sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Primavera

Sim.
Me deu vontade de arremessar longe o celular...
Mas eu estava no jardim e as orquídeas brotaram tão bonitas...
Então eu fui ver se ainda tinha café.
: )

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

90 segundos


"Tenho 62 anos e, pelo o que eu vi na vida, dois iguais não fazem filho. Digo mais. Desculpe, mas aparelho excretor não reproduz. É feio dizer isso. (...) Como é que pode um pai de família, um avô, ficar aqui escorado porque tem medo de perder voto? Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto e vá acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar, fez muito bem, do Vaticano, um pedófilo (????????????? Não entendi? - Grifos meus)  Está certo!. (...) Eu, como presidente da República, não vou estimular. Se está na lei, que fique como está, mas jamais estimular a união homoafetiva.

O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir para 100 [milhões]. Vai para a Avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio. Gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Não tenha medo de dizer que sou pai, avô, e o mais importante, é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá."

(Resposta de Levy Fidelix à pergunta de Luciana Genro no debate com os presidenciáveis na Record dia 28/09/14.)

Game over, meu caro!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Existe e incomoda

Não...
Não foi o que você disse que está me incomodando.
O que você disse eu até entendo.
Mas tem essas outras coisas, sabe?
E aí eu não durmo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SOBRE A PONTE

A gente sente essa força contrária querendo nos arrastar aos vales,  
querendo nos ver rastejar agonizantes e semimortos...
Essa força faz parte das mesmas leis que regem nosso encontro, 
nossos primeiros olhares e encantos.
C'est la vie!
Talvez seja assim: a vida te oferece duas mãos ao mesmo tempo.
Um te empurra, a outra te levanta.
- O que você quer da vida?
Isso é muito mais do que uma pergunta de "mês/castigo".
Isso é uma placa de neon na encruzilhada esperando você se decidir.
Estamos observando as estrelas, 
deitados sobre o amontoado de decisões que já tomamos.
Olho para nossa história, para todo o sangue que já derramamos e mesmo com tantos tropeços e intervalos torpes, 
hoje nós somos outros e somos melhores.
Ainda temos as velhas espadas, mas preferimos estender as mãos, 
evitar a guerra.
Eu sinto orgulho de nossos passos até aqui.
Quando eu te olho, sei que você é meu irmão.
Sim, a gente já caiu, cara! 
Já quebramos nossos ossos nessas quedas, 
só que agora acredito que estamos suspendendo os pés, 
dando pulinhos para alcançar a mão que nos ergue.
A gente vai pular e saber que não há como sair vivo daqui, de qualquer jeito.
E nem há como morrer - de qualquer jeito.
A gente esforça porque sabe que apenas nos resta continuar.
E então continuamos.

It's hard to believe that there's nobody out there
It's hard to believe that I'm all alone
At least I have her love, the city she loves me
Lonely as I am, together we cry

(Under the bridge - RHCP)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Infinitude...

Era o limite do mundo que ia desaparecendo aos tiquinhos...
Se eu apanhasse os restos que ficaram flutuando no ar, 
juntaria um punhado de bordas na palma da mão
e ficaria com medo de ter tanto espaço em volta
e ter por dentro, meus planos arredios, meu tempo escasso.
O horizonte ficou distante só mais um pouco,
mas a estrada, agora eu conheço.
Volto pra casa e  posso passar de novo depois
até decorar o caminho e tomar impulso pra ir mais adiante se der vontade.
O problema é a vontade que não dá e não empresta
não vende e não aprova se eu pedir uma prévia,
um relatório denunciando os obstáculos lá na frente.
Enquanto estou sozinha aqui, vendo o desamparo da ampliação,
sei que o mundo é cheio de gente circulando
habitando os lugares, fazendo filhos, tendo filhos,
matando filhos alheios ou soltando pipas.
Agosto acabou, mas os moleques estão pela rua:
linha, seda e bambu, como se a felicidade dependesse disso.
Uma pipa tem a sabedoria impregnada de romper.
... E eu aqui tentando reter com as mãos os limites do mundo
que por alguma lei que desconheço não para de se expandir.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SERVIL. LIVRES. OU VICE-VERSA

De vez em quando sinto uma flechadas. Meu peito dói e deseja alento.
Se eu fizer silêncio, consigo sentir o sangue escorrendo por dentro.
Respiro o indivisível sem alívio imediato. 
Nenhum ato parece trazer ordem ao caos
Caos me quer? Bem me quer.
Talvez eu morra.
De medo. De Vergonha. De sono.
A dor, A roda, Adora.
É tanta palavra em decomposição
que recompostas, dispõem novos sentidos ao que antes era o olvido*
e que hoje é surda audição.
Reverta a ordem e verá os mesmos resultados:
o ovo, mirim, o radar
Entra ano e sai ano, depressão nunca é o plano na geologia das vivências.
E nós sabemos: Muita coisa não sai conforme o plano...
Tem as ladeiras das cidades históricas e a arqueologia do sentimento comprimida numa declaração de amor sem sinceridade.
Curva em declive, líquidos, diáfanos e sólidos.
Por um segundo é a solidão quem desfere os golpes, as flechas.
Vamos quedar nossos braços no esforço da força maior?
Quem sabe não consigamos um fragmento da vitória?
Quem sabe, não conquistemos um pódio integral?
Quem sabe a gente não se indisponha com a derrota.
Não foi o GPS que indicou a rota certa com quilômetros a mais?
Nós chegamos. Não foi?
Não é o destino que importa? Ou será que não?
O que importa? Come torta.







Vamos ferver a solidão na vasilha de fazer o café.
E ela vai evaporar, vai difundir na cozinha alguma canção em La menor e fundar um município na parede engordurada.
Você não liga para as paredes, porque esses calos deixaram a pele insensível.
A pele que reveste o senso.
Essa insensibilidade não sai com perfex ou detergente.
A gente desenvolveu isso pelo caminho, os calos, a pele de paquiderme, os cravos, a unha encravada, seu nome cravado na bala sem doçura e sem papel.
E então? Como é que faz pra ter de novo aquela sensação de ser a Meryl Streep na cerimônia do Oscar?
Quando eu não sei o que fazer, me sinto um número reduzido depois de todos os noves fora.
Então faço uma banana pro nada, ou pro espelho.
Já encurralou uma formiga com água? 
Não tem saída por aqui.
Só se a gente voasse...

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O ENCAIXE DO CORAÇÃO


Adoro caixas. Na última arrumação do quarto, precisei me desfazer de muitas caixas vazias que eu guardava para um dia guardar alguma coisa dentro delas, ou utilizá-las de enfeite de natal, no próximo natal.  Sempre quando o "próximo natal" se aproxima, eu nunca tenho tempo de enfeitar as caixas e então elas se acumulam vazias no armário.

Sinto alegria quando o moço do Sedex chama na porta e me entrega qualquer caixa, de qualquer tamanho. O que tem dentro pode até não ser pra mim, mas se a caixa puder ser minha, vou gostar. Se você puder me deixar abrir sua caixa, já será um prazer.Eu vou adorar ter mais uma caixa, porque ela é um universo de possibilidades!!! Significa uma expectativa boa, como comprar um notebook com memória de 100 terabites. 

Todas essas caixas vazias que continuaram em meu armário após o último rapa, denotam o acumulador voraz que mora dentro de mim, fruto de um cruzamento meu com o capitalismo genérico que me faz querer coisas sem sentido, sem utilidade ou desnecessárias. Acumulador que vem me desfazendo pouco a pouco, a cada caixa de par de tênis feito por crianças da Indonésia e eu sequer me compadeço com já fiz um dia, a cada vez que não detenho nem controlo meus cliques com senso ético diante das telas de LCD, que desconstrói uma Michele e remonta uma outra, com partes que talvez eu nunca tenha desejado que se encaixassem em mim, mas que agora me descrevem.

Num rápido escaneamento do que me tornei -  lendo notícias da vida de famosos e preterindo filmes do leste europeu - sinto a angústia de ter sido encaixotada, não como a Helena do filme, mas como todos nós, nessa caixa espaçosa e confortável, onde só é suportável existir se nos entorpecermos de drogas lícitas e ilícitas, de informações, de cliques por segundo, de paixão, de razão, de códigos de barra e de anestesia.  Quase nada tem nos bastado. Nos tornamos verdadeiros adictos.

O que não aniquila a esperança é o “quase”. Talvez essa seja a lacuna onde eu possa encontrar a peça que reverta o processo e me faça reaprender a pensar, que destrua essa preguiça consumista que me consome através dos anos. Envelheço e finjo que mudo o mundo enquanto na verdade estamos paralisados ou nos movendo em slow motion, infectados de insensatez até a última célula, tirando uma selfie sobre a derradeira caixa de um ex possível futuro presidente morto.

Cabe muito delírio num espaço pequeno.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

CAJU

Quando é que a gente começa a soltar as mãos, deixando o tempo encaixar outras peças?
Onde é que a pressa faz pressão e o passado dá volta e recomeça?
Se você soubesse que é possível fazer ao contrário e colocar mais cor dessa vez...
Qual é o ponto exato onde ficamos desconhecidos?
Dá pra marcar no mapa?
Onde é que fica a caixa de segredos que a gente começa a colecionar?
E onde é que dói agora?
Existe um lugar no tempo onde era fácil saber como fazer você sorrir.
Contar uma história e tomar sorvete antes de dormir
...pra tudo ficar bem.
Mas hoje estamos aqui no limiar de novos portais, do seu portal!
E nós sabemos que você pode suportar!
Não sabemos muito...
Mas podemos tanto, tanto.
Se confiarmos em nossos pedaços
E juntarmos tudo enquanto sorrimos,
Inventando a cada passo o jeito certo de andar,
Quem sabe a felicidade aconteça até que paz se estabeleça em nosso lugar?
Não temos Paris, mas temos refúgio, grades brancas e um cachorro branco.
Nós temos você, Precioso Astronauta de Memphis!
Temos um reino com dialetos e você tem a Rainha como aliada.
E um fiel escudeiro cheio das desmedidas do mundo!
E você tem a mim.
Onde você for, blackbird, saiba que iremos contigo
Que estamos contigo mesmo quando se sentir só e sombrio.
Porque é pra isso que existimos também.
Para estarmos juntos e aprendermos a voar
Sabendo que é o sol que determina os horizontes!!
É o Sol!

Feliz Aniversário!!!!

Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

segunda-feira, 28 de julho de 2014

BUBBLE SHOOTER


Minha memória não retém os caminhos.
Me perco tão facilmente em lugares conhecidos que você já não distingue minha distração da minha estupidez.
Suponho que uma parte invisível do meu cérebro ficou amarrada em alguma árvore da Terra do Nunca, e sua parte material manifesta certos pensamentos infantis que surpreendem até a mim mesma.
Você me perguntou o endereço e eu só conseguia imaginar a estratégia para vencer a próxima sessão de bublle shooter. Imaginei meu canhão batendo na lateral da tela para ricochetear e acertar todas as bolhas que ameaçavam chegar ao limite e me levar ao game over.
- É por aqui mesmo?
- Oi?! Não faço ideia, meu bem.
- Mas você disse que foi até lá no mês passado.  
- Olha, eu não saberia chegar lá nem se voltasse no dia seguinte, quem dirá hoje. Liga o GPS. Eu sei o nome da rua.
- (...)
E você suspira fundo, como se fosse um suplício suportar (e conviver) com certas limitações que eu trago, com minha falta de organização e de visão tridimensional. Mal sabe você, que sempre que você vem desprovido de razão, com seu dedo em riste, eu penso no bubble shooter e faço centenas de pontos imaginários até você extravasar e achar que venceu.
Nessas horas, se você me colocasse nessas máquinas que olham tudo por dentro do corpo humano, veria que no lugar do coração eu possuo uma imensa bola colorida prestes a explodir diante dos seus olhos.

E esse ponto seria seu.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Um orgasmo poético

Foi o que tive após a apresentação de José Miguel Winisk aqui em Sete Lagoas ontem: 22/07/2014. 
O poema é do Gregório de Matos que o Winisk musicou e fez servir de trilha para o espetáculo Onqotô, do Grupo Corpo. Não quero mais intrometer minhas palavras aqui. Apenas observar o eco. Enlevada.

MORTAL LOUCURA (pra clicar!)

Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra
.
Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

*A fé ruge e o meu coração dilata


Não que essas sejam as melhores palavras...
Às vezes a excelência está na brecha de silencio.
Às vezes a poesia se compreende na pausa do verso.
Às vezes a gente entende a vida quando cansados, paramos para recobrar o fôlego.
O próximo passo da caminhada é ressignificado e nada mais será do mesmo jeito dali pra diante.
É aqui onde me encontro. Em agonia diante de uma silenciosa página em branco.
Ela é uma mão estendida, uma convocação.
Ela insinua (embora nem sempre ensine) que podemos criar as coisas, sermos pequenos deuses preenchendo as lacunas da tela do mundo com nossa própria tinta.
O silêncio é um manifesto pregado na porta que nos conduz para dentro ou nos remete para fora, como força centrífuga, supernova.
Em qualquer desses movimentos, as coisas não deixam de existir, por mais que as olvidemos.
O sol continua brilhando por mais que meu coração se confranja em tempestades, temendo as guerras, os líderes, o câncer e as falsas promessas de bonança.
O câncer parece uma palavra mal escrita que me afeta mesmo que eu saiba ou suponha sua razão.
Eu posso estar cheia de palavras e sons, mas quando vejo a ferida crescer em nós, tudo o que o pensamento publica no cosmos ao meu redor é um erro de digitação que o word não corrige automaticamente ou uma nota irremediavelmente dissonante.
Quando eu respiro, sei que há perfeita ordem, mas para uma pequena engrenagem há de haver uma reprogramação a ser feita, que nos impeça de ruir a máquina que integramos. A nossa ideia de ordem precisa de manutenção, de reajuste.
Um lenitivo que possibilite a permanência da sanidade.
Se uma verdade que eu não quero saber, simplesmente vem á tona, o que fazer para não ir á lona a nocaute outra vez?
Se a montanha aparece de repente no meio da paisagem, sem aviso prévio ou anestesia, preciso elevar a minha fé a nível de sayadin e remover outros apegos, gestos, restos e a velha necessidade de mais palavras. De pá, de lavra. De terra.
É preciso lavrar o solo da calma, da alma, esperar florescer aquelas sementes plantadas lá longe, com  a esperança que depositamos no amor. Os desatinos das lágrimas que ainda me restam, são rastros rebeldes da construção de um livro gravado a ferro e lava vulcânica através das eras que me compõem. 
Desvencilhar desse caminho, é quase que exigir do silêncio o fim do som. 
Eu ouço coisas que não quero acreditar e elas transitam pelo espaço à minha revelia.
Se eu pudesse converter a angústia em diamante agora, se em minha prece coubesse a fé, eu poderia, quem sabe (?), ter a riqueza suficiente para doar de mim a melhor frase! Aquela frase cheia de poder que lhe convenceria de que tudo vai ficar bem e que tudo aqui é efêmero, por mais que a dor neste instante seja aguda.
Mas (...) veja você, estou aqui rogando por mim mesma, porque no fim eu sei que essa lacuna que se estende diante dos meus olhos não é uma ruptura irreversível do mundo e mesmo assim eu dificilmente posso suportá-la.
São minhas placas tectônicas de medo procurando uma boa posição para que a superfície fique em paz.
Talvez seja um plano meu.
*
Estrelinhas para Teatro Mágico
"Se é na sutileza,
Que reside a exuberância.
Busco ressonância,
Nos ideais do amor."

terça-feira, 8 de julho de 2014

Fim de expediente

Notei todas as páginas em branco em sua agenda
Agora tudo o que você fez naqueles dias, jamais saberemos.
Meu sangue ficou coagulando enquanto eu decidia que destino tomar
Mal dá pra enxergar a espessura do corte.
Acho que às vezes minhas palavras são como uma folha A4 e se não manusear corretamente, pode cortar sua pele com uma lâmina de celulose e sangrar.
No meio da rua um silêncio de mar quando recolhe as ondas.
Você desconfia do porvir e procura ficar a salvo.
Preciso preencher uma planilha e todas as palavras do mundo resolveram orbitar ao redor dos meus olhos.
É uma distração que arde e paralisa no mesmo refrão.
Se nossos olhos se cruzarem, eu não vou precisar saber de nada.
Isso do sentimento emergir como um monstro da lagoa é a nossa lenda urbana particular.
Não haverá nenhuma frase insinuante, um esconderijo de intenções entre as palavras em meu texto.
Não.
Tudo é muito preciso, como o corte em minha mão.
Estou prendendo a respiração até parar de sentir a agonia da expectativa.
Porque há chances de tudo cicatrizar, mesmo que eu não feche o caixa do dia.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tem que acontecer

Estivemos a fazer esses recortes
e a cola secou na ponta do bastão
O tempo chegou chutando a porta
enquanto eu dormia sem roupa.
No susto perdi o pudor e a coberta
Tudo ao redor era a alguma-feira.
Não sei se é assim contigo
de o caminho parecer desencaixado
e o nosso passo, por mais firme - parecer  trôpego
e a iminência do tombo te fizesse parar por instantes
recobrar o sentido da seta e da escolha
recobrar a memória e o fôlego
e adoçar o próximo café pelo menos uma colher a mais
O crepúsculo deixou o céu lilás
Isso enfeita o dia com uma poesia de troco
mais bonita que o troco do pão.
Por tudo o que a gente paga, é suficiente.
Mas o sol indo embora não colore os fatos
os gráficos, os índices e o cinza que o inverno imprime
quando falta uma peça e não há nada que me impeça de ser integral.
De que adianta? A cola acabou e eu não tranquei o quarto,
quebrei o relógio e o tempo continuou passando...
A gente ficou se olhando sem as palavras pra dizer.
Se eu perdi por negligencia o que foi fundamental,
agradeço a Deus pelo violão no canto
com todas as cordas e um canto que ainda não sei.
É só respirar e ir adiante.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

...

Nossa palavra pode construir esses castelos
erguer mundos e organizar suas órbitas, transformar a linguagem, 
dominar e denominar coisas.
Nossa palavra pode provocar guerras, destruir pontes,
formar tempestades, evocar e repelir energias.
Nossa palavra pode curar o mal, pode erguer o mar
pode elevar o amor ao mais alto patamar da vida.
Mas há momentos em que a vida é como uma onda gigante quebrando
furiosa sobre nós.
 E nesse momento, a palavra em toda sua grandeza e glória
não pode fazer absolutamente NADA.

                                                                                            * Ao Miguel

segunda-feira, 26 de maio de 2014

COMPREENDER A MARCHA

Se estamos aqui, agora, com tanto a oferecer, é porque nós podemos fazer aquelas marcas se tornarem insignificantes. Da insignificância, extrairemos a luz e as marcas um dia brilharão, provando que o tempo e o amor podem sim consertar o mundo e nos conduzir de volta a um caminho seguro.

No universo que se movimenta, é difícil que algo não saia do lugar e não se quebre. Talvez nosso trabalho de manter a ordem seja apenas um ensejo para fortalecermos nossos músculos, nosso afeto, nossa compaixão e não necessariamente controlar os fatos.

Talvez todas as notícias ruins e a dor ao nosso redor sejam uma rogativa da vida pelo nosso melhor, pelo nosso esforço de entender que estamos todos meio quebrados, que estamos adoecidos e precisamos trabalhar a nossa cura, cuidando da ferida do outro.

Talvez as lágrimas que rolam em nosso ombro sejam um chamado da Vida, convidando ao despertar, à compreensão dessa aurora que trazemos em nosso coração. E é tanto sol, tanto sol, que não se enxerga a culpa, os erros, os débitos. 

Não, não pare. Não paralise agora, porque temos muitas bênçãos e não precisamos permitir que um único espinho aniquile o jardim inteiro.

Juro, quando vejo sua ferida, queria ser um pajé, um milagreiro ou retornar ao passado e impedir que todo mal atingisse você de uma forma triste e cheia de ramificações, no entanto, esses são poderes que não tenho.

Mas eu posso estar aqui.

E posso ser aquela pessoa que vai *te abraçar tão forte que todos os pedaços quebrados dentro de você se juntarão novamente.  E aí eu saberei também que estou inteira, porque você me juntou.

Então compreenderemos a marcha, venceremos a sombra e nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás. Apenas começamos. O mundo começa agora.

Apenas começamos.

* Frase de rede social...
* Metal Contra as Nuvens... Mas eu escrevi ouvindo Fix You do Cold Play e o título é de Tocando em Frente.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sobrevivência

Acho que era Marte.
Pode ser qualquer estrela, qualquer planeta, qualquer nação do espaço...
Mas eu acho que era Marte.
Olhei como se fosse
Assim como olho para o crime no jornal
achando que o mundo tem poesia
achando que estamos melhor que a 50 anos atrás
Vivo como se estivéssemos
Assim como vivo a saudade das coisas fugidias
que entram pra sempre no passado
enquanto os prazos vencem no código de barra
Pago como se pudesse
Assim como pago contas de compras que nunca fiz
pelo prazer de ver que não te pesaria tanto
Dividimos as estrelas, a saudade e as contas
Enquanto a poesia insiste em escorrer
como o sangue no estômago de alguém que levou um tiro
e não morreu.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Recursos naturais

Spatifilus

Há dias em que o céu fica nublado e a ameaça de chuva não se concretiza por mais que você, a contragosto, tenha carregado a sombrinha.
O spatifilus do jardim quase morreu de sede. O cachorro não.
O cão sempre tem água, embora às vezes fique sem ração.
Nós também temos água, embora nem sempre tenhamos razão.
Em alguns lugares do mundo, há quem não tenha nem um e nem outro.
Em alguns lugares do mundo, por alguma razão, há seca acerca de tudo.
Eu moro em Sete Lagoas, a porta aquosa do sertão.
O próprio nome da cidade já é cheio de água.
Yes, nós temos água, mas é uma água calcária que ao longo do tempo joga pedra em seus rins.
Aqui todo mundo compra água mineral, embora toda água pertença ao reino mineral, inclusive a água cheia de calcário, que também é um mineral. Quem quiser, fique à vontade para explicar sobre águas e minerais sólidos, pois eu estou com uma preguiça imensa de pesquisar, assim como hoje, por preguiça eu tomei banho de mangueirinha.                    
É que a água daqui entope os buraquinhos do chuveiro.
Um chuveiro entupido no inverno chega a torturar.
A água não cai, ela esguicha para todos os lados.
Raros pingos caem no corpo, eriça os pelos. O banho é quase um balé.
Então, nós, perigosamente, desentupimos o buraco cheio de calcário com uma agulha, enquanto um  mísero e gelado pingo escorre pelo braço rumo as axilas.
Meu pai nos proíbe, diz que é perigos fazer isso.
Ele desencaixa e lava os furinhos, mas nós sempre optamos pelo jeito mais prático e mais perigoso. Ninguém se imagina morrendo enquanto desentope o chuveiro.
Seria tão bizarro morrer sofrendo um choque elétrico nessas condições.
É tão bizarro saber que a água do mundo vai acabar e que há quem morra de sede em pleno século XXI, assim como é bizarro ver o spatifilus quase morrer à míngua estando ao lado da mangueira.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O ESPAÇO E O TEMPO


Mas, silêncio! 
Soa na sineta eterna a primeira hora de uma Terra insulada.
O planeta se move no espaço e desde então há tarde e manhã.
Para lá da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel,
embora o tempo marche com relação a muitos outros mundos.
Para a Terra, o tempo a substitui e durante uma determinada série de
gerações contar-se-ão os anos e os séculos.

Transportemo-nos agora ao último dia desse mundo, à
hora em que, curvado sob o peso da vetustez, ele se apagará
do livro da vida para aí não mais reaparecer.
Interrompe-se então a sucessão dos eventos;
cessam os movimentos terrestres
que mediam o tempo e o tempo acaba com eles.

Esta simples exposição das coisas que dão nascimento
ao tempo, que o alimentam e deixam que ele se extinga, basta
para mostrar que o tempo é uma gota d’água
que cai da nuvem no mar e cuja queda é medida.

                                                                                             Galileu Galilei em A Gênese de Allan Kardec.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Madrugada

Na madrugada o silêncio reverbera na casa.
Vivos aqui, só eu, as bactérias e o cachorro, mas o cachorro também faz silêncio.
Parece que todos fazem minutos de silêncio, pois não ouço o dilatar dos metais, o pingo que sobra na torneira e nem o ruído da geladeira.
A TV estava no volume mínimo e mesmo assim parecia amplificada milhares de vezes.
Melhor desligar.
Só o meu corpo não silencia.
Ouço minha pulsação e o movimento do ar em minha cabeça quando aperto os olhos.
Parece vento.
Ouço minha respiração e se eu fizer um pequeno esforço, posso ouvir você dentro de mim
Posso ouvir muita gente e eu não quero entender o que dizem e nem o que sabem.
Hoje não.
Levanto, pego o violão, pois não quero ouvir o que tenho a dizer sobre tudo o que ouço sem querer.
Mas o violão faz tanto barulho que temo acordar os vizinhos e não há nenhuma canção capaz de superar o silêncio obrigatório no decorrer da madrugada.
Resolvo me render. Deito e aguardo os passos do sono se aproximando, embora eu acredite que o sono errou o caminho dos meus olhos.
E silenciosamente são tantas coisas que ouço simultaneamente que leva um tempo até que se consiga equalizar uma estação e ouvir apenas o necessário.
Hoje o necessário tem um tom terno e enérgico, extrai lágrimas e povoa meu quarto de outras ondas que eu pretendi evitar.



terça-feira, 1 de abril de 2014

mera brisa


Deve ser porque às vezes venta... 
E o vento arqueia as coisas leves e frágeis. Ensina-nos a resiliência, não sem antes mover o que de fato era dado como certo. 
E o que era tido como certo, 
na certa não era um fato... 
Era um aparelho ligado na tomada por um cabo com mal contato.