terça-feira, 30 de setembro de 2008

MARSUPIAIS

Na bolsa dela não cabe a máxima "o essencial é invisível aos olhos". Todo o resto cabe.
Huuum...Bolsa dela ficou feio, né?! Ficou cacofônico, parecendo uma palavra só: bolsadela!
Ei, me dá um pão com bolsadela, por favor?!!
Imagina, pão com bolsadela equivaleria a um X-Tudo, de tanta coisa que tem lá dentro.
Não, não tá bom não. Peraí, vou reiniciar pra ficar melhor:
Em sua bolsa cabe tudo, exceto a máxima de Exupery: o essencial é invisível aos olhos.
Olha, se o essencial fosse mesmo invisível, a existência da bolsa não teria sentido. Porque lá se vê de tudo, tem de tudo, quase tudo tem. E tem atééé couro pra pandeiro. Tá. Isso lá não tem não, mas tem secador de cabelo portátil, tem mini-chapinha, tem grampeador, tem uma sacolinha com três colherzinhas (???) (É que ela é viciada em Chandelle, e nem sempre Chandelle e colheres estão concomitantemente juntos.) Também tem câmera digital, tem comprimidos pra dor de cabeça, outros para cólicas, tem sombrinha, tem tesourinha, estojinho básico de maquiagem, tem cortador de unhas, tem esmalte, pelo menos dois, um cremoso e uma base, tem algodão e tem acetona, tem um exame preventivo (que já era pra ter levado ao laboratório!), tem saboneteira com sabonete dentro, tem um CD e um DVD virgens, tem pasta e escovas de dentes, tem agenda, tem duas barras de cereais, tem o pen drive que ela achou que tivesse perdido, tem um livrinho de receitas de sobremesa da Garoto, isso fora a carteira, o carregador de celular, o celular, as chaves enroladas no fone do MP3, e um chaveiro colorido sem chaves. Tem o monstro da lagoa negra, o abominével homem das naves, tem o Bin Laden desaparecido... Nó, tem tanta coisa que parece a casinha do Snoop. Já viu num daqueles episódios em que o Snoop tira uma escada interminável lá de dentro??! É como a bolsa!
Ela diz que é melhor prevenir: vai que acontece de irmos parar no meio do mato com uma bolsa vazia!! Já pensou?
McGiver é que se cuide, porque essa bolsa é mais surpreendente que seus canivetes!
E ela está andando cada vez mais torta, feito a torre de Pizza!
Pois é, o essencial além de não ser invisível, pesa nos ombros!
Então ela pára, repensa e decide, afinal, que vai organizar a bolsa, retirando de lá o que é supérfluo.
Quando esvazia a bolsa sobre a mesa, ficamos admirados pensando em como é fácil contradizer as leis da física e toda aquela história de dois corpos não ocuparem o mesmo espaço... Cartola de Mágico!
Depois de pensar muito e selecionar metodicamente, analisando a possível utilidade de cada coisa, exclui, enfim, alguns folders guardados, papéis inúteis, os esmaltes e a saboneteira.
Ela diz: Nossa, quanto espaço há agora! Não é tão difícil se desfazer das coisas!!
Realmente. (!!!)
Observando tooodo aquele espaço restante, antes de fechar a bolsa e concluir a “arrumação”, ela diz: tem tanto espaço que agora até cabem os esmaltes. E é assim que os esmaltes retornam (na repescagem!) juntamente com uma gominha daquelas amarelinhas e uns clips que nem estavam lá antes.
Afinal, agora tem espaço, eles não farão diferença, uai!!!
Esta é a hora em que a câmera fecha o close na saboneteira isolada ali na mesa (porque os papéis foram pro lixo!), enquanto na TV alguém noticia que aquela outra Bolsa lá está despencando, tão cheia de valores quanto a bolsadela!
.
.
.
Inspirado na pequena Beatriz e sua grande bolsa, ou na grande Beatriz e sua pequena Maxxi Bolsa.
E mais ou menos na minha bolsa, na bolsa da Carol, da Zezé, da D.Hermínia, da Lú, do Marco Antônio (!?!), da Elisa...
E também inspirado no Snoop, no McGiver e nos cangurus!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

JELLY ROLLS (2º da Trilogia "O Crime Descompensa")


"-
Vou lhe dizer algo e espero que não se esqueça, caso queira ter sucesso na profissão: Nunca sofra por uma dor que não é sua.
- (...)
- Você pode achar isso cruel, mas vai acabar percebendo que não é. Não conseguirá resolver o problema dos outros se envolver seu coração nisso. Envolva a perspicácia, seu raciocínio e resguarde o coração. Veja através de você mesmo, de seus próprios problemas. Estando neles, sentindo a dor que eles lhe causam, fica mais complicado ter uma visão externa que lhe permita resolve-los. É preciso olhar de fora.
- É... Você tem razão. (pensava: E tudo aquilo que me disseram, sobre ser inteiro, sobre o “algo mais”???)
Ele queria ter certeza de que o outro tinha razão, mas ficava inquieto. Não sabia exatamente qual era o seu papel no mundo, se era apenas usar as palavras certas, a eloqüência e apresentar as soluções através de pedidos deferidos, alvarás, sentenças favoráveis.
- O mundo é uma selva.
- Raramente ele não é, rapaz. "
Este foi o diálogo que teve dias antes com um oficial de justiça que ele mal conhecia e que ecoava em sua mente enquanto aguardava que o acusado fosse trazido à sua presença.
- Pronto doutor. O preso está à sua disposição.
O aviso o trouxe de volta para o presente.
Era seu primeiro contato com o homem. Ele estava pálido e ferido, apesar de tratado. Parecia bem mais velho do que a idade que constava em seu prontuário.
Depois da conversa e orientações de praxe, o homem falou em tom de rogo:
- Aqui não é o meu lugar.
- Você é o responsável por estar aqui.
- Aqui é o inferno, durmo no chão frio entre mais de 130 caras, estou sem agasalho, estou com cólicas e essa ferida no braço. E são tantas moscas por lá. Me tire daqui, doutor, pelo amor de Deus!
No depoimento ele disse ser ateu, agora rogava pelo amor de uma entidade que ele sequer acreditava!
- O possível será feito por você. Mas não depende somente de nós, entende?
O homem começou a chorar feito criança. Verdade ou dissimulação?
- Você pode me fazer um favor?
- Peça e eu digo se posso.
- É que amanhã é dia de visita. Como você sabe, toda minha família é de outro estado. Não virá ninguém. Eu to louco pra fumar, sabe?
- Você quer que eu traga cigarros pra você?!!!!
Perguntou meio indignado. Ele não fumava. Detestava a fumaça de cigarros. Agora o homem pedia que ele comprasse...
- É que o cigarro me acalma.
- Está bem, verei o que posso fazer.
- E... Balas de goma. Sabe, aquelas coloridas?
Ele riu com o pedido!Era apaixonado por jujubas. Nunca se contentava com os rolinhos de 10 unidades! Achava mais poético chama-las de Jelly Rolls, como vinha escrito no pacote. É que se sentia no meio de um clipe da Janis Joplin, sabe-se lá porque!
- Você quer jujubas?!!
O preso ficou envergonhado ao assumir que sim. Tinha graça!
- Agora entendi o motivo dos chocolates no meio das outras coisas, seu malandro!
Os dois riram. Era a primeira expressão mais alegre naquele lugar cinza e frio.
- Pode aguardar. Eu trarei!
Não era o seu dever, mas como prometeu, no outro dia ele estava lá com “os pedidos”.
O cigarro entrou e mesmo assim, abriram as carteiras e espalharam todos avulsos numa sacola. Mas as Jellys Rolls foram barradas.
- É que pode ter muita manha dentro de uma simples bala, doutor - disse o agente penitenciário.
- É... Eu entendo.
Porque de repente parecia um crime portar balas?!!!!! Naquele lugar era mais fácil entrar com drogas do que com jujubas!
Foi embora dali. Ao sair, viu uma barraca de acampamento na entrada do presídio e duas moças dentro delas. Mulher de preso - pensou. Ficou pensando se elas faziam aquilo por aventura, por medo ou por amor. Ficou pensando na abnegação de todas aquelas mulheres que subiam o morro do presídio, mulheres de todos os jeitos e corpos caminhando em um séqüito como formigas, cheias de sacolas. Eram mães, filhas, irmãs, companheiras, esposas... Quase não viu homens entre elas, apenas meninos, crianças.
- Não. Não deve ser apenas por medo ou só por aventura. Ia além.
Havia sofrimento no suor daqueles rostos que subiam o morro para o dia de visitas, mas havia também uma beleza que ele não sabia explicar, e que, no entanto, tocava seu coração de tal forma que a garganta comprimia.
A cada um segundo suas obras. Era assim que as coisas funcionavam, o universo se encarregaria do destino de cada um. Daqueles presos pelo lado de fora e daqueles presos pelo lado de dentro. Como acontece com os lírios do campo...
Enquanto descia o morro, entre todos os pensamentos, ressoava aquele diálogo que tivera dias antes.
“Não sofra por uma dor que não é sua.” “Você não faz parte do problema, apenas movimenta as peças!”
Lembrou que aceitara o último caso antes deste, devido às súplicas de uma mãe de condenado e que foram as lágrimas maternas que o moveram, mais do que qualquer outra coisa.
E agora? Estaria ali pelo quê?
O morro acabava no início da estrada.
Ele parou por um segundo, olhou para o pacote colorido de balas no banco do passageiro e concluiu que apesar das inúmeras crianças, todas inocentes, que ficariam muito felizes em ganha-las, aquelas já teriam destino certo no dia da liberdade.
A doce liberdade!
Acelerou, deixando o presídio para trás.
Ele não era o herói do mundo e nem deveria tentar ser. Ele era só o cara que não sabia muito bem diferenciar piedade de compaixão ou misericórdia de pena.
Naquele momento, ele era só o cara das balas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DIVÃ

Vamos falar da primavera que neste ano veio quente
Vamos falar de um inferno cheio de boas intenções

Vamos falar da poesia de sua alma transparente
Falemos dos elos perdidos e perigosas ligações

Vamos falar de tudo o que ainda não foi falado
Vamos propagar o som velado
Vamos revelar a luz do sol
Vamos falar do que é notícia
Dos podres poderes da polícia
Vamos falar do mundo
Vamos soltar a voz

Calei,
Nem foi por defesa
Eu tive coragem, mas não tive opção
Falei,
Que tinha certeza:
Nem toda verdade tem repercussão

Vamos falar do que incomoda
da moda sobre as passarelas
Vamos falar de tudo
Vamos soltar a voz

Vamos fazer do modo certo
Vamos jantar à luz de velas!
Vamos falar do mundo
Vamos falar de NÓS.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

CHOCOLATE E BREU (1º da trilogia quase fictícia "O Crime Descompensa")

Pequeno e acelerado . Era meu coração naquele momento.
Para contrariar o costume, eu queria o silêncio.
Então ela chegou e sentou-se ao meu lado.
- Está aí esperando tem muito tempo?
- Não. Cheguei agora.
- Tem um cigarro?
- Eu não fumo.
- Tô nervosa. Preciso de um cigarro.
- Nem se eu tivesse um você poderia fumar aqui dentro.
- Eu dava um trago lá fora. (...) E chocolate, você tem?
- É seu dia de sorte. Tenho um Chokito!
- Serve!
Dei a ela o chocolate que foi devorado em três tempos.
- Acho que você está mesmo nervosa!
Ela não parava quieta. Sentava, levantava, ia até a porta e voltava e esfregava as mãos.
- Fique tranqüila. Você já passou pelo pior. Agora vai doer menos que uma injeção de Bezetacil.
- Você é meio doida! Eu sempre achei.
Fiquei surpresa com aquela afirmação!
- Sempre achou por que?
- É que você fala umas coisa diferente. E nunca vi alguém com tanto doce na bolsa que fala coisas diferente. (sem concordância mesmo)
- Só por isso você me acha doida?
- Sei lá. Você não é muito normal não. Eu sou estropiada assim, mas sei ver quando uma pessoa é normal e quando é meio doida igual você.
A essa altura eu já ria, preocupada com o fato dela me achar “meio doida.” Aquilo poderia abalar a relação que tínhamos estabelecido até ali, com o respeito que deveríamos ter uma pela outra.
- O que é que tem a ver você se achar estropiada com saber se a pessoa é normal ou não?
Ela só riu e balançou a cabeça, como a dizer: sou foda!
- Você tem mais chocolate?
- Tenho não. Só tinha aquele. Tenho bala Toffe!
-Serve.
Meu telefone tocou e enquanto eu o procurava com a mão no meio da bagunça da bolsa, uma foto caiu. Ela pegou. No verso da foto, a inscrição com caneta preta: “Sempre seu”. Ela leu.
Enquanto falava ao telefone, vi que ela fazia careta. Desliguei.
- Humpf. Isso não tem jeito.
- Hã?!
- Prometer o que não sabe.
Me devolveu a foto.
- A gente faz jura de amor, menina, mas é sem saber o que vai ser.
Promete a eternidade, mas é tudo uma incerteza só!
Olhei para ela espantada. Sua última frase não condizia com o julgamento que eu fazia dela: mulher simples de idéias e vocabulários limitados.
- Mas na hora que a gente fala ou ouve, faz sentido, não é? Perguntei querendo ver até onde ia dar aquela conversa.
- Se você parar pra ver, não tem sentido não. Essas palavras aí são bonitas de ouvir, mas só cria vontade. Depois que a validade da palavra acaba, a vontade não acaba junto. Aí vai doer. Você ainda tá com o moço da foto?
- Não. A foto é velha.
_ Tá vendo?! E você ainda carrega a foto na bolsa. Joga isso fora.
- Não. Faz parte da minha história. Foi eterno enquanto durou.
- Ah, pára de falar bonito, menina. Dizendo isso, fez muxoxo. Deve ter durado menos que essa bala. Você sabe que eu tô certa.
- Durou o suficiente. (...) Se é tudo incerteza, quando é que a gente vai ter certeza pra dizer que ama?
- É tudo uma merda, menina.
Exclamei:
- Ó!! Acho que você é meio doida!
- Ei, peraí, num começa a inverter as coisas. Você é que é meio doida!
- Rsrs!
Eu já havia me revelado mais do que deveria para aquela mulher. Em certas horas é preciso conter as exclamações. Eu apenas sorri e me calei. Ela continuou andando de lá pra cá, esfregando as mãos e coçando a cabeça.
- Preciso de um cigarro, cacete...
Então ela olhou para mim e estendeu as mãos:
- Me dá outra bala aí.
.
.
.
.
Ela cumpriu pena por oito anos, por ter assassinado seu marido.
Não suportou as mentiras dele e nem os socos.
Numa manhã, véspera de natal de 1989, depois que ele saiu do banheiro, ela o esfaqueou e o dividiu em quatro partes. Ficou em casa esperando a polícia chegar.
Agora cumpre o semi aberto. No momento do diálogo, aguardava as condições da audiência admonitória.
Começou a fumar no presídio.
... e a comer chocolate compulsivamente comigo.


terça-feira, 16 de setembro de 2008

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Acreditar não é verbo de auto-ajuda. É quase um pó de pirlimpimpim!

.
.
Pessoas queridas,
Estranhos dias arrombaram minha porta e descobri que pensamento mágico não funciona muito depois que a gente cresce!
Certas coisas a gente precisa enfrentar mesmo. (Não havia uma placa na entrada dizendo que seria fácil).
Eu, cada vez que me surpreendo com as “flores no lixo”, sinto uma enorme necessidade de espalhar para o mundo que existe luz no fim do túnel e arco-íris no fundo do pote.
Sou imensamente grata, hoje especialmente às minhas duas irmãs, a Beatriz, irmã cósmica que me fez respirar , oxigenar o cérebro para encontrar soluções e à Jeanine, minha doce irmã de sangue, por existir e ter me auxiliado com o peso da cruz.
Os problemas continuam, assim como os fatos, mas por vocês existirem, ficou mais fácil enfrentá-los!
Obrigada, gente.
Amo vocês.
.
.
.
O que tem solução é problema. O que não tem, é fato.
Problema a gente resolve.
Fato a gente encara.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

The Dark Side...


Ela...
Achava que não tinha máscaras, que era transparente!
Coitada, era tão transparente quanto um rio turvo.
Era uma cebola. À medida que a descamação acontecia, alguém por perto chorava.
A luta para saber o que havia sob sua pele era sincera, no entanto, seus artifícios eram muitos. Ela fugia e fingia sempre que fosse conveniente.
E o pior, ela cobrava sinceridade dos outros, embora não suportasse as franquezas mais cáusticas.
A frase da mãe ecoava:
“É fácil ser sincero quando não se vai dizer toda a verdade.”
- Tá, mas e aí? Como dizer verdades que não cabem na palma da mão?
Requer habilidade ou apenas decisão e firmeza?
Ela sempre escondia algumas frases debaixo do colchão. Engolia sapos indigestos para evitar as guerras. Quase sempre se escondia atrás de situações acima de suspeita, mesmo se sentindo desconfortável com tais atitudes, mesmo sob a égide do “sem querer”. Não premeditava tudo, mas o impulso da covardia e preservação ainda vigorava nela.
Um dia lhe disseram que não conseguia dizer as verdades mais duras porque queria safar a própria cara e não porque queria preservar o outro.
Era melhor ser a mocinha!
Na hora ela achou crueldade, mas agora pensa se não é assim mesmo.
Depois que soube que seu coração era explosivo, quis por um instante que acontecesse um infarto. O arrependimento por esse desejo veio imediatamente, por achar que poderia ser mais forte, que a vida era mesmo dádiva, que existe coragem nas continuações.
Já que o cálice não seria afastado, então, precisaria ver emergir o monstro da lagoa. E enfrenta-lo.
Ah, meu Deus, descobrir suas torpezas quando as detestava no outro, era árduo.
E quanto aos relacionamentos.
Nisso ela sabia ser perversa!
Culpa ou dolo?!
Sabe quando um programa trava e não adianta mais clicar?
Era ela nas entregas. Travada.
Entregou-se inteiramente apenas uma vez, mas nem antes e nem depois conseguiu fazer isso. A metade que ela sabia ser era como bala de pimenta. Bom pra quem gosta.
Logo ela, moça tão correta, de sorriso fácil, quase nunca aparenta tristeza embora fique triste, não fala palavrão, não bebe álcool, não fuma, não... (ah, isso ela faz de vez em quando!), não atura injustiça...
Logo ela era a vilã.
A vilã em seu próprio filme.
Vilã não do acaso, mas do pseudo-enfrentamento ou do autismo funcional.
A mania de querer melhorar o mundo era, no fundo, uma insatisfação com o que trazia por dentro.
Seu coração já não cabia no peito, mal suportava a expectativa do looping.
Mas ela sabia, ela sabia que a lanterna estava perdida em algum lugar dentro de si, entre as justificativas que formulava para as omissões, para as meias verdades, entre suas misérias, entre as vísceras, entre o chocolate e o mel que possuía e entre a luz que acreditava ter.
Ela sabia que estava ali o roteiro que a faria mudar de papel.
E mais do que tudo, ela queria outro papel.
Com Vontade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O que a falta de inspiração não faz, né?!!
Eu resolvi reformar esse café.
Termino depois, quando o tempo estiver a meu favor.
Enquanto isso, sentem, tomem um chá, um suco, um chocolate ou um creme de abacaxi.
Hoje é por minha conta!
Sopro de Eves!

Ah, tem água também!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Epifania Supernova

E de repente,
não mais que de repente
, toda angústia se dissolveu naquele ato.
O mundo se mostrava grandioso e brilhava mais na medida em que seus sentimentos retornavam do passado.
Abriu o livro por necessidade e encontrou inesperadamente, entre as técnicas páginas, a didática da revelação:
um botão de rosa vermelha, desidratado.
“Natureza morta” emanando vida às horas.
Foi um presente dele, talvez o único sincero.
Ela guardou para não esquecer.
Mas não era ele e nem a rosa que significavam aquele momento.
Era a resposta mística aos seus apelos ao alto.
Era o símbolo da sabedoria materna que recomendava fé, que a exortava ao caminho estreito, tão difícil de seguir.
Era uma mensagem ao seu coração assustado, egresso da “Terra do Nunca” dizendo: “Pulse. Impulsione. Não se impressione.
Não deixe a pressão te levar.”
O mar não deve ser maior que a Vontade.
Ela sabia. Ela sentia. Aquela era a sua epifania e as lágrimas de então eram de gratidão à vida.
Lá fora tudo continuava exatamente igual ao que era antes dela abrir o livro:
os carros, as buzinas, a algazarra, os enigmas e os prazos.
Por dentro dela, uma supernova acontecia.
Sua razão, quase sempre cética,
naquele instante deixava-se levar pelo
fluxo disperso do invisível e pela ordem incompreensível do universo.
Caso sua sensibilidade estivesse mais aflorada,
teria ouvido o silêncio sussurrando:
- Aquiete seu coração. A primavera já se anuncia!
.
.
.
Supernova: corpos celestes que surgem depois que uma estrela explode.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

(I Can't Get No) Satisfaction

"Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos.
O que me resta é só um gemido,
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino, minha alma cativa"

(Ney Matogrosso - Secos e Molhados)

Parece brincadeira...
A gente se recupera de um golpe e vem outro
Mal dá tempo de tomar fôlego
Se fossem fases de vídeo game
Estaria perto do “game over” quase sem vidas para continuar
Só quase!
A dona me falou que querem tirar o meu sorriso,
que é pra eu estar atenta
Por teimosia, vou sorrir
Mesmo com o coração descompassado
Mesmo com um detalhe engasgado na garganta.
O que me importa é não estar vencida
Porque agora a rédea é minha
Sempre foi, mas agora eu sei que é.
Antes, bem antes,
Era a vontade estúpida e violenta
De quebrar os copos, metralhar o mundo entre as paredes
Explodir tvs e telefones
Agora é melhor
Eu absolvi o mundo de qualquer pecado acima ou abaixo da linha do Equador
Não há revolta porque a desordem é a minha
O que sinto agora é um incômodo centrífugo
Uma auto-insatisfação
Eu tenho uma relação paradoxal comigo de amor e ódio
Hoje é assim e ainda derramei café em minha roupa.
É a menor mancha que tenho no corpo, na veste ou na alma e não queima mais do que o frio das horas que passo sozinha formulando soluções
Tudo parece uma repetição sob novas perspectivas.
Não tem a ver com minha obsessão por Foucault ou por Dali,
Não tem a ver com a dádiva da existência de pessoas que são verdadeiros anjos em minha vida,
Com as belas paisagens do caminho,
Com esse jingle horrível do candidato 23.222 para vereador,
Com eu gostar menos de sexo do que os outros terráqueos e de me sentir E.T por causa disso,
Com o resultado do hemograma que me alforriou da angústia da semana passada
Com o fato de eu poder continuar comendo jujubas sem preocupação,
Com essa tosse que não passa,
Com o armário bagunçado,
Com o caleidoscópio que quero montar, reutilizando os cacos,
Ou com a alça do meu sutiã aparecendo toda hora, fora da moldura como eu.
Não.
Na verdade, tem a ver com *embarcar.
E embarcar tem a ver com todo o resto.

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo...



*Foi golpe baixo Beatriz!! A frase era minha!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

EMBARCAR


Para ser grande, sê inteiro.
(Fernando Pessoa)

É simples assim: cada escolha é uma renúncia.
Existe um barco na água, pronto para ir.
Ao lado dele, está o continente, cheio de possibilidades.
Você pode escolher embarcar, assumir o risco do desconhecido e vivenciar novas experiências. Recomeçar.
Você também pode escolher ficar em terra firme, solidificar as conquistas que já fez, sedimentar os afetos ou concluir seus projetos inacabados. Continuar.
O que não dá pra fazer, é ficar com um pé no barco e o outro no continente.
Isso irá lhe partir ao meio e não possibilitará a você a luz de experiência alguma, a não ser a sombra da indecisão inerte. E convenhamos, viver é movimento, né?!
Que movimento acontece quando você tem um pé em cada lugar de natureza diferente?
Você até consegue rebolar, mas precisa saber se é realmente o que quer. Rebolar pra viver. Você consegue mexer os braços, mas não pode alcançar muita coisa. Você pode girar o pescoço, mas não verá muito além do que existe ao redor.
Você trava o mundo, a rotação, a translação e deixa a angústia, a expectativa e o medo segurarem as rédeas do seu destino. Que é seu! Só seu.
Esqueça os “e se”. Ora, você só vai saber se for... ou se ficar. Não há respostas dentro do “mais ou menos” e nem na experiência do outro.
O outro estava sob outras condições de temperatura e pressão atmosférica!
Renunciar a uma alternativa gera certa dor, contudo, é preciso ter coragem e ter coragem não significa não temer. Significa ter medo e enfrentar. No pain, no gain.
Embarcar é isso, é enfrentar a dúvida e escolher.
É escolher e assumir a escolha, sem “mais ou menos”.
Você pode ir. Você pode ficar.
Mas é bom lembrar que a felicidade só é possível no lugar onde você for inteiro.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A distância entre nós II

(Eu e a velha da praça!)
*
*
Existe um certo incômodo, pelo menos para mim, em ficar em silêncio na companhia de alguém que conheço a pouco tempo ou que acabei de conhecer. O silêncio me perturba nessas horas. Sabe aquelas reticências que ficam no ar, o sorriso puxado sem mostrar os dentes, sobrancelhas levemente arqueadas, algo um tanto constrangido pela ausência de assuntos?!
No elevador, então... Geralmente são pessoas que vemos todos os dias e nunca temos nada o que dizer além de saudações comuns. Isso quando acontecem, porque tem gente que emite um nfuewwj que deve significar “bom dia” e tem gente que simplesmente fica ali, muda, olhando pra baixo o tempo todo, enquanto o elevador sobe! De resto, ficamos observando o visor, ansiosos para chegar logo em nosso andar. Quando tem criança é mais fácil. Elas são mais espontâneas e quase sempre estão rindo. A gente brinca com elas e acaba formando um elo com os pais (ou responsáveis), mesmo que bem frágil. O problema é quando você mexe com um bebê e ele faz beicinho querendo chorar (ou chora mesmo!) e ainda faltam três andares pra chegar no seu.
“Pensa logo numa coisa pra fazer esse menino se acalmar”. (cabeça baixando arquivos de ajuda!)
É... Elevador é complicado. Não dá tempo de conversar. Mas precisa fingir que não tem ninguém do seu lado? É tão difícil dizer “oi” ?
Não me considero tagarela, no entanto, adoro bater papo. Quando estou de TPM, a coisa piora. Eu não fico irritada. Eu fico com uma necessidade extrema de falar. Foi por isso que resolvi formular um rol de assuntos para iniciar uma conversa, aberto à sugestões. (!) O rol precisa transcender os clichês sobre o tempo. Essa história de “hoje está frio”, “hoje está calor”, faz o assunto acabar rapidinho e não acrescenta muita coisa além do que você já sabe.
Na efervescência da lista, descobri que falar sobre as cicatrizes pode ser bem interessante. Você fica sabendo um pouco da história do outro e acaba por se revelar também.
Eu tenho uma cicatriz pequena sobre a sobrancelha direita. Foram cinco pontos. Eu devia ter uns três anos e meu irmão mais velho ia atirar na minha boneca com uma espingarda de chumbinho. Fui salvar a boneca e levei o tiro na testa. O chumbinho está lá até hoje. Se pressionar o dedo, dá até pra senti-lo. (Eu e meu irmão temos atualmente uma relação harmoniosa!!!Rsrs) Adorei dizer certa vez ao otorrino (que consultei devido à sinusite) que aquele “objeto metálico não identificado” que apareceu no raio-X da minha cabeça, era fruto de uma abdução alienígena, onde instalaram um chip em mim! Gosto daquela cara de incredulidade que fazem, embora a verdade que eu conto depois seja menos glamourosa : "Estou brincando, isso aí é um tiro que eu levei!”
E o assunto começa...

sábado, 16 de agosto de 2008

Sob os olhos do sol


O sol nasce primeiro no estado da Paraíba.


Quis estar onde era claro
Quis esclarecer o que sentia
Sem sombras, sem te assombrar
A sombra da dúvida a enviar-me cartas de alforria
Correr pela estrada, a cidade a se perder de vista
(Todas as imagens e o som da sua voz)
Eu vejo fatos e passagens
e as cores que ficaram
Tantos personagens, eles, tu e eu
Quem somos nós?
Quis deixar tudo mais claro
Quis purgar as culpas que nem tinha
Sem medo, sem te amedrontar
Pra dissipar a dúvida
E desfazer amarras,
libertar-se rumo à luz
que sob nossas cabeças rasga a escuridão
a revelar-nos o mundo nú
Assim como veio ao universo
Como vimos, nada mais se ocultará
Sob os olhos do sol.
.
.
.
.
Bem vindo dia. Bem vinda alvorada. Bem vinda luz!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Por entre os dedos...


Era para ser qualquer outra coisa
Que englobasse mais confetes
Que lançasse serpentinas
Que brindasse a vida
Celebrasse as novas amizades
Ou sondasse os efeitos da mentira
nas verdades que não cabem na palma da mão.
Mas qualquer outra coisa não seria a coisa que sinto
Essa vontade cáustica de ser matéria dentro do liquidificador ligado.
Lágrimas de culpa e desespero no meio do campo de batalha.
Sensação de dever não cumprido.
Se eu era um índio sob a força de Marte
Hoje sou apenas uma criança encolhida e com medo
Desejando paz e rezando baixinho para o caos seguir em frente,
para ver ordem novamente no jardim.
“Por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas”
(o sol morreu aqui também)
*
*
Pequena fresta por onde a sombra atravessa nos dias estranhos.
Hoje, depois das 17:00h não teve chá!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Guerra, amor e bactérias

"Se alguém vos disser que não é o braço direito, ofereça-lhe também o esquerdo."
(Sblogonoff, post 65:8)


Ofereci meu braço ao sacrifício.
Tem um conflito na Geórgia, olimpíadas em Pequim e uma agulha injetou bactérias enfraquecidas em meu corpo.
Despedacei seu coração com minhas palavras cortantes, mas não pude suportar as lágrimas que rolaram. (Seus olhos ficam mais claros quando você está triste.)
Consternada, quis unir seus cacos num abraço e acabei lhe ferindo mais uma vez.
A vida é luta renhida, viver é lutar
Estou em campo.
Eu sou um índio, amor. Marte sobre o meu signo inflama meu coração aflito para as batalhas.
Qual é a guerra que dói mais?
Aquela envolvendo a Rússia ou a nossa cotidiana?
Guerra nas estrelas. Desordem na constelação.
Ação de anticorpos na defesa do território.
Existe em mim um combate cheio de sangue e glóbulos brancos.
Aparthaid interno.
Terninhos em promoção.
Ternos abraços.
Obscenos gestos avulsos a me torturar.
“A vida é combate que aos fracos abate. Aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”.
Quanto do meu suor merecerá a medalha de ouro?
Quanto do seu suor fará jus aos louros da vitória?
Nessa guerra , cor do cabelo não é prerrogativa para vencer.
A Vitória está lá para todos.
Basta atravessar a 3º Ponte.
.
..
...
O laranjinha é de Tamoios, Gonçalves Dias.
O amarelinho é do Drummond.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Anabelamente!


A eternidade.
Este é o tempo contido entre o início da queda e o impacto contra o chão.
Eternidade comprimida no desejo de que aconteça algo mágico que reverta a situação e evite o trágico tombo. Fica-se na sensação da dor antecipada e do constrangimento que a queda causaria. A visão se turva e todo o corpo se prepara na defesa dos ossos e músculos possíveis.
Eu sei. Já caí algumas vezes!
Dessa vez foi ela, uma das advogadas mais respeitadas e requisitadas daquele quadrado.
Entrou lindamente na padaria onde eu, humilde “aprendiz de feiticeira”, esperava ser atendida.
Reparei no salto. Anabela. Tinha o desenho bonito de um beija-flor nos hibiscus. Os galhos que saíam do desenho continuavam como tiras da sandália.
Enquanto observava os detalhes, ouvi uma interjeição que não consigo traduzir aqui e vi que ela tentava se escorar em algo. No ímpeto, segurou a cadeira vazia da mesa onde eu estava, no entanto, a queda era inevitável. A dela e a da cadeira sobre ela.
Naqueles átimos de segundo, desejei não ser testemunha do espalhafatoso momento. Quis que não fosse ela. Quis não estar ali. Mas eu estava!
No intervalo de tempo em que levantei depressa e contornei a mesa para acudir, ouvi o “Anhi”. Lembrei que foi a mesma interjeição dolorida que ouvimos quando a moça toda poderosa esborrachou no meio do baile de formatura de minha irmã, meses atrás. Quis rir da comparação, mas me contive.
Aproximei-me dela achando curioso que apenas eu fui socorrê-la. Nenhum cavalheiro presente se moveu. Algumas pessoas ficaram tentando disfarçar o riso. Outras nem disfarçaram.
Acho que fiquei tão constrangida quanto ela, sem saber se seria mais adequado minha séria comiseração ou qualquer comentário cômico que amenizasse a situação! É mais fácil cair assim perto de amigos. Uma gargalhada em conjunto resolve tudo. Mas como eu ia dizer a ela que aquilo sim era um “chá de cadeira”?!!!
Optei pela séria comiseração!
- Você se machucou? Perguntei oferecendo o braço.
- Aquele filho da mãe... Ele falou pra eu não usar esta sandália. (ela não respondeu minha pergunta!)
- Ah, mas ela é tão linda!
- Também achei. Mas já me desequilibrei antes e ele disse que aconteceria de novo. Lei de atração, conhece?! Fiquei com isso na cabeça e acabei caindo.
- Acho que isso está mais pra lei da gravidade!
Ela riu. Ufa!! Ri também.
Nisso o funcionário da padaria se aproximou e perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim e agradeceu, mas é claro que não estava. Como cair ruidosamente e ficar bem?!
Um senhor, sem sair de onde estava, tentou encontrar algo no chão para colocar a culpa, porém, coisas inanimadas são inimputáveis!
E foi assim que em poucos minutos fiquei sabendo que “ele” a quem ela se referiu era o namorado 12 anos mais novo, que aquela sandália foi comprada na Itália por um preço ínfimo e que ela não vive sem pão de queijo pela manhã. Encerramos nosso pequeno diálogo sobre lei de gravidade, lei de atração, pão de queijo e atitude:
- Já não existem tantos gentlemans no mundo! Ela disse, se referindo à falta de solicitude dos homens ali.
- Mas tá cheio de ladys, né?!
Ela riu do trocadilho e foi embora trabalhar com as leis, enquanto eu fiquei ali esperando a sucessão dos fatos.
A manhã estava apenas no início.
.
.
.

Esta imagem eu encontrei no blog de Fábio Moon. Com o perdão do cara, eu modifiquei o salto da moça!
oblogdapapoila.blogspot.com

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Amanheceu


Estive fora por uns dias...
Deixei meu café sozinho e acéfalo, mas hoje é dia de retomadas.
Um dia é tão curto para conter tudo. Cronos continua devorando seus filhos e aqui na Terra, enquanto estão jogando futebol, entre o samba, o choro e o rock`n roll, continua sobrando tanta falta...
Faltaram abraços, faltou conhecer vocês, faltou encontrar mais amigos, faltou tomar vergonha na cara e resolver “a pendência”.
Só espero que não faltem oportunidades.
Hoje a manhã chegou antes que o sono fosse embora.
Na verdade, ele quase nunca vai embora antes do terceiro café!
Estou novamente na highway, onde a velocidade dos acontecimentos é maior do que o tempo que um corpo em desequilíbrio cai no chão.
Ela estava com salto anabela e tudo o que eu queria era não estar ali naquele momento de constrangimento. (Este é um assunto para outro post!)
Mas eu estava. Café da manhã na padaria! Depois do que aconteceu com ela, veio ele e perguntou se eu queria o meu suco sem açúcar, com açúcar ou com adoçante.
Eu disse que queria com açúcar e com afeto.
Acho que ele concluiu que aquilo era uma cantada, porque quando trouxe o suco, deu uma piscadinha e sempre que passava perto de mesa onde eu estava, olhava para mim com sorrisinhos.
Achei graça na situação!
Mas o que é que ele poderia entender de diferente, né?!
Uma mulher sozinha na padaria, logo cedo, querendo açúcar, querendo afeto...
Saindo dali, segui rumo ao escritório, sob a luz solar, pensando no que a noite foi, no que tudo isso tem sido. No táxi que me trouxe até aqui, Zeca Baleiro me dava razão! (NEM VIM DE TÁXI!)
De manhã, certas coisas parecem não ter sentido. Certas frases, certos alvos, certos planos incertos.
É difícil acordar cedo, contudo, as manhãs compensam o sacrifício!
Elas têm um quê de mágico, elas trazem auroras, elas rompem.
Acho até que tudo o que falta fazer no resto do dia cabe nas manhãs.
Elas são assim, elásticas. E mesmo que as manhãs não fossem, amanheceria.
. .
. . . .
. . . .
. .
Eu não vou medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro, esse hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos
Que a Guanabara, quero o Rio Nilo
Quero tudo ter: estrela, flor, estilo
Sua língua em meu mamilo, água e sal.
(Bandeira- Zeca Baleiro)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Meus caros amigos


Hoje é quinta-feira, e preciso comprimir todos os projetos que tenho nas horas que restam no dia.
Entre meus projetos, estava um post sobre qualquer coisa, porém, apenas em minha mente.
Sinto os assuntos surgirem em profusão, mas o tempo não me permite concatena-los.
Então, como hoje sou toda afeto, quero expandir os meus abraços à todos vocês que estão aqui, em meu café!
Ofereço a vocês um abraço através dessa Rosa Meditativa de Salvador Dali, meu norte para o surreal, onde os sentimentos são livres das amarras do pensamento tirano.
Somos todos luzes.

Brilhem, onde estiverem!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A gente brilhava

Este é um minuto bastante estranho.
Estou cansada de lutar contra moinhos de vento.
Nem sei como sou capaz de sentir tantas coisas no mesmo refrão.
Eu deveria estar em diversos lugares agora, mas não sou para ubiqüidades não!
Deus, como eu queria estar perto de minha mãe agora. Estar em minha casa.
Eu liguei e ninguém atendeu. Tocou, tocou, tocou...
Liguei para o meu pai e a mesma coisa.
O celular me enviou para a caixa e eu fiquei sozinha por lá.
Faz mais de ano que decidi que era capaz de viver sem eles por perto, mas de vez em quando aperta a saudade. A caixa é apertada.
Entrei por algumas portas erradas, mas não preciso de um juiz. Preciso de colo de mãe.
Engraçado, porque coloquei um CD do Caetano porque queria ouvir “Um Índio” , porém, na caixinha estava outro. Era esse que tá tocando agora, “Bom Combate”, presente de um amigo querido de BH, o Moisés de Verbos de Versos! ...Peço que me ajude a amar /desde a dor até o pôr-do-sol / Tenho a vontade de crescer /desejo que o amor se espalhe em mim... (Reconstrói a ti mesmo -Rodrigo Marçal)
A lembrança da Mocidade veio forte. Todo aquele tempo passando como um flash agora: a gente acordava domingo de manhã pra campanha do quilo ou para as visitas fraternas, havia as reuniões aos sábados, as gincanas, os saraus, os ensaios, as serenatas, nossas desavenças, nossa comunhão. Às vezes era tão difícil estar lá, preparar os temas, conciliar outros relacionamentos com aquela entrega...
Muitas vitórias foram molhadas por lágrimas, mas sei que valeu cada minuto.
A gente tinha dom de vaga-lume!
Hoje, sou até feliz na imperfeição do caos, mas me sinto tão distante daquelas coisas...
Queria que aqueles meninos soubessem que apenas os bons combates valem o nosso esforço. Outros combates são lutas vãs, ilusões e desperdício de energia.
É que a gente acha que certas coisas significam felicidade e realização.
Mas sabe?! (...) Nem sempre.


Nosso tempo confunde o sentido de quem busca ser feliz com ilusão, pois estreita é a porta da vida / “fortalecer a fé em seu ardor”
(Bom Combate-Tarcízio)
.
.
.
Apesar de minha crença, nunca gostei de estampar, mostrar rótulos ou martelar as verdades que conheço para quem não quer saber. Detesto proselitismo. Rótulos saem com a mão. São tão frágeis como a luz de vela à mercê do vento. Já as vivências se solidificam no interior e são possíveis até para os ateus. Religião é puro rótulo. Amor é construção. Exemplificar o Amor deveria ser o nosso dever, mas o mundo, com toda essa transição, anda mesquinho demais, e por diversas vezes, nos afundamos até o pescoço em tudo isso, iludidos e cheios de desculpas montadas na cabeça para que nossos erros pareçam menores. Desculpa de manco, é muleta. Hoje isso me causou náusea. Em contrapartida, fiquei muito grata por ter tido o privilégio de nascer em um lar como o meu, com a luz de minha mãe e a força de meu pai, que sempre nos exortaram para o Amor, o Belo e o Bem.
É sério. Ou eu acredito que o mundo está perdido, ou eu acredito no Amor. Prefiro o último e espero que vocês também.
I want to believe

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Quase uma balzaquiana!

Então veio a Júlia, a garotinha do segundo andar e me perguntou se eu sabia “virar estrela”.
Eu disse:
- Júlia, se eu fizer isso, eu nunca mais desviro! Vou virar a Moura Torta! (personagem da historinha que eu contei pra ela no outro dia!)
Ela riu e ficou me olhando com aquele olhar de “Antônia, você parece louca!”
Para mim, certas peripécias a esta altura, são fatais. Já foi o tempo!
O tempo, meu inexorável senhor, endureceu meu coração, meus ossos e juntas.
Enquanto Júlia “virava estrela”, lembrei da minha infância espoleta e contorcionista de subir em árvores, plantar bananeira, ficar acordada durante as viagens...
Hoje, mal consigo levantar da cama sem sentir dor nas costas.
Já me preocupo com rugas de expressão, pés de galinhas e os radicais livres.
Na época do Científico (como é que chamam isso hoje?), radicais livres era expressão da esquerda política. Hoje são os vilões que envelhecem a pele!
E as referências ao passado, meu Deus?!!
Certos amigos nunca ouviram falar do Juninho Bill. (do Trem da Alegria).
Hoje perguntei no escritório se alguém lembrava do lanche do Fofão. Tive que pegar a imagem no Google para provar a existência do negócio!
Mas é assim mesmo, o dominó do tempo cai. A vida quer seqüência.
Não temos que temer o tempo, né? Qualquer tempo é o nosso tempo e nada melhor que o presente, os homens presentes, a vida presente, como diz o Drummond.
Eu vou seguindo com meu currículo cheio de dor nos ossos do ofício (onde preciso parecer mais velha), em busca do segundo casamento, de novos horizontes, talvez os belos, de ações perfeitas, do santo graal, do vale encantado, do processo no site do TJ...
Eu vou seguindo a minha estrela, o meu brinquedo de (e)star!
Já que estrela eu não posso “virar”!

No meu olhar, na minha voz
Um novo mundo, sinta
É bom sonhar, sonhemos nós
Eu e você... *hahaha

*essa rima só dá pra escrever daqui quatro anos!!!
com o perdão do Miltinho!