segunda-feira, 28 de julho de 2014

BUBBLE SHOOTER


Minha memória não retém os caminhos.
Me perco tão facilmente em lugares conhecidos que você já não distingue minha distração da minha estupidez.
Suponho que uma parte invisível do meu cérebro ficou amarrada em alguma árvore da Terra do Nunca, e sua parte material manifesta certos pensamentos infantis que surpreendem até a mim mesma.
Você me perguntou o endereço e eu só conseguia imaginar a estratégia para vencer a próxima sessão de bublle shooter. Imaginei meu canhão batendo na lateral da tela para ricochetear e acertar todas as bolhas que ameaçavam chegar ao limite e me levar ao game over.
- É por aqui mesmo?
- Oi?! Não faço ideia, meu bem.
- Mas você disse que foi até lá no mês passado.  
- Olha, eu não saberia chegar lá nem se voltasse no dia seguinte, quem dirá hoje. Liga o GPS. Eu sei o nome da rua.
- (...)
E você suspira fundo, como se fosse um suplício suportar (e conviver) com certas limitações que eu trago, com minha falta de organização e de visão tridimensional. Mal sabe você, que sempre que você vem desprovido de razão, com seu dedo em riste, eu penso no bubble shooter e faço centenas de pontos imaginários até você extravasar e achar que venceu.
Nessas horas, se você me colocasse nessas máquinas que olham tudo por dentro do corpo humano, veria que no lugar do coração eu possuo uma imensa bola colorida prestes a explodir diante dos seus olhos.

E esse ponto seria seu.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Um orgasmo poético

Foi o que tive após a apresentação de José Miguel Winisk aqui em Sete Lagoas ontem: 22/07/2014. 
O poema é do Gregório de Matos que o Winisk musicou e fez servir de trilha para o espetáculo Onqotô, do Grupo Corpo. Não quero mais intrometer minhas palavras aqui. Apenas observar o eco. Enlevada.

MORTAL LOUCURA (pra clicar!)

Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra
.
Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

*A fé ruge e o meu coração dilata


Não que essas sejam as melhores palavras...
Às vezes a excelência está na brecha de silencio.
Às vezes a poesia se compreende na pausa do verso.
Às vezes a gente entende a vida quando cansados, paramos para recobrar o fôlego.
O próximo passo da caminhada é ressignificado e nada mais será do mesmo jeito dali pra diante.
É aqui onde me encontro. Em agonia diante de uma silenciosa página em branco.
Ela é uma mão estendida, uma convocação.
Ela insinua (embora nem sempre ensine) que podemos criar as coisas, sermos pequenos deuses preenchendo as lacunas da tela do mundo com nossa própria tinta.
O silêncio é um manifesto pregado na porta que nos conduz para dentro ou nos remete para fora, como força centrífuga, supernova.
Em qualquer desses movimentos, as coisas não deixam de existir, por mais que as olvidemos.
O sol continua brilhando por mais que meu coração se confranja em tempestades, temendo as guerras, os líderes, o câncer e as falsas promessas de bonança.
O câncer parece uma palavra mal escrita que me afeta mesmo que eu saiba ou suponha sua razão.
Eu posso estar cheia de palavras e sons, mas quando vejo a ferida crescer em nós, tudo o que o pensamento publica no cosmos ao meu redor é um erro de digitação que o word não corrige automaticamente ou uma nota irremediavelmente dissonante.
Quando eu respiro, sei que há perfeita ordem, mas para uma pequena engrenagem há de haver uma reprogramação a ser feita, que nos impeça de ruir a máquina que integramos. A nossa ideia de ordem precisa de manutenção, de reajuste.
Um lenitivo que possibilite a permanência da sanidade.
Se uma verdade que eu não quero saber, simplesmente vem á tona, o que fazer para não ir á lona a nocaute outra vez?
Se a montanha aparece de repente no meio da paisagem, sem aviso prévio ou anestesia, preciso elevar a minha fé a nível de sayadin e remover outros apegos, gestos, restos e a velha necessidade de mais palavras. De pá, de lavra. De terra.
É preciso lavrar o solo da calma, da alma, esperar florescer aquelas sementes plantadas lá longe, com  a esperança que depositamos no amor. Os desatinos das lágrimas que ainda me restam, são rastros rebeldes da construção de um livro gravado a ferro e lava vulcânica através das eras que me compõem. 
Desvencilhar desse caminho, é quase que exigir do silêncio o fim do som. 
Eu ouço coisas que não quero acreditar e elas transitam pelo espaço à minha revelia.
Se eu pudesse converter a angústia em diamante agora, se em minha prece coubesse a fé, eu poderia, quem sabe (?), ter a riqueza suficiente para doar de mim a melhor frase! Aquela frase cheia de poder que lhe convenceria de que tudo vai ficar bem e que tudo aqui é efêmero, por mais que a dor neste instante seja aguda.
Mas (...) veja você, estou aqui rogando por mim mesma, porque no fim eu sei que essa lacuna que se estende diante dos meus olhos não é uma ruptura irreversível do mundo e mesmo assim eu dificilmente posso suportá-la.
São minhas placas tectônicas de medo procurando uma boa posição para que a superfície fique em paz.
Talvez seja um plano meu.
*
Estrelinhas para Teatro Mágico
"Se é na sutileza,
Que reside a exuberância.
Busco ressonância,
Nos ideais do amor."

terça-feira, 8 de julho de 2014

Fim de expediente

Notei todas as páginas em branco em sua agenda
Agora tudo o que você fez naqueles dias, jamais saberemos.
Meu sangue ficou coagulando enquanto eu decidia que destino tomar
Mal dá pra enxergar a espessura do corte.
Acho que às vezes minhas palavras são como uma folha A4 e se não manusear corretamente, pode cortar sua pele com uma lâmina de celulose e sangrar.
No meio da rua um silêncio de mar quando recolhe as ondas.
Você desconfia do porvir e procura ficar a salvo.
Preciso preencher uma planilha e todas as palavras do mundo resolveram orbitar ao redor dos meus olhos.
É uma distração que arde e paralisa no mesmo refrão.
Se nossos olhos se cruzarem, eu não vou precisar saber de nada.
Isso do sentimento emergir como um monstro da lagoa é a nossa lenda urbana particular.
Não haverá nenhuma frase insinuante, um esconderijo de intenções entre as palavras em meu texto.
Não.
Tudo é muito preciso, como o corte em minha mão.
Estou prendendo a respiração até parar de sentir a agonia da expectativa.
Porque há chances de tudo cicatrizar, mesmo que eu não feche o caixa do dia.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tem que acontecer

Estivemos a fazer esses recortes
e a cola secou na ponta do bastão
O tempo chegou chutando a porta
enquanto eu dormia sem roupa.
No susto perdi o pudor e a coberta
Tudo ao redor era a alguma-feira.
Não sei se é assim contigo
de o caminho parecer desencaixado
e o nosso passo, por mais firme - parecer  trôpego
e a iminência do tombo te fizesse parar por instantes
recobrar o sentido da seta e da escolha
recobrar a memória e o fôlego
e adoçar o próximo café pelo menos uma colher a mais
O crepúsculo deixou o céu lilás
Isso enfeita o dia com uma poesia de troco
mais bonita que o troco do pão.
Por tudo o que a gente paga, é suficiente.
Mas o sol indo embora não colore os fatos
os gráficos, os índices e o cinza que o inverno imprime
quando falta uma peça e não há nada que me impeça de ser integral.
De que adianta? A cola acabou e eu não tranquei o quarto,
quebrei o relógio e o tempo continuou passando...
A gente ficou se olhando sem as palavras pra dizer.
Se eu perdi por negligencia o que foi fundamental,
agradeço a Deus pelo violão no canto
com todas as cordas e um canto que ainda não sei.
É só respirar e ir adiante.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

...

Nossa palavra pode construir esses castelos
erguer mundos e organizar suas órbitas, transformar a linguagem, 
dominar e denominar coisas.
Nossa palavra pode provocar guerras, destruir pontes,
formar tempestades, evocar e repelir energias.
Nossa palavra pode curar o mal, pode erguer o mar
pode elevar o amor ao mais alto patamar da vida.
Mas há momentos em que a vida é como uma onda gigante quebrando
furiosa sobre nós.
 E nesse momento, a palavra em toda sua grandeza e glória
não pode fazer absolutamente NADA.

                                                                                            * Ao Miguel

segunda-feira, 26 de maio de 2014

COMPREENDER A MARCHA

Se estamos aqui, agora, com tanto a oferecer, é porque nós podemos fazer aquelas marcas se tornarem insignificantes. Da insignificância, extrairemos a luz e as marcas um dia brilharão, provando que o tempo e o amor podem sim consertar o mundo e nos conduzir de volta a um caminho seguro.

No universo que se movimenta, é difícil que algo não saia do lugar e não se quebre. Talvez nosso trabalho de manter a ordem seja apenas um ensejo para fortalecermos nossos músculos, nosso afeto, nossa compaixão e não necessariamente controlar os fatos.

Talvez todas as notícias ruins e a dor ao nosso redor sejam uma rogativa da vida pelo nosso melhor, pelo nosso esforço de entender que estamos todos meio quebrados, que estamos adoecidos e precisamos trabalhar a nossa cura, cuidando da ferida do outro.

Talvez as lágrimas que rolam em nosso ombro sejam um chamado da Vida, convidando ao despertar, à compreensão dessa aurora que trazemos em nosso coração. E é tanto sol, tanto sol, que não se enxerga a culpa, os erros, os débitos. 

Não, não pare. Não paralise agora, porque temos muitas bênçãos e não precisamos permitir que um único espinho aniquile o jardim inteiro.

Juro, quando vejo sua ferida, queria ser um pajé, um milagreiro ou retornar ao passado e impedir que todo mal atingisse você de uma forma triste e cheia de ramificações, no entanto, esses são poderes que não tenho.

Mas eu posso estar aqui.

E posso ser aquela pessoa que vai *te abraçar tão forte que todos os pedaços quebrados dentro de você se juntarão novamente.  E aí eu saberei também que estou inteira, porque você me juntou.

Então compreenderemos a marcha, venceremos a sombra e nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás. Apenas começamos. O mundo começa agora.

Apenas começamos.

* Frase de rede social...
* Metal Contra as Nuvens... Mas eu escrevi ouvindo Fix You do Cold Play e o título é de Tocando em Frente.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sobrevivência

Acho que era Marte.
Pode ser qualquer estrela, qualquer planeta, qualquer nação do espaço...
Mas eu acho que era Marte.
Olhei como se fosse
Assim como olho para o crime no jornal
achando que o mundo tem poesia
achando que estamos melhor que a 50 anos atrás
Vivo como se estivéssemos
Assim como vivo a saudade das coisas fugidias
que entram pra sempre no passado
enquanto os prazos vencem no código de barra
Pago como se pudesse
Assim como pago contas de compras que nunca fiz
pelo prazer de ver que não te pesaria tanto
Dividimos as estrelas, a saudade e as contas
Enquanto a poesia insiste em escorrer
como o sangue no estômago de alguém que levou um tiro
e não morreu.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Recursos naturais

Spatifilus

Há dias em que o céu fica nublado e a ameaça de chuva não se concretiza por mais que você, a contragosto, tenha carregado a sombrinha.
O spatifilus do jardim quase morreu de sede. O cachorro não.
O cão sempre tem água, embora às vezes fique sem ração.
Nós também temos água, embora nem sempre tenhamos razão.
Em alguns lugares do mundo, há quem não tenha nem um e nem outro.
Em alguns lugares do mundo, por alguma razão, há seca acerca de tudo.
Eu moro em Sete Lagoas, a porta aquosa do sertão.
O próprio nome da cidade já é cheio de água.
Yes, nós temos água, mas é uma água calcária que ao longo do tempo joga pedra em seus rins.
Aqui todo mundo compra água mineral, embora toda água pertença ao reino mineral, inclusive a água cheia de calcário, que também é um mineral. Quem quiser, fique à vontade para explicar sobre águas e minerais sólidos, pois eu estou com uma preguiça imensa de pesquisar, assim como hoje, por preguiça eu tomei banho de mangueirinha.                    
É que a água daqui entope os buraquinhos do chuveiro.
Um chuveiro entupido no inverno chega a torturar.
A água não cai, ela esguicha para todos os lados.
Raros pingos caem no corpo, eriça os pelos. O banho é quase um balé.
Então, nós, perigosamente, desentupimos o buraco cheio de calcário com uma agulha, enquanto um  mísero e gelado pingo escorre pelo braço rumo as axilas.
Meu pai nos proíbe, diz que é perigos fazer isso.
Ele desencaixa e lava os furinhos, mas nós sempre optamos pelo jeito mais prático e mais perigoso. Ninguém se imagina morrendo enquanto desentope o chuveiro.
Seria tão bizarro morrer sofrendo um choque elétrico nessas condições.
É tão bizarro saber que a água do mundo vai acabar e que há quem morra de sede em pleno século XXI, assim como é bizarro ver o spatifilus quase morrer à míngua estando ao lado da mangueira.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O ESPAÇO E O TEMPO


Mas, silêncio! 
Soa na sineta eterna a primeira hora de uma Terra insulada.
O planeta se move no espaço e desde então há tarde e manhã.
Para lá da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel,
embora o tempo marche com relação a muitos outros mundos.
Para a Terra, o tempo a substitui e durante uma determinada série de
gerações contar-se-ão os anos e os séculos.

Transportemo-nos agora ao último dia desse mundo, à
hora em que, curvado sob o peso da vetustez, ele se apagará
do livro da vida para aí não mais reaparecer.
Interrompe-se então a sucessão dos eventos;
cessam os movimentos terrestres
que mediam o tempo e o tempo acaba com eles.

Esta simples exposição das coisas que dão nascimento
ao tempo, que o alimentam e deixam que ele se extinga, basta
para mostrar que o tempo é uma gota d’água
que cai da nuvem no mar e cuja queda é medida.

                                                                                             Galileu Galilei em A Gênese de Allan Kardec.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Madrugada

Na madrugada o silêncio reverbera na casa.
Vivos aqui, só eu, as bactérias e o cachorro, mas o cachorro também faz silêncio.
Parece que todos fazem minutos de silêncio, pois não ouço o dilatar dos metais, o pingo que sobra na torneira e nem o ruído da geladeira.
A TV estava no volume mínimo e mesmo assim parecia amplificada milhares de vezes.
Melhor desligar.
Só o meu corpo não silencia.
Ouço minha pulsação e o movimento do ar em minha cabeça quando aperto os olhos.
Parece vento.
Ouço minha respiração e se eu fizer um pequeno esforço, posso ouvir você dentro de mim
Posso ouvir muita gente e eu não quero entender o que dizem e nem o que sabem.
Hoje não.
Levanto, pego o violão, pois não quero ouvir o que tenho a dizer sobre tudo o que ouço sem querer.
Mas o violão faz tanto barulho que temo acordar os vizinhos e não há nenhuma canção capaz de superar o silêncio obrigatório no decorrer da madrugada.
Resolvo me render. Deito e aguardo os passos do sono se aproximando, embora eu acredite que o sono errou o caminho dos meus olhos.
E silenciosamente são tantas coisas que ouço simultaneamente que leva um tempo até que se consiga equalizar uma estação e ouvir apenas o necessário.
Hoje o necessário tem um tom terno e enérgico, extrai lágrimas e povoa meu quarto de outras ondas que eu pretendi evitar.



terça-feira, 1 de abril de 2014

mera brisa


Deve ser porque às vezes venta... 
E o vento arqueia as coisas leves e frágeis. Ensina-nos a resiliência, não sem antes mover o que de fato era dado como certo. 
E o que era tido como certo, 
na certa não era um fato... 
Era um aparelho ligado na tomada por um cabo com mal contato.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O MEIO

A luz azul da tela ilumina os insetos.
Todos parecem vaga-lumes, ou pernilongos de led.
Eu entro em transe, talvez eu esteja triste, talvez tristes tigres, talvez não.
Bolhas de água surgiram em minhas mãos.
Elas surgem e desparecem.
Fui atendida por uma médica cubana.
Ela disse o que o Google disse antes, mas não tiro CRM pelo google.
A doutora sabe o caminho e as químicas. Eu sei o site. O que ela me diz, o que o site me diz é a mesma coisa.
O resultado quando é ínfimo, não confere valor ao caminho, ao que FOI antes de ser resultado.
E a gente vê o resultado e sentencia que é só isso.
Mas tem o meio, tem as contas que a gente faz no rascunho e não no gabarito.
Se eu te fizer um cartão de aniversário, você precisa saber que pensei na frase, na letra, nas cores e na papelaria. Tudo parece tão resumido e sem graça, mas o meio tem mais valor que o produto.
O que existe entre parênteses devia ser depositado num cofre ou na poupança.
Muitas vezes a gente diz "Ok", mas antes disso havia um discurso bélico preparado.
E depois o seu contrário.
E depois o silêncio.
Ela disse: Não é sério.É disidrose e não conhecemos a cura. Nem a causa exata.
Eu já sabia. Sabia até que pode ser emocional. Tem tudo no google, mas tanto eu quanto ela temos um meio que o google não nos fará conhecer. Eu sou contralto, ela gosta de dança contemporânea.
Ela perguntou: 
- Como se pronuncia seu nome? Ediuirges?
- Pode ser... 
Certas coisas não tem importância, a quantidade de letras L com que escrevem meu nome, ou os Y inexistentes. As pessoas estão sempre a complicar o que é muito simples e isso não faz muita diferença numa manhã de outono.
Novamente as emoções me fazem de refém e não saber como conter, como deter, como suprir, me atinge.
Estar à mercê e com pequenas bolhas nas mãos. Bolhas que não desaparecem com pomadas.
Isso me aflige como as minhas próprias limitações. A lentidão me aflige, A burrice alheia e a minha, me afligem. A aflição provoca bolhas cheias de água.
 Não gosto de tapete torto, embora não seja a rainha da ordem.
Não sei explicar o que fazer e como fazer nos momentos em que seu coração fica como Nagazaki.
Pode ser exagero...
Depois que passa, a gente descobre que era só bombinha de São João.



quinta-feira, 13 de março de 2014

ENTÃO...

Coisa que nunca fiz e nem tive vontade, coragem ou pulso pra fazer foi levantar bandeiras de causas que não me interessavam. Eu já falei: Ok, sou homossexual e tals, mas isso não significa dizer que aplaudo as posturas de Daniela Mercury ou Thamy Miranda ou que aprecio repertórios recentes de Ana Carolina. E também não quer dizer que eu não seja grata a essas mulheres. Se não fosse por elas, eu seria uma pessoa medrosa e encolhida. A sociedade precisa de quem mostra a cara e a oferece a tapa em nome de outros rostos e identidades.  Essas desbravadoras apenas poderiam estar atentas ao que separa o excesso  da revolução, senão uma coisa que era pra abrir caminhos, acaba sendo um desserviço pra quem quer simplesmente levar uma vida normal gostando de outra pessoa do mesmo sexo.

Então chega essa novela do Maneco depois do beijo do Félix e coloca duas mulheres pra ter um caso. Porque eu torço o nariz? Porque uma delas é casada. E família é uma instituição que eu respeito. Desaprovo uma pessoa que está sendo a pedra de tropeço no caminho da outra, seja ela homem ou mulher, no entanto, quando se vincula o estímulo ao adultério à homossexualidade, nós sofremos o efeito desastroso. E olha: é um saco, porque os argumentos se confundem, as pessoas começam a falar pelos cotovelos tagarelas e nem sabem o que dizem e o que realmente sentem em relação ao que dizem. Se elas compararem a outras condutas tão naturais de suas vidas, verão bailar paradoxos no palco do discurso.

Já estou farta de: "que podridão, meu filho não pode ver beijo de mulher com mulher, de ômi com ômi”, “ isso é uma afronta, tem idoso assistindo novela” ou “ isso é uma violência à moral e aos bons costumes”. Ou o famoso: “Não é por preconceito, mas...”  E depois do “mas”, essa interessante conjunção adversativa, jorram argumentos frágeis e tolos.

A sociedade tem seu tempo de amadurecer seus conceitos, seus parâmetros morais, entretanto, ela raramente questiona o que considero um mal real. Na adolescência, li A Pata da Gazela, um romance de José de Alencar, de 1870, no qual uma mulher que ficasse com o tornozelo de fora chocava a sociedade. Tornozelo!  Hoje sintonizamos em qualquer canal pra ver muito mais que isso. Dia desses recebi um videozinho de whats app onde um suposto pastor mostrava através do data show um cu - e ele diz cu, não usa eufemismos -  a toda uma assistência de fiéis!

O novo clipe da Beyonce está bombando e é de um erotismo imenso!! Lembro de ter visto videozinhos de crianças “sensualizando” com músicas da própria, com refrões do Naldo, do É o Tcham, do Lepo Lepo... O programa Pânico é exibido em horário nobre. O UFC não, mas os pais motivam as crianças a lutarem ou a verem lutas sangrentas dentro do ringue, circuito onde correm altos valores, assim como nas arenas de gladiadores. Mulheres desfilando seus corpos em comerciais de cerveja, “mostrando nosso alto valor comercial”...  Isso criança e idoso pode ver!! Se embebedar na frente das crianças, fumar na frente delas, falar palavrão na frente delas, mentir na frente delas, colocar no som numa altura além do suportável refrões em série que falam que pode trair, que a carne é fraca, que as mina pira e sobe na mesa, que quem tem dinheiro pega todas... Para mim, isso é a deseducação moral da humanidade e não vejo isso ser questionado.  Visualizar a imagem que essas canções tão lucrativas transmitem é a visão do estado deplorável de “moral e bons costumes”. E é triste quando a gente descobre que quem propaga isso em carro de som, em churrasco de família e outras mídias nem para pra entender o que diz a letra e quando eu informo, apesar do susto que tomam, me dizem: Ah, mas o ritmo é bom!!

São exemplos de coisas que ficaram naturais e as crianças veem. Trabalho com crianças, sei o que sabem, o que fazem, o que imitam de seus pais. E sei que pouquíssimos adultos questionam essas atitudes e além de não questionarem, ainda incentivam, passando ao largo do que é realmente educar um filho ou respeitar um idoso. Com certeza, e eu afirmo, COM CERTEZA: testemunhar um beijo contido de duas pessoas que se gostam, seja qual for sua orientação sexual, não vai deseducar ninguém. Pra deseducar, basta o contrato tácito que fazemos com o mundo, com a mídia, com a arte, assinado por nós e autenticado no cartório da consciência!


Não há mais considerações gerais a fazer. Tá tudo aí, tá tudo aí para quem quiser ver.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Do jeito que você faz

Você andava rápido em minha frente.

Eu apressava o meu passo atrás de você.
Talvez fosse melhor deixar você ir, esfriar a cabeça.
Talvez fosse melhor te puxar pelo braço, te pedir pra relevar.
Talvez fosse melhor comprar um chocolate.
Eu não sabia o que fazer, só sabia que era péssimo te desapontar.
Eu havia me atrasado e pra variar, meu celular estava sem bateria, nem deu pra te avisar.
Enquanto andava, reprimia a criança chorona que queria se desculpar.
Você pára e olha pra cima.
Eu paro perto e olho pra baixo.

- Puxa, amor, não é a primeira vez...

Eu abro os braços, naquela expressão de que “não tenho culpa”!
Como eu ia explicar todos os fatos que me conduziram até ali e causaram meu atraso.
Parecia invenção, parecia ridículo.
Você suspira.
Eu gelo.

Então você diz – deixa pra lá – e me abraça ali mesmo, no meio da rua.

Eu fico surpresa como alguém que vai morder uma cebola e sente gosto de maçã.
Você sempre desestrutura meu coração e quando me preparo para o nocaute, você me afaga.
Surpresa, te aperto entre meus braços, meio zonza, meio agradecida.

- Quero explicar -  eu digo.

- Eu ainda estou chateada..O filme sai de cartaz hoje, você sabia disso.

- Desculpa mesmo. É que as circunstâncias me adotaram.

- Isso acontece porque você tem que se organizar. Contratempos não assaltam quem se organiza, amor.

Quando você fala isso com ternura, você aplaca o desconforto e me faz querer melhorar. Eu sinto que tem razão. Eu sei que tem razão.

- Te devo uma sessão de cinema.

- Não se preocupe! Você vai pagar com juros. Juro!!!

- Ou meu nome vai pro seu SPC!

- Vai sim.

- Eu posso começar a pagar os juros hoje mesmo.

- Sério? E o que você tem em mente?

- Você!

Sorrimos com cumplicidade.
Selamos a paz com um beijo selado.
Nós vamos embora. Você sabe que eu vou explicar o que aconteceu. Eu sei que você vai me ouvir.
Você sabe que vou cometer outros erros parecidos, mas sabe também que vou me esforçar pra não errar. Eu sei que isso ainda te chateia. Você sabe que estou me martirizando por dentro. 
A gente sabe muitas coisas a nosso respeito.

*****
Muitas vezes as discussões surgem porque as pessoas reagem ao invés de agir. Não dão ao outro o benefício da dúvida, e logo condenam e sentenciam sumariamente.
A mentira nasce do medo das condenações.
Mesmo a mentira sem necessidade, que oculta fatos que poderiam ser facilmente compreendidos.
Quando agimos (ao invés de reagir), nós controlamos a situação e fazemos com que todos mantenham a serenidade, mesmo que sacrifiquemos alguns sentimentos incômodos. 
Isso pode ser recompensado com a sinceridade da outra parte.


As Velhas Novas e Tortas Retas

No núcleo de cada tentativa de retorno ao blog, havia o desejo de algo notável e significativo.
Ocorre que o tempo adiado para o fundo do relógio, roça o pulso e penetra na corrente sanguínea, transformando o sangue venoso em uma espécie de combustível para a realidade. É nisso que a inspiração se esvai. É nisso que dá a intenção de transformar o velho layout em algo novo pra mim e desinteressante pra qualquer ser envolvido no mundo dos aplicativos rápidos e práticos.
As constelações se convertem em espinhas de peixe...
E a palavra se reveste de novo sentido, mesmo que contrário.
Quem ainda lê textos? Surpreende encontrar quem. Surpreende a vontade ainda ser resquício nas impressões digitais dos meus dedos. Estou aqui por mim, mas tenho apreço pelos feed backs.
E é com uma historinha de flash back que ressurjo das cinzas: o passado é cheio de novidades esquecidas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Origamis

Dezembro de 2013 foi compassivo com suas águas.
Apenas alguns dias de roupas sujas esperando na fila, mas nada que tenha atrapalhado o trânsito dos pedestres de maneira a emperrar o circuito inteiro.
Os buracos da cidade já estavam na previsão do mais tapado profeta do fim de ano.
Sobrevivemos, moço! E eu ainda continuo infame. Isso não mudou. Só piora com o tempo.

Diluo a palavra e faço outras químicas. Sinto prazer nisso.
Precisei fazer algumas estrelas de origami, para os enfeites de natal e fiquei tão viciada nisso que pedia informação na rua de propósito, só para me mandarem dobrar a esquina!
Sério!! Acredito que o pó do papel tenha penetrado minha pele como bezetacil e comecei a querer entender a vida íntima dos origamis.
Descobri que a mulher origami adora comer dobradinha!
E que os origamis são funcionários padrões e os únicos do mundo que adoram quando o chefe pede para eles dobrarem! O problema é que não conseguem vender muita coisa, pois tem o costume de cobrar dobrado!
Não à toa que possuem cães por todos os lados para assustar os mais valentes. Cães da raça Dobrerman.
Um deles me disse que teve um pesadelo. Desdobrou através do sono e sonhou que era um papel  A4 liso. Esse mesmo se tornou um fã de Star Trek, principalmente pelo fato de Kirk e Spock viajarem em velocidade de dobra!
Esse origami é meio problemático. Disse-me que um dia estava tão carente, que entrou num sacolão e achou que o repolho era seu parente. No mesmo contexto, parou na porta e fez amizade com a dobradiça e só não conversa com a sanfona porque ela chora muito. Prefere contorcionistas de circo e roupas da gaveta.
E agora, no café da manhã, comendo sucrilhos, penso na efemeridade, no desdobramento dos fatos, em como uma coisa pode se tornar outra de repente. 
Sucrilhos barato, imitação, entende? É tão imitação que na embalagem vem escrito “Corn Fake”.
No verso da caixa tem um tutorial para fazermos um tigre de papel.
Mas hoje ninguém consegue me dobrar.
Não to afim de fazer nada.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Teste do sofá

A pele do teu ombro é mais macia
do que o assento do novo sofá
Prefiro beijar teu colo
a comprimir minhas nádegas 
contra a densa espuma
Encontrei-te nessa vida
e a ele na internet
Tu chegas quando penso
e respondes quando chamo
mas por ele paguei frete
e aguardei por quase um ano
Tu não cabes em mim:
 meu tamanho é limitado
 Não consegue comportar 
a ti e ao amor que sinto 
O sofá ultrapassa as medidas
e impede o movimento da porta
Pomposo, aquém dos teus lábios
Centímetros além da parede
Almofadas removíveis e conforto diminuto
Sob o corpo que aconchega
o carinho que ofereço
Ajeitei-te num espaço
e até fomos felizes
É marrom, chenile e duro
mas compensa pelo preço!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Humanos Melhores

Enquanto o mundo avança, fiquei com a sensação de que urge o nascimento de grandes homens.
Ou o despertar deles.
Talvez, o último da velha geração tenha nos deixado fisicamente.
E quando esses homens iluminados se vão, parece que o mundo fica um pouco mais escuro...

Mas eu sei que só parece.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ESTAMOS TODOS TENTANDO

Então você pergunta como estou e eu digo:
- Estou tentando.
E você responde que também está.
Estamos todos tentando
Disseram que não era pra dizer "tentar", que esse era um verbo de perdedores, de quem duvidava do êxito.
Mas sabe o que vejo?
Eu nos vejo vertendo suor, desatrofiando músculos e desenvolvendo técnicas para ter paciência, dinheiro, amor e benefícios. E eu nos vejo caindo às vezes. E depois retornando ao ponto onde paramos e recomeçando. 
Yes! We try.
Chegamos ao ponto de chutar as bases da tenda e ver o mundo definhar, desabar.
Chegamos ao ponto de explodir as coisas, como o Coiote do Papa Léguas, com suas pilhas de TNT.
Chegamos ao ponto de deixar o olho de alguém com hematomas e chegamos ao ponto de nos entorpecermos com pílulas e informações corrosivas ou letais. 
E quando chegamos a esse ponto, não fizemos nada por impulso, não chutamos nada, não explodimos nada, não socamos ninguém. Nós oramos, rogamos asas ou colo. Nós pedimos luz.
Quando não tivemos fé no invisível, tivemos ao menos esperança de que valia a pena respirar e continuar.
Somos assim.
Acionamos um dispositivo interno que reverte os impulsos e os converte em recomeços.
É isso, meu irmão, estamos tentando sim. Não desistimos definitivamente. Tentamos.
Todos os dias são tentativas repletas de erros e acertos.
Nas vezes em que falhamos, nós até choramos e lamentamos, mas não cedemos. Nós ainda não cedemos.
Temos suportado os dias no deserto.
Temos agradecido pelos oásis.
Estamos valorizando a oportunidade com a lúcida consciência de que falharemos em algum lugar.
Então não me diga que esse é um verbo de perdedor. Na verdade é uma ideia muito clara e concreta da força que temos para continuar depois da derrota, depois da dificuldade, depois das feridas. Tentamos porque acreditamos que vamos conseguir. A vitória não é utopia para nós.
Tentamos porque faz parte de nossas lutas.
Não desistimos do êxito. Nós assumimos os risco.
Se não tentarmos, não valerá a pena levantar daqui.