quinta-feira, 1 de agosto de 2013

JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO

Querido Charles,

Se eu soubesse de antemão que haveríamos de parar onde chegamos, teria tomado um outro trem. Existem coisas das quais não me arrependo, o que não significa que faria novamente do mesmo modo.
Ao conhecer-te, pude senti meus órgãos reagindo à tua presença.
Eu pude sentir meu coração, meu estômago, minhas mãos e minhas pernas reagindo ao simples pensamento em ti. Eu pude sentir minha ânsia, minha vontade que sairia rompendo portas, atravessando paredes por ti e mesmo assim eu não poderia imaginar que ficaria pequena demais diante desse sentimento.
Se no início pude controlar, pude andar como me apetecia, dediquei muitas noites de insônia à tua existência. Se no início eu pude sentir o frescor das novidades, no fim eu poderia apenas sentir o pesar lancinante de tua partida de mim, de dias sangrando, de esperanças destroçadas. Uma rosa tão rara que entregamos a alguém com tanta sinceridade não espera ser destruída pelas mãos que a recebem.
O que não quero, meu querido, é que te sintas um monstro, como cheguei a te acusar. Se puderes, perdoe-me. Naquele momento a besta existia, entretanto, dentro de mim e queria destruir. Eu a controlei, juro que a controlei. Não pude, no entanto, deter seus urros, suas palavras, suas lágrimas.
Hoje, sob o céu onde na torpeza dos sentidos tu batizaste uma estrela com meu nome, percebo que vivencio um momento grandioso. 
Quero chamar-te pelos melhores vocativos. Quero dedicar-te os melhores pensamentos. 
Quero crescer mais do que o ódio incômodo que um dia pretendeu fazer morada em mim.
Não se imagina, Charles, que um sentimento tão bonito e terno possa um dia nos esmagar.
E nem se imagina que desse desterro que é o abandono possam nascer outros gigantes.

                                                                                            Perdoo-te.

                                                                                                               Emma

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A GENTE SABE POR QUE COMEÇOU, MAS NÃO SABE QUANDO PARAR

Se o mundo dependesse de mim para mudar, talvez ainda estivéssemos atrasados uns 600 anos. 
Mas pelamordedeus!!!!!
Enfara essa agonia jornalística, "religióstica" e "ativista" que empaca num assunto só e faz dele algo menos natural do que deveria ser. Cristãos que não amam gays que não respeitam gays que não amam cristãos que não respeitam política pipoca novela dna doença cura podenãopode pode com ressalvas aceito o pecado e não o pecador aceito o pecador e não o pecado aceito jesus aceito doações nissim miojo lamen sabor galinha o que você acha do que ele disse, do que ele fez postou pensou...
Sem pontuações, vira bagunça.
O que tem gerado esse desrespeito de todo lado é a falta de sensatez das pessoas. É a violência das vontades. É a miopia que faz o homem não perceber os limites, a placa escrito pare.
É preciso saber a hora certa de parar, ver a placa.
Gente do céu, plantou a semente, agora dá um tempo pra natureza fazê-la brotar.Vai lá, regue de vez em quando, adube o solo, mas não force a flor, porque é perigoso matar tudo. Tente tirar a borboleta do casulo e faça com que ela voe. Faça!!! Não rola, cara.
É como quando queremos dar comprimido pro cachorro doente. A gente quer que desça goela abaixo. (O remédio pelo menos fará bem pro cão).
A noção de respeito, tolerância e sensatez, a noção de amor ao próximo, respeito às individualidades e ao tempo que o próximo tem, parece ter ficado um estágio antes, na decantação do que nos é noticiado. A substância final faz mais mal do que bem... 
Opiniões nascem das notícias, das fotos, dos fatos, poxa...
Nem toda revolução que destrói violentamente é inteligente e tem bons resultados...
Antes, corrompem a ideia libertadora e a transformam em uma outra ditadura, muitas vezes até pior do que o que era antes. 
Espero que não para sempre, aNéim!

Queria fazer um trocadilho com A Revolução dos Bichos, mas... deixa pra lá!

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O PARAÍSO


Eu queria ter mais atividade cerebral de ambos os hemisférios.
Eu queria entender tudo o que não sou capaz de sentir.
Queria chegar às conclusões exatas, lógicas, queria a palavra.
Eu queria sentir tudo o que não sou capaz de entender.
Queria chegar às emoções imprecisas, voláteis, queria a poesia.
Porque ter a consciência da maravilha da natureza, da perfeição do universo,
da magnitude das leis, do poder astronômico do amor e não entender e sentir senão uma ínfima parte de tudo isso, é como ter que cruzar o continente americano, o africano, o europeu e o asiático a pé, enquanto dizem que preciso apenas de um passo pra ser feliz.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

TERÇA (23/07/2013)

o dia rendeu, meu bem
que conste na ata
sanfona silenciou
e habemus papam

medalha na água
melhor pro brasil
tubarão matou no mar
nevou lá no sul

agora é inverno
mas no meu jardim
tem flor se abrindo
tem mato e jasmim

O tales virá
djalma já foi
a rua é de reza
rio de janeiro

o crime ainda
vai descompensando
na pauta que segue
do telejornal

em volta do mundo
a vida acontece
e mesmo com tudo
parece normal

depois a novela
pra ter audiência
inventa o enredo
distorce a moral

na sala ou no quarto
sem ponto no ibope
eu sou a notícia
o papa é pop

E o pop não poupa ninguém.




terça-feira, 23 de julho de 2013

Pelos poderes de Grayskull (irmã luz)

Toda manhã quando vou ao banheiro (e isso é quase religioso), levo qualquer coisa pra ler enquanto a vida acontece. Se a hemorroida não desabrochar, creio que continuarei com isso porque me apraz e porque tenho dificuldade de ficar sozinha comigo mesma dentro do banheiro. É um exercício que preciso fazer,: desfrutar de minha companhia com mente e coração, contudo, enquanto o Sr. Lobo não vem, compartilho minha existência com coisas exteriores. Gosto de estar só (de sozinha) no quarto, sentindo meu corpo, minha respiração e procurando não ter pensamentos sobre nada. Mas no banheiro, se eu não tiver algo pra ler, represento um personagem que está doando a medula espinhal. (...) É minha novela imaginária! Imagino sempre que ao final alguém segura a minha mão, em solidariedade à minha dor, embora o que sinta realmente naquele instante nem seja dor, e sim alívio, uma espécie de felicidade em formato mínimo. Mas nem é sobre isso que eu queria falar. É sobre o conteúdo do que li nesta manhã. O texto é atribuído a Nelson Mandela e diz: 
"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta."
Parece que foi um discurso de posse em 1994. Não importa. 
Penso, será que temos mesmo medo de nossa grandeza? Medo de procurar por ela, de remexer o lixo para encontrar luz? Será que temos preguiça de procurar? Será que somos mesmo como molas que se abstém da luz pra não assustar quem está ao redor? Ou ofuscar, ou destruir, ou tubro? Pergunto isso porque sempre acreditei que nosso maior anseio era encontrar a luz e faze-la resplandecer, deixar que a nossa melhor parte se mostrasse ao mundo. Fica escuro quando a melhor parte esmaga o mundo. Vejo esses grandes líderes que revolucionaram o seu país sobre o sangue de milhares e vejo o Darth Vader que por ter medo foi para o lado negro da força. Todos tiveram o poder nas mãos, mas talvez o poder estivesse encapsulado na camada sombria de medo que reveste toda luz que esclarece e ilumina. Medo que adultera as formas de administrar o poder.
Pensemos em coisas simples como ter visão raio-X e conservar os mesmos padrões éticos. Como ser invisível e não tirar vantagem disso arrombando segredos e privacidade alheios. Se eu for simples mortal, não represento perigo pra ninguém e nem precisarei lutar contra mim mesma para me manter sã e moralmente aceitável. A mediocridade não oferece riscos em si. O problema é a manipulação da mediocridade. É prender o vaga-lume numa caixa opaca e sem furos. 
Ocorre que a manhã será e quando amanhece e os gatos deixam de ser pardos enquanto a luz traz o escândalo.
E para o escândalo não adianta protetor solar fator nenhum.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

UNIVERSO ELEGANTE

Perceba entre nós esses raios, essas ondas que oscilam.
Meu coração bombeia dados para seu arquivo.
Tente decodificar-me e verá a si mesmo em cada fibra.
Não somos um sistema complexo. Somos mais do que isso, que sobreposição de tempo e espaço, que matéria que se decompõe ou se eteriza.
Quando amo, sinto que são múltiplos universos em mim.
Talvez eu possa lhe mostrar o infinito em pequenos atos.
Não preciso de muitas cordas pra fazer uma canção, atravessar portais e lhe encontrar no futuro. Com apenas seis cordas eu lhe oferto serenatas. Com apenas uma supercorda nós comeremos areia como minhocas fazendo buracos no mundo pra descobrir as respostas que nos levarão à luz. Perceba os  mil renascimentos de cada coisa que morre, que se transforma enquanto você corre para pagar as contas e fazer o dever de casa.
Tudo isso só faz sentido quando assumimos um lugar e nos tornamos parte dele.
Isso só faz sentido se tudo com o que nos relacionarmos identificar nossa energia e reagir à nossa existência. Saberemos que estamos em casa.
Quando acordamos, você viu que éramos uma espécie incrível com mecanismos atrofiados, mas se você fizer as contas, saberá que basta se exercitar passo a passo para reativa-los.
E então, com todos esses cálculos, conseguiremos entrar na mesma faixa vibratória com o lado direito do cérebro e renovar o universo ao redor.

terça-feira, 16 de julho de 2013

SEM QUERER

Acidentes não são previstos.
Se forem previstos é porque há erros e se os erros não forem sanados, não será mais um acidente.
Nesse caso, a quem poderemos culpar?
Quem deixou de observar o dever que tinha de cuidar para que as coisas não se complicassem?
Quem será culpado por negligenciar detalhes importantes do processo?
Quem vai pagar por agir sabendo no que ia dar, por não ignorar que em determinadas circunstâncias de atmosfera e pressão uma bomba explode, uma tampa voa da panela e atinge o teto da cozinha?
Quem sofrerá a pena por ousar conduzir situações sem conhecer as variáveis e as constantes, por dar testemunho do que não viu, por afirmar o que desconhece?
Quando estivermos caminhando pelos escombros, juntando os cacos e fazendo torniquetes para estancar o sangue, suplicando anestesia para que a dor não nos aniquile, a quem atribuir os danos?
Ninguém precisava de bola de cristal para antever os fatos, entende-los e agir conforme esse entendimento.
Se podem nos imputar a responsabilidade, é porque sabiam que nós possuíamos condições de evitar o estrago.
Nem sempre fica claro que um Dó sustenido menor vem após o Lá. Mas é uma possibilidade a se considerar.
Assumimos o risco e agora dolosamente optamos por isso ou aquilo seja lá que efeito isso ou aquilo cause, entretanto, se alguém se ferir, se algo quebrar, não foi por querer.
O que deveria ser feito, foi feito. No tempo disponível, com os recursos disponíveis.
Por mais que você diga que havia como agir de maneira diversa, quem sabe bem é quem tinha o leme nas mãos.
Essas coisas que nós assumimos, o desejo de que alguma mágica sustente o mundo e reverta as leis naturais para que tudo fique intacto no fim, nos torna mais culpados ou menos culpados?
De qualquer maneira, não há acidente previsível...
Ou não seriam acidentes.

terça-feira, 9 de julho de 2013

SÓ O HE-MAN TEM A FORÇA E É INVENCÍVEL

A Espanha perdeu pro Brasil, o que não seria nenhuma novidade em 94.
E o Spider perdeu pro Weidman. O que não seria novidade se ele não fosse invencível como a vara cível.  O SpiderMan sempre vence os vilões, o que não era exatamente o caso do Weidman. Tiraram o man do Spider e colocaram no Weid, por isso ele perdeu. Tira o "homem" do ringue e deixa por conta dos prazos... Se não pagar em dia, vence mesmo. Quem ganha? É claro que é quem comprou o carnê do baú ou quem apostar corretamente no sexo do bebê real da Kate e do William. Ele é um feto real, todos os outros são de mentira e quem aposta em mentira?? Quem?
Quem já sabe que vai ganhar, é claro! Ou Salvador Dali, porque pra ele tudo é surreal.
O caso foi que o moço lá fez firula, e isso é uma afronta laranja ou uva se preferir.
Afronta Uva pra tomar de canudinho ou no queixo. Dançou com Marisa Monte e dançou na lona.
Eu também queria socar a cara de quem me afronta, o que não seria nenhuma novidade em 94. Mas hoje quero atlânticos e pacíficos.
Tô na maré...
Estou aqui e ali enquanto o caos segue em frente com toda a calma do mundo.
Tudo bem. Sei da obediência das coisas ao tempo e isso me deixa em paz.
As vezes uma notícia me leva a nocaute, desnorteia e eu fico só para leste ou este norte precoce. 
Muuuu, Sul, Mano, vacas dizendo gírias funkeiras ruminam na minha cabeça sem orientação, aliás, orientada conforme meus próprios protocolos, afim de ver novo faraó reinando no Egito, só pra saber se cola ou se o Brendan Fraser aparece para resolver o conflito. De quebra, viria pra cá, juntamente com o Homem Aranha e todos o X-Man decidir se o plebiscito rola ou Rolling Stone. Ah, tá... O Homem Pedra também...
Disseram que meu olhar ficou desfocado. Sim, perdi as focas da retina e agora tenho um parque aquático na íris sem foca, apenas baleias dançantes. Baleias são tudo o que vejo quando olho o futuro ou pra borra de café. Adoro batatas fritas, chocolate e refrigerante, mas não posso mais me dar o luxo sempre, porque isso me expande e não quero ser sua ex mulher caso eu mude progressivamente de manequim e isso te afete. Faith no more só pra ouvir Easy com eles, porque minha fé não costuma faiá. Sempre tem mais de onde vem esta.
Olha, eu poderia te dar uma rosa, o que não seria nenhuma novidade em 94, mas se eu fizer isso hoje, seria tão inesperado quanto a jornada de um Hobbit. E eu estou sendo muito literal, my dear! 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O FUTURO ACABOU DE ACABAR


A lua estava tão perto e tão cheia de tudo
explodindo e rindo, dando gargalhadas
enquanto daqui eu a contemplava
sem ver tanto tamanho no que ela era
sem saber ao certo a medida exata das coisas:
sempre fica um ,0058
que a gente quer arredondar
Eu não gosto de comer a ponta do pão
e a ponta da salsicha jogo pro cachorro
Não fiz um cartaz e não sei o que reivindicar
enquanto fazem por mim o almoço
vou comer quando a fome matar
vou morrer quando a hora chegar
mas por ora, não posso me pronunciar
pra não correr o risco de dizer bobagens
pra não matar no útero verbal
o que poderia nascer de bom
Fico aqui fazendo o que me cabe, onde alcanço
fazendo o que acredito e vejo florescer.  

Precisamos semear e isso é tão urgente...

Americana Pátria, morena  
Quiero tener Guitarra y canto libre  
En tu amanecer.
(Semeadura de Vitor Ramil) 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

ATALHO

Então desceu dos céus um cometa fulgurante que espatifou o asteróide pequeno que todos chamam de Terra.

E o problema foi parcialmente resolvido.

FIM

******

Música incidental: 

Parabéns, ó brasileiros!
Já, com garbo varonil.
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

*****
Resplandece a do Brasil? Deve ser por causa das dimensões continentais. De qualquer jeito, o cometa... 
Enfim!

******
Estrelinhas para Zé Ramalho, Evaristo da Veiga e D.Pedro I

terça-feira, 11 de junho de 2013

CORAÇÃO RAMALHETE

Pois é...
Os fatos me anestesiaram e eu parei de sentir saudades.
Vez ou outra, quando ouço uma frase ou uma música, as lembranças tomam primeiro plano e nasce um sorriso que morre logo nas reticências do ato.
Alguém me disse que não sou uma boa amiga.
Eu só acho que não tenho apegos.
As pessoas passam. Sentimentos se intensificam quando as pessoas são constantes e cotidianas. A convivência as torna tão essenciais! Merecem nosso afeto, declarações, gratidão, mensagens de texto, e-mails gigantes, ligação pra falar sobre nada. Não possuo facebook e isso me distancia ainda mais do presente frenético que nos envolve e  nos aproxima. (Será?) Ver suas fotos e frases talvez não surta o mesmo efeito do que estar em suas fotos e frases! Acreditamos na distância entre nós.
A vida é repleta de caminhos e em certos momentos tomamos rumos diferentes, vamos pra longe, conhecemos outras pessoas e estreitamos outros laços, pela vontade ou pela necessidade, consequência das escolhas que fizemos.. As vezes velhos amigos se reencontram e percebem o quanto mudaram. Quantos filmes deixamos de ver juntos no cinema? Quantas coisas deixei de cozinhar pra vocês? Há quanto tempo eu não ligo no seu aniversário? Quantas notícias você deixou de saber e que agora tanto faz? Quantos interesses mudaram?
Meu amigo, meus amigos, que nem visitam mais ou nunca visitaram esse blog, ninguém deixou de ser importante. O tempo é como âmbar que preserva o que se passou, o amor que desenvolvemos juntos. 
Na arqueologia de minha vida, a amizade que houve é fóssil que descreve nossa história e relata a importância de uma época. O que estiver por vir nos reencontros, é outra forma de vida com o código genético originado em nosso passado, forte, bela e estranhamente nova.
*
*
*
Estrelinhas para A Lista do Oswaldo Montenegro e para o Clube da Esquina

terça-feira, 4 de junho de 2013

CÉU - DE ONDE SAI O DIA

A criança que fui era como uma jujuba verde.
Alguns gostam, mas a maioria rechaça.
Eu montava o mundo com as peças erradas e achava impressionante o mundo simplesmente entender o contrário do que eu entendia. O meu óbvio era um absurdo para os outros e foi por sorte (ou mérito) que tive uma família que decodificava meus absurdos e os transformavam em algo normal.
Ocorre, que a verdade está la fora.
Demorei muito para aprender algumas coisas.
Aprendi a duras penas o significado da palavra depois.
Fiz um pedido de manhã e me responderam: depois.
Esperei tanto esse depois... Quando o pedido foi atendido, o sol já desaparecia no horizonte.
Passei muito tempo da minha infância acreditando que "depois" era o pôr do sol.
- Olha mãe, que depois bonito!
Outra vez era perguntar pra onde meu pai estava indo.
Ele dizia: Pra China.
Um dia, de tanto insistirmos, meu pai levou a mim e ao meu irmão pra China.
- Pai, leva nós na China?
- Paaaai, nós qué i pra China também.
(sic)
E ele levou. Era uma bica no meio do mato, a uns 10 km da nossa casa.
A gente enchia o cantilzinho de água e voltava pra casa. 
Lembro de que lá havia  2 vira-latas, um caramelo e um preto.
Cachorros da China que nunca pudemos levar pra casa.
Eu adorava ir pra China, sem carimbos e passaportes, só o velho passat.
Outras vezes via o Jornal Nacional e quando eles falavam de conflitos, eu achava que cada país era uma bola girando no espaço e que se um brigasse com o outro, ia sair um monte de bolinhas da bola maior, como pedras arremessadas. Não sabia distinguir países e planetas. Pra mim tudo era uma bola colorida girando no espaço cheio de estrelas e de problemas.
O pior pra mim foi o ingreso na escola.
Foi a coisa mais mágica e mais sofrida que aconteceu nos meus 5 anos.
Eu e o meu irmão não fizemos o maternal. Entramos direto no pré, hoje 3º período, pois somos do início do ano.
Nós já sabíamos ler, mas eu não sabia socializar.
Meus colegas não sabiam ler, mas sabiam o mundo.
Um dia a professora pediu que fizéssemos tiras.
Quando ela disse "tiras", me deu uma angústia enorme.
Olhei para os lados e vi que meus colegas cortavam o papel parecendo batata frita. 
Pensei preocupada:
Nossa eles vão fazer um tanto de tiras. Eu não sei fazer nenhum direito.
Naquele momento, comecei a fazer o melhor desenho que podia em um pequeno espaço.
Fiz o quepe, o uniforme, o distintivo e o revólver.
Depois fiz outro e outro.
E a professora veio perguntar o que havia de errado comigo:
- Por que você não está fazendo tirinhas como todos? Agora não é hora de desenhar.
Falei que fiz sim e mostrei o desenho dos tiras. (Na minha cabeça só lembrava das frases de A Gata e o Rato).
Ela pegou e levou embora. Disse que tava errado.
Me deu outro papel e pediu pra eu fazer de novo.
Fique sentada em minha carteira com a tesoura na mão e o papel na outra.
Estava um pouco aliviada de não ter que desenhar policiais (eu ainda não desenhava bem e isso nunca mudou muito!), mas também decepcionada de saber que minha missão era fazer um monte de batatas fritas sem graça.
E assim a gente começa a descobrir que uma palavra pode significar mais de uma coisa e que se você não entender as coisas direito, a professora vai acabar achando que seu pai tem problemas com a polícia.



Legal ver:
http://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/dicionario-feito-por-criancas-revela-a-adultos-um-mundo-que-ja-esqueceram/

quinta-feira, 23 de maio de 2013

INÊS, ATA A MEDIDA!

 
É só chover para que as pessoas comecem a censurar quem sente frio quando chove.
Qual é o problema de vestir meu casaco?
Ficam se vangloriando, falando do frio do sul do país...
Os mais sofisticados ou aqueles que aproveitam pacotes aéreos baratos dizem:
- Se você estivesse em Bariloche, saberia o que é frio.
Hahaha!!! Bariloche!? Tem dó...
Não. Eu não sei do frio de Bariloche, porque eu moro em Sete Lagoas e aqui fica quente na maior parte do ano. E nem sempre quando chove faz frio.
Mas às vezes eu sinto frio quando chove.
E daí?
Isso é simplório? Isso me desabona? Isso te incomoda?
Por que?
Não preciso estar na Groenlândia,
em Bariloche ou no Bar da esquina pra saber que as pessoas têm dificuldade de deixar que as outras pessoas vivenciem sua esfera íntima: o sentir.
Isso é algo personalíssimo. Que seja psicológico ou não. Incoerente ou não. 
Se a pessoa sente, essa é a verdade dela naquele momento.
Por que taxar, fazer pedágio, tributar o que o outro sente diferente de você?
Analisam o outro com suas inexatas medidas e liberam fórmulas como caixas eletrônicos liberam comprovantes*.
Então, se chove em Sete Lagoas e você não sente frio, isso faz parte do seu quadrado, mas no meu quadrado cabe sim um casaco, que eu até posso tirar daqui 15 minutos, mas vou colocar porque estou arrepiando já.
E também vou tomar um caldo no final da noite.
E deixo que diguem, que pensem, que falem...
 
* Caixas eletrônicos às vezes não liberam comprovantes, há que se salientar!!!

terça-feira, 21 de maio de 2013

LOGÍSTICA

 
Ele portava as peças importantes
E ela, outras peças importantes
Mas quem se importava a ponto
de comportar o que era preciso
no mesmo suporte?
Ele, meia boca.
Ela, meio cansada.
Sem fins que justificassem
os meios escolhidos,
Sem e-mails, cartilhas, mensagens
ou manual de instruções.
Ambos perambulavam incompletos
buscando outra forma de montar a paisagem:
Um medicamento, uma nova lei,
Uma cópia autenticada da peça que falta,
uma cláusula em letras pequenas
no final do contrato.
E até que decidissem unir seus recursos,
continuariam quebrando a cabeça
com todas as peças nas mãos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

CHAMA DAS ESTRELAS (Amor, futebol e gestação)

 
 


 
 
 
 
 
 
 


 

 
 
A cidade acordou alvinegra.
Antes isso fazia tanta diferença:
Nós chorávamos, lembra?
Hoje pouco importa
É só azucrinar o amigo, o chefe, o parente...
Ser vencedor sem benefícios.
Nunca fui de vestir essa camisa.
Enfim, não há mais grandes ganhos a não ser as faíscas
Muita coisa vira faísca enquanto outras se tornam incêndios, cinzas e fumaça
Não sei dobrar o fogo embora seja menina de elemento fogo de ascendente fogo.
Vivo com um balde de água na mão e combustão no peito
Aliás, é mentira, tenho peitos pequenos e campos minados.
Queria ter campos elísios, mas por hora, vivo meu calcinattio
O galo canta cedo, enquanto o céu ainda está estrelado.
E o amor é uma habilidade em desenvolvimento em mim.
Preciso de ar, outras terras, de água benta e não fogo fátuo.
Preciso me mover no éter, solver a eternidade
sentir novamente as possibilidades de conseguir equilíbrio no escuro e no frio
pacificar tempestades e oferecer flores aos meninos e meninas que vão chegar.
*
Pequeno (a), aqui não parece ser tão promissor, mas somos os homens presentes
e lhe amaremos, preparados ou não, lhe amaremos.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

MEDIDAS

 
Todo mundo tem uma dica,
um conselho pra dar,
todo mundo tem boa intenção,
remédio pra curar,
todo mundo sabe o melhor preço,
a melhor promoção,
todo mundo quer um grande mar
pra dissolver o verão
  
Todo mundo sabe o melhor trecho
pra você caminhar
Todo mundo sabe a melhor hora
pra você começar
Todo mundo quer dizer a dica
que melhor lhe couber
Sempre que você chega com o doce
o povo mete a colher
 
Todo mundo quer gratidão
dos conselhos que dá
Todo mundo tem opinião
pra você creditar no final
se afinal você acertar
Mas decerto haverá deserto
se no fim o seu caldo entornar
 
Na pressão, todo mundo é esperto
e na pressa chegamos tão perto
e morremos de tanto nadar
Percebemos, então, a verdade
que aos outros caía tão bem
Perecemos de fome e de sede
no próprio armazém.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CANÇÕES PARA CHAMAR A CHUVA


Provavelmente
não sou o tipo de pessoa com a presciência felina
que protege o coração porque prevê o golpe.
Se apenas por algum acaso eu antecipar seu movimento,
rezarei pra que ele mude e se torne um afago ou um aceno, quem sabe?
E mesmo que ele se perca no nada, no que poderia ser e não foi,
 haverá um ganho, um alívio, uma graça.
Acho graça no mundo mesmo quando ele cospe, mesmo quando escorrego no lodo
e ostente após, um hematoma no corpo
Não é felicidade o que sinto, uma felicidade de hiena, dispersa de sentido
É mais uma certeza que dispensa senhas e logins,
que não precisa ser iderrogável nem absoluta.
Certeza de que as coisas são cheias de obediência.
Isso me enche de paz e paz é quase felicidade.
Colocaram um manifesto anarquista na porta e
mesmo assim as coisas obedecem, zombam dos manifestos.
A ordem está na impressão digital de tudo.
Tudo se reveste de cadência e ritmo e produz música.
O universo inteiro é uma sinfonia.
É a subversão do movimento e isso me deixa deslumbrada.
Você não ouviu, não ouve?
Chama de ingenuidade, porque eu acredito,
mas eu lamento sua surdez
e aguardaria seu golpe como aguardo o espirro,
mesmo que ele desista e me faça lacrimejar sem nunca ter sido espirro de fato.
Eu sei que ele quis, eu o senti, mas fica entre nós e meus olhos molhados.
Insisto no sorriso, embora você va me ver chorando algumas vezes.
Quando dói, eu sei chorar.
Quando dói eu reclamo e quero atirar também.
Quero sair pregando manifestos, revelar a ferida,
Expor a carne e a nudez da alma,
matar a chineladas as moscas que rondam,
fazer você sentir que pode doer em você
com a mesma intensidade que dói em mim...
Mas você tem um sistema nervoso central e o meu sistema é suburbano.
Vejo suas pernas inquietas e isso não me irrita como lhe irrita quando são as minhas.
Suas pernas também obedecem, marcam o compasso frenético
 e embora eu não possua a presciência dos fatos, antevejo com todo o meu estômago
o efeito das palavras e sentimentos que estão em você em estado gestacional.
O chão é um tamborim.
Pressinto uma canção prestes a emergir.

E certas canções, eu bem sei, são para chamar a chuva.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

TORTO

Estão cada vez mais frequentes as histórias trágicas que aparentemente demonstram que o ser humano faliu. Isso sedimenta no coração das pessoas a sensação e quiçá, a certeza de que não existe sentido nas coisas, no mecanismo da vida. A criminalidade, a decadência da juventude, a epidemia da depressão, a imundície na política, nossas leis tão imperfeitas como nós, as crianças que matam e que morrem, a educação deficitária, a desestruturação da família... São fatos que tem cheiro de apocalipse. São fatos que corroem a fé frágil, a esperança morna e o amor desbotado. São fatos que entortam o sistema nos fazendo pensar em soluções mais problemáticas do que o próprio estado vigente de tudo.
 
Muitos se preocupam com a estrutura do telescópio e esquecem das estrelas no cosmos infinito. A simplicidade está nas coisas comuns. Amar é comum, é natural, mas não é pauta das reuniões de Estado. E dái?

As coisas não vão bem, mas nunca foram tão melhores do que estão e nem por isso estamos em extinção. Passamos por guerras, por calamidades, ainda há vida na Somália e no Haiti! A Alemanha está de pé, a Rússia também. Os japoneses continuam avançando a tecnologia. Nós perecemos, mas nos preservamos, e já que não funciona combinar um suicídio coletivo e morrer todo mundo junto (sempre haveria um furão!), então por que nós mesmos não construímos o sentido para o existir?
O mundo pode nos entristecer, mas não devemos desistir por que um cara levou um tiro no semáforo em plena manhã ensolarada no centro de uma metrópole.
Na boa, eu me assumi cristã aqui e nunca gostei de ficar pregando ou doutrinando as pessoas. Cada um sabe o que lhe apetece, no entanto, se eu cito Sartre, Durkheim, Marx ou o Homer Simpson, não posso ter cautela em citar o Cristo.  Ele, ao ser questionado por Pedro em determinada passagem do Evangelho, sobre o destino e as tarefas de outro discípulo, responde de forma bem significativa:

“Que te importa a ti? Segue-Me tu.”
 
Gostas formam o oceano. As respostas são simples e simplicidade não é simploriedade ou ingenuidade, utopia. É da lei. O ser humano só vai falir, se eu falir.
O amor só é aniquilado se eu deixar de amar.
E a Terra vai continuar girando, bem ou  mal, todavia, girará muito melhor se eu fizer a minha parte.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Reverência à Vida!

 
Procuramos aflitos o ouro
Em montanhas, em escavações
Nos ferimos demais, nós suamos demais
para encontrar minerais sem valor
 
Nós perdemos a fé no início
e vertemos a lágrima vã
Nos movemos demais, nós perdemos demais
olvidamos o ensino da dor
 
Nossos braços agora são fortes
E mais forte é nosso coração
Percebemos sinais, descobrindo, afinal
que a mina está dentro de nós
 
Preciosa vida burilando seres
Na forja, na lida, na força do sol
no amor que doa, no cumprir deveres e
nos passos que deixam um rastro de luz
 
Ave, Vida!

terça-feira, 7 de maio de 2013

INTIMIDADE

Não é contar segredo.
A gente nem sabe guardar segredo.
Não é o sexo.
Para muitos, sexo é fácil e rápido de conseguir.
Não é olhar o contra cheque,
conhecer os pais,
viajar junto,
ter conta conjunta,
ter fotos e sorrisos e amigos em comum.
Intimidade é soltar pum
e não se envergonhar.
(...)
E fazer isso de novo.

Depois disso, meu filho, aguenta.
Entre a intimidade e o respeito escasso a linha é tênue, meu bem!!!