reino para que meus piores inimigos se instalem. Inimigos que nascem em mim, de minhas negas. Negações!!
A depressão entra e abre a geladeira, senta no sofá da sala, liga a TV no futebol, abre a cerveja que ela mesma comprou, coloca os pés na mesa e arrota. E por mais que eu não possa admitir, ela é minha convidada. Se não tenho a vida que quero, não quero a vida que tenho. Infeliz e formidável abracadabra do pensamento. E a insatisfação se esbalda.
Não moro em lugar nenhum, nada cabe em mim. Não me encaixo, mas me queixo, porque é o que me cabe fazer, mesmo que tudo se acabe, já que estou fora do eixo, no deserto em desalinho.
Eu já sei... Aprendi que esse caminho é solitário, que nas chamas eu preciso aceitar e não julgar minha própria dor.
Ei dor, eu te vejo e te abraço. Se você está aqui, sou capaz de lidar com isso. Sou capaz de deixar que você me faça crescer e me transforme em alguém melhor do que consegui ser até aqui.
E é assim que me vejo renascer e percebo o desabrochar de todo o sentido das coisas do mundo. Ao assumir a vida, eu encontro a redenção. A verdade que liberta é a assunção.
Devolvo ao meu íntimo o amor que eu me devia. Esse amor me realinha e me torna integral. Já não sou partida ao meio, nem me sinto tão sozinha, pois eu sei que você é minha continuação.
 
*
*
 
* O Sol de Antônio Júlio Nastácia.
E outras estrelinhas para o cumpade meu Quelemém!
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Você é filho do Universo, não menos que as árvores e as estrelas.

Vejo meus irmãos se encolhendo diante das nuvens negras e das ameaças que vêm de longe.
Morrendo de medo do outro, de tiros, de fantasmas, das contas, do resultado do jogo, de vírus, epidemias, cataclismas, bactérias, do caroço da azeitona.
Morrendo aos poucos enquanto as células se renovam.
E sinto que muitas vezes esses mesmos medos habitam minha alma, entrando pelos furos provocados por um pica pau invisível, tão sacana quanto aquele dos desenhos.
Chegamos no alvoroço das amizades e nos frustramos perante o mar que se agiganta enquanto nos encolhemos.
Um mar de lama e caos gerando frutos do falso acaso que nos provoca espanto.
Colecionamos milhares de motivos para justificar nossa fuga, nossa desilusão.
Mas só se desilude quem se iludiu, baby. Quem evitou a verdade.
A verdade sempre esteve ao alcance de todos, mesmo das mentes mais dispersas, alheias.
As vezes ela dói, mas é só na entrada. É como uma garota que perde a virgindade.
Dói, depois melhora. Depois os filhos vem disso, o frutos, o prazer, a fonte da própria vida!
Já a desilusão é uma dor pungente, que aniquila sem oferecer o alento, uma luz que compense as perdas e que te conduza a um sono tranquilo à noite.
Somos imensamente maiores do que qualquer mal que se insinue, seja aqui, nas favelas, no senaaado, nos confins da África, da Ásia, de qualquer lugar.
A gente não precisa morrer à esmo, sem respostas. A gente não precisa de fundamentalismos para ver que o fundamental é o mais simples. A gente não precisa de um fenômeno para acreditar que uma semente se torna árvore.
A gente não precisa acumular reclamações no alforge pra ver que os nossos pedidos importantes foram todos deferidos.
Por que a gente não se solta dessa estaca e se deixa levar no fluxo da vida, do nosso tempo?
Por que a gente precisa querer explicar tudo imediatamente? Alívio imediatamente. Prazer imediatamente. Paz imediatamente.
Nem a semente vira árvore imediatamente.
Nada é pra já. Os escafandristas virão e o mar será colorido como o mar de Procurando Nemo.
Como nós quando encontramos uma relíquia sentimental que perdemos anos atrás. Cores ao redor!!
As coisas precisam do tempo para se definirem.
Nós precisamos de tempo pra ver que há luz em tudo, que há perfeição em tudo.
O que é isso tudo que nos adoece senão um fragmento da eternidade?
Estamos assim no mundo, parte dele, partindo para o futuro para no futuro ser e estar em tudo, como qualquer coisa criada antes e depois de nós.
Você é filho do Universo, não menos que as árvores e as estrelas.
 
****
Se todos os astros do mundo num certo momento caíssem no chão
Toda uma série de estrelas, de poeira descarregada dos céus
 Mas os céus sem os teus olhos já não brilharão.
 Se todos os homens do mundo levantassem a cabeça
 E saíssem voando, sem explicação
 Sem a sua bagunça, seu doloroso barulho
 Não pulsaria a terra, pobre coração.
 Me falta sempre um elástico pra segurar as calças
 De modo que as calças no momento mais belo me caem no chão.
 Como um sonho acabado, talvez um sonho importante
 Um amigo traído, eu também já fui traído, mas isso é outra canção.
 No escuro do céu, cabeças brancas peladas
 As nossas palavras se movem cansadas, balbuciamos em vão
 Mas eu tenho gana de falar, de ficar escutando.
 Fazer papel de bobo, seguir fazendo tudo o que me der na telha, ou não
 Ah! felicidade

(Felicitá, Chico Buarque)

Estrelinhas para o sempre Chico Buarque, para um texto provavelmente encontrado na Igreja de São Paulo, em Baltmore, para o Renato Russo, e para Rodin, que hoje é dodlle!!!


 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

INTERESTELAR CANOA (parte 1)



Então a música surge como um carro acelerado na via urbana onde a velocidade máxima é de 40km/h. Você atravessa, mal olha para os lados e é atropelado pela sentença: é impossível ser feliz sozinho.
Uma vez que toda a trajetória, toda escolha, toda consequência, toda alegria e toda dor possuem caráter personalíssimo, podendo ser vivenciada apenas por um só, pelo dono do corpo, da alma, do espírito; uma vez que o capinar é sozinho, uma vez que embora compartilhemos a vida, cada vivência é apenas nossa, como sobreviver ao impossível? Como sobrevivermos ao fato de sermos tão fatalmente sós e buscarmos a felicidade mais que tudo?
Você se apaixona e cria laços invisíveis com a outra pessoa. Laços que unem e laços outros cujas pontas são como ventosas da sangue-suga. É uma sangria afetiva realizada consensualmente. Você se inebria e da sua boca saem palavras cheias de mel. Você conversa como se estivesse falando com uma criança com menos de três anos!!! Tô com xaudade colaxão... Quem é a coisinha maisi fofa desse mundo?!!! Amo voxê...
Sua atmosfera é o doce encanto dos dias ensolarados cheios de borboletas no jardim, céu com arco-iris, pote de ouro e talvez um doente mágico.
Você faz promessas, faz planos, faz surpresas, faz loucuras, faz sacrifícios, mas não deixa de sentir a nuvem negra sobre a sua cabeça. E aquela conhecida sensação de que há uma bigorna fumegante no estômago só de pensar que o outro pode não sentir por você o mesmo encanto, o mesmo amor, começa a mudar sua freqüência de esporádica para constante. A expectativa da reciprocidade, da exclusividade, da priorização começa a se movimentar na intimidade, desgastando as malhas finas de um relacionamento, tornando a nuvem do amor mais gris. Essa nuvem não produz chuva, mas incontáveis DRs, relatórios e "isso requer". O relacionamento começa a ficar protocolar. O outro já não pode existir sem nos afetar. Não pode sorrir do mesmo jeito, nem abraçar seus amigos do mesmo jeito. Não pode contar piadas do mesmo jeito e nem cantarolar aquela canção do passado que ele gosta, que sempre gostou, mas que você preferia que ele esquecesse... Pra você, quando ele canta, ele lembra da ex, do ex, do passado onde você não estava. Todo espaço que você não ocupa te pre-ocupa.
A construção começa a ruir, mas ninguém reclama, porque a parte boa é quente, confortável, inunda a alma de uma alegria compartilhada, de palavras entorpecedoras, de volúpia. As arestas, o desenquadrado, os desencontros, as diferenças são compensadas por essa coisa incerta que se agiganta, se intensifica quando o mundo é apenas de dois.
Você se ajeitou na cama pequena, ou na king, fez um poema, cobriu o outro de amor, e o outro agradecido, apaixonado, retribuiu, almejou o altar, a eternidade, os filhos, os nomes dos filhos. O produto disso é tão cheio de energia que se parece muito, muito mesmo com amor.
Ora, quem poderá dizer que não? Quem poderá alegar que ambos não lutariam para permanecerem juntos, na alegria, na tristeza, na dor, na doença, na fartura, no fim do mês, nas aparições da ex,do ex, dos exes, nas ligações suspeitas, nas mensagens tortas do celular, numa foto, numa postagem curiosa do face, na novata gostosa da academia, daquele colega de trabalho que é pra lá de ousado... Claro que sobreviverão. Quem tem o amor, tem tudo, não é assim? Quem poderá dizer que aquela coisa pulsante que vivem juntos, que aquela vontade que sentem de se fundirem um no outro não é amor?