quinta-feira, 30 de outubro de 2008
MASSA PODRE
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Parênteses
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
(A Seta e o Alvo - Paulinho Moska)
Aterrissei minha espaçonave no telhado desse café, e mesmo que um desmoronamento possa ocorrer, fico aqui, sem medo, esperando o tempo fazer algum efeito em meus sentidos no agora.
Não vai cair. Estou sob a proteção dos deuses de Eves.
A propósito, Eves é um planeta que surgiu na cabeça do meu irmão, Jônatas.
Jônatas era um cara enigmático, aliás, é um cara enigmático. Tinha um amigo invisível (não acredito que era imaginário), o Vico. O Vico vinha do planeta Eves. Vico de Eves!
O Vico viveu entre nós. Comia, dormia e brincava entre nós. Eu sempre respeitei sua presença, embora nunca o tivesse visto. Um dia ou outro, a gente sentava em cima do Vico, então o Jônatas socorria. Para facilitar, foi destinada uma cadeira especial para ele, na mesa de jantar. Foi assim até o dia em que ele disse que teria que ir embora em sua nave. Minha mãe fez uma festa de despedida, com bolo e brigadeiro!
Convidamos alguns amiguinhos e ninguém entendeu nada do porquê daquela festa na garagem! Ninguém via o Vico.
Isso faz uns 20 anos...
Então, um dia em 2005, sonhei com um menino azul, desses de seis braços, como Shiva. Era uma época mais ou menos conturbada de minha vida. Esse menino do sonho tinha uma flauta transversal. Vê, que idéia?!
O fato foi que ele soprou meu rosto e o vento balançou meu corpo inteiro.
Ele me disse que era o Vico, nosso amigo de infância. Disse que aquela era uma mensagem de Eves para mim e que as coisas ficariam bem. E como mágica, nos dias subseqüentes, as coisas realmente ficaram bem.
Não lembro direito do rosto do menino do sonho, mas lembro que foi assim.
Desde então comecei a emanar Sopros de Eves pro mundo. Um sonho pode ser apenas um sonho, mas um desejo é muita coisa. Quando digo "Sopro de Eves", imprimo ali o desejo de que ele surta o efeito levemente mágico que teve para mim.
E quando desejo, é menos automático do que quando digo apenas "abraços" nos finais.
Bom, a explicação era para ser apenas um parêntese, todavia, parênteses às vezes se estendem, transformando-se em períodos autônomos.
Eu por exemplo, era para ser outra coisa, mas abri parênteses existenciais e acabei saindo da rota. Hoje, encostada aqui no balcão desse boteco, sou apenas fração de tudo o que poderia ter sido.
Quantas vezes conseguimos manter o plano original?
E se o alvo na certa não te espera?
Por falar nisso, ele reclamou que "Corria todos os riscos e eu deixando a porta se fechar. Queria saber a verdade e que eu me preocupo em não me machucar.” É claro que eu preocupo em não me machucar. Vocês também não se preocupam não? Até quem se arrisca e segue, pensa em não se machucar.
Foi por isso que me prometi não mais amar.
Acontece, meus caros, que promessas como esta, resultam em nada, porque o coração zomba das promessas!
E certos parênteses zombam das frases!
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Embora aqui seja quente
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Josephine, todas as coisas são perfeitas
Acenderá todo farol - Iluminará uma ponta de esperança
E se virá, será quando menos se esperar, de onde ninguém imagina
Demolirá toda certeza vã
Não sobrará pedra sobre pedra
Não é porque o dia amanheceu chuvoso que o sol não continue brilhando ali por cima.
A toupeira viu o cometa pela poça lamacenta, se lembra?
Até a poeira sobre os móveis tem razão de ser. Ela não estaria ali se você limpasse.
Tudo, tudo Josephine, está de acordo com as leis gerais. Não percebe a engrenagem da desordem?
Não se preocupe, o perfume não deixará de existir, nem os abraços, nem os sorrisos. O prazer segue ao lado da dor. O mundo não está perdido.
Todos os dias cérebros são arrebatados, ou com revólveres, ou com informações ou com entorpecentes. A dor de dente, a fome, e a pizza de enchovas, o parque de diversões, o circo malacafento de cinco reais, o Circo do Sol de trezentos reais, os elefantes e os macacos em extinção, todas essas coisas continuarão existindo juntas. Coexistir.
Você acha que guardarão seus segredos para sempre, Josephine?
A função de um segredo é se revelar como um botão de rosas.
Mesmo os seus.
O planeta agora é uma grande bola pulsante, pronta para explodir.
Caso isso aconteça, você vai explodir junto, assim como eu, como eles e todos os outros pronomes. Cada um de nossos átomos (ainda acentuados como as curvas da estrada de Santos!) percorreria todos os anos luz que nos separaram da verdade por todos esses anos e reconstruiríamos, partícula por partícula, uma nova galáxia.
De que cor ela seria?
Por isso não se afobe agora. A pulsação pode permanecer por décadas, como se você caminhasse sobre um campo minado e mesmo assim, seria possível ter paz, sobretudo na grande explosão.
Porque todas as coisas são perfeitas, Josephine.
Enquanto isso, não nos custa insistir na questão do desejo.
Não deixar se extinguir. Desafiando de vez a noção
na qual se crê que o inferno é aqui.
Existirá - E toda raça então experimentará para todo mal a cura.
(A Cura - Lulu Santos)
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Descobri que não existem reinícios, mas sim continuações. E até que sou bem aventurada! Se eu abrir os olhos, verei com certeza os anjos ao meu redor. Todas as luzes! Olhem só, os comentários ao post abaixo!! Eles me fizeram chorar sim, mas foi diferente do que desejei hoje pela tarde. Vocês, mesmo distantes foram necessários. Sou grata a todos.
Seria muito bom se fosse possível apertar o start e começar do zero (que redundante, né?!), como no vídeo game.
Só que isso aqui é mais que um jogo.
Jogos acabam com o "Game Over".
A vida não.
Que bom!
Hoje é mais um dia quente, porém, aqui dentro desta sala, meus músculos doem perto do frio artificial do ar condicionado.
A rua parece outro mundo.
Os dias passaram, mas a angústia não passou. E o pior de tudo é que não tenho a quem recorrer, a não ser eu mesma. O grande problema, é que não sei necessariamente como me ajudar, como não me tornar uma kami Kase agora e acabar prejudicando outras vidas.
Detesto ficar triste e confesso que acho que deve haver algo muito anormal em alguém que está constantemente triste. Não é assim que é pra viver. Gente é pra brilhar.
Eu tenho aqui vários sentimentos, mas ainda não sentei para encarar nenhum.
Hoje eu queria escrever sobre a emoção que senti ao saber que o filho do meu irmão caçula já habita o planeta pelo lado de fora. Meu sobrinho Yan! De qualquer forma, eu queria que ele sentisse que embora o mundo seja um lugar muito perigoso, é também cheio de belezas que podemos tocar e de belezas que apenas nosso coração pode ver.
E quero muito que ele seja um homem de bem a mais por aqui. Que ele seja bem vindo.
Eu sei sobre nossa imperfeição. Às vezes tenho a impressão de que vivo num baile de máscaras. Só que eu penso que se esta é a forma das coisas, é preciso viver conforme esta realidade. Não vale a pena apedrejar a realidade e muito menos negá-la.
O impulso pelo bem é latente.
Ah, eu já nem sei do que estou falando.
Só sei dessa vontade incrível de chorar.
Sem colo.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Porque ela dormiu de calça jeans
"...você me disse que eu destruo sempre a sua mais romântica ilusão. E destruo sempre com minha palavra o que me incomodou. Acho que é sim. Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu?!"
(Todo mundo é lobo por dentro - Oswaldo Montenegro)
mas isso não é desculpa – nota do sblogonoff
É engraçado como certas coisas acontecem.
A gente de vez em quando complica o simples por nada.
Por exemplo, Fulano, sem querer, fez algo que incomodou Cicrano, mas Cicrano não quis dizer e nem exteriorizar que se sentiu incomodado. Ao invés disso, preferiu ser desagradável com Fulano. Fulano, que pensava que tudo estava bem, não sabe porque Cicrano estava tão hostil e por sua vez, foi ficando fulo da vida. É assim que a meleca circular e viciosa começa. Não é muito mais fácil, já que todos são civilizados, Cicrano chegar em Fulano e dizer: “Olha Fulano, aquilo que você fez me incomodou por causa disso e disso e disso”. ??? Ou então, Cicrano chegar pra Fulano e perguntar: Eu fiz alguma coisa que te incomodou?
Exemplo 0.1: Godofredo fez algo que Jeremias não gostou. Jeremias, ao invés de falar com Godofredo diretamente, já espalhou pra todo mundo que Godofredo agiu assim e assado. Colocou o outro na berlinda sem chance de defesa. Tsc, tsc. E quando Godofredo aparece, Jeremias é só sorrisos! Não dá pra entender.
Outro exemplo: Beltrano sentiu ciúmes de Miltrana, mas ao invés de dizer isso à ela, começou a desvalorizar a menina, a feri-la com comentários depreciadores e ela, sem entender nada, foi embora magoada e não vai dormir direito à noite. Não seria muito melhor se Beltrano falar para Miltrana que ficou com ciúmes, que se sente inseguro??
Exemplo três: A esposa de Mélvio dormiu de calça jeans e agora Mélvio está insuportável com todos no trabalho. Seria muito melhor se Mélvio desistisse de querer descontar em todo mundo suas insatisfações, porque nem todo mundo tem bola de cristal para adivinhar que sua noite não foi boa e nem todo mundo tem paciência suficiente para compreender sua grosseria.
Já que somos tão civilizados, já que nos consideramos tão modernos, porque destilamos pequenas vinganças nas relações? Todo mundo está propenso a desapontar e ser desapontado, a magoar e ser magoado. Tem gente que não dissolve a mágoa, engole sapos indigestos e tenta ostentar sorrisos. Quando não suporta mais, começa a descontar no outro, em doses homeopáticas, sua hostilidade, o que acaba por minar as relações. Isso é ainda pior do que as respostas à queima roupa, do que o “bate e volta” reacionário. É mais digno (embora não seja mais fácil) ser humilde, respirar e ir falar com a pessoa que existe um problema. Falar em tom moderado, consciente que é um potencial causador de feridas também. Se preciso for, é até melhor deixar a raiva passar e só depois ir esclarecer as coisas. É melhor do que se armar com o dedo em riste e sair bradando. Adianta virar o Hulk?! Li por aí, que o oprimido é sempre o pior opressor. E acho que é verdade. Cobras atacam para se defender, e sem o devido cuidado, o ataque é letal. Mas nós estamos num grau mais elevado da escala evolutiva, não é?! Acho que estamos ali, onde diz: Animais RACIONAIS.
Pode-se até não conseguir o resultado ideal, mas teremos feito a parte grandiosa de ser humano. Caso o outro não entenda, já não será problema nosso. Todo mundo tem seu tempo.O que posso afirmar, é que na maioria esmagadora das vezes dá certo. Palavra de uma garota impulsiva que está aprendendo (antes tarde do que nunca!) os benefícios do diálogo e descobrindo que até o pastel chinês da esquina é muito melhor que os sapos que ela engolia e não conseguia digerir.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
O dia depois de ontem
Ontem foi o duelo, (polielo, se é que essa palavra existe!), hoje são os vestígios.
As ruas sujas de santinhos, os muros cheios de propaganda, os vencedores e vencidos, todos na mesma poluição visual. Pelo menos estaremos livre dos jingles infernais!
É, porque quando ouvi Let it be dos Beatles, parodiada, pensei, coitada da democracia, gente!
Pense no refrão de Let it be.. Pensou? Pois é, o jingle era assim: Vote em mim, vote em mim, vote em mim, vote em mim, juntos venceremos, vote em mim, uuuhhh. Tinha até o uuuhhhh. E a Drag Queen que parodiou I will survive? O jingle de sua campanha era uma paródia do Hino Gay da Gloria Ganyor!! Foi eleita! Chica Chiclete, vereadora de Vila Velha! Nada contra a orientação dela, mas a companha foi um grande circo, assim como tantas outras.
É por isso que valorizo tanto o chocolate.
As coisas não vão bem, mas eu tenho um Laka, e por enquanto, isto basta!
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Sol na casa 2, Lua na casa 4
Acordei de mal humor, embora o sol e a lua estejam nas casas que me trariam harmonia.
Quimeras.
Não devo ter ido para um lugar muito legal no astral, esta noite.
Quis e até agora quero estar em silêncio.
Falar me irrita.
Explicar me irrita.
Não quero falar, não quero ter que explicar o porquê de eu não querer falar.
Hoje sou leite coalhado. Azedo.
Vou esperar o dia passar. Talvez, até o fim da tarde essa sensação mude.
Talvez a garganta desinfame, talvez a gripe se cure, talvez a cabeça pare de doer, talvez aconteça aquele fluxo de sangue. (acho menstruação uma palavra esteticamente feia.).
Pode ser TPM. Pode não ser nada. Pode ser qualquer coisa.
Talvez seja culpa da Lua. Talvez os astros nada tenha a ver com o meu dia.
Talvez (muito talvez) eu pare de pensar se realmente quero (você) em minha vida.
Acho que não posso.
Acho que isso passa.
Estou com saudades de casa...
terça-feira, 30 de setembro de 2008
MARSUPIAIS
Huuum...Bolsa dela ficou feio, né?! Ficou cacofônico, parecendo uma palavra só: bolsadela!
Ei, me dá um pão com bolsadela, por favor?!!
Não, não tá bom não. Peraí, vou reiniciar pra ficar melhor:
Em sua bolsa cabe tudo, exceto a máxima de Exupery: o essencial é invisível aos olhos.
Olha, se o essencial fosse mesmo invisível, a existência da bolsa não teria sentido. Porque lá se vê de tudo, tem de tudo, quase tudo tem. E tem atééé couro pra pandeiro. Tá. Isso lá não tem não, mas tem secador de cabelo portátil, tem mini-chapinha, tem grampeador, tem uma sacolinha com três colherzinhas (???) (É que ela é viciada em Chandelle, e nem sempre Chandelle e colheres estão concomitantemente juntos.) Também tem câmera digital, tem comprimidos pra dor de cabeça, outros para cólicas, tem sombrinha, tem tesourinha, estojinho básico de maquiagem, tem cortador de unhas, tem esmalte, pelo menos dois, um cremoso e uma base, tem algodão e tem acetona, tem um exame preventivo (que já era pra ter levado ao laboratório!), tem saboneteira com sabonete dentro, tem um CD e um DVD virgens, tem pasta e escovas de dentes, tem agenda, tem duas barras de cereais, tem o pen drive que ela achou que tivesse perdido, tem um livrinho de receitas de sobremesa da Garoto, isso fora a carteira, o carregador de celular, o celular, as chaves enroladas no fone do MP3, e um chaveiro colorido sem chaves. Tem o monstro da lagoa negra, o abominével homem das naves, tem o Bin Laden desaparecido... Nó, tem tanta coisa que parece a casinha do Snoop. Já viu num daqueles episódios em que o Snoop tira uma escada interminável lá de dentro??! É como a bolsa!
Ela diz que é melhor prevenir: vai que acontece de irmos parar no meio do mato com uma bolsa vazia!! Já pensou?
McGiver é que se cuide, porque essa bolsa é mais surpreendente que seus canivetes!
E ela está andando cada vez mais torta, feito a torre de Pizza!
Pois é, o essencial além de não ser invisível, pesa nos ombros!
Então ela pára, repensa e decide, afinal, que vai organizar a bolsa, retirando de lá o que é supérfluo.
Quando esvazia a bolsa sobre a mesa, ficamos admirados pensando em como é fácil contradizer as leis da física e toda aquela história de dois corpos não ocuparem o mesmo espaço... Cartola de Mágico!
Depois de pensar muito e selecionar metodicamente, analisando a possível utilidade de cada coisa, exclui, enfim, alguns folders guardados, papéis inúteis, os esmaltes e a saboneteira.
Ela diz: Nossa, quanto espaço há agora! Não é tão difícil se desfazer das coisas!!
Realmente. (!!!)
Observando tooodo aquele espaço restante, antes de fechar a bolsa e concluir a “arrumação”, ela diz: tem tanto espaço que agora até cabem os esmaltes. E é assim que os esmaltes retornam (na repescagem!) juntamente com uma gominha daquelas amarelinhas e uns clips que nem estavam lá antes.
Afinal, agora tem espaço, eles não farão diferença, uai!!!
Esta é a hora em que a câmera fecha o close na saboneteira isolada ali na mesa (porque os papéis foram pro lixo!), enquanto na TV alguém noticia que aquela outra Bolsa lá está despencando, tão cheia de valores quanto a bolsadela!
.
E mais ou menos na minha bolsa, na bolsa da Carol, da Zezé, da D.Hermínia, da Lú, do Marco Antônio (!?!), da Elisa...
E também inspirado no Snoop, no McGiver e nos cangurus!
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
JELLY ROLLS (2º da Trilogia "O Crime Descompensa")
"- Vou lhe dizer algo e espero que não se esqueça, caso queira ter sucesso na profissão: Nunca sofra por uma dor que não é sua.
- (...)
- Você pode achar isso cruel, mas vai acabar percebendo que não é. Não conseguirá resolver o problema dos outros se envolver seu coração nisso. Envolva a perspicácia, seu raciocínio e resguarde o coração. Veja através de você mesmo, de seus próprios problemas. Estando neles, sentindo a dor que eles lhe causam, fica mais complicado ter uma visão externa que lhe permita resolve-los. É preciso olhar de fora.
- É... Você tem razão. (pensava: E tudo aquilo que me disseram, sobre ser inteiro, sobre o “algo mais”???)
Ele queria ter certeza de que o outro tinha razão, mas ficava inquieto. Não sabia exatamente qual era o seu papel no mundo, se era apenas usar as palavras certas, a eloqüência e apresentar as soluções através de pedidos deferidos, alvarás, sentenças favoráveis.
- O mundo é uma selva.
- Raramente ele não é, rapaz. "
Este foi o diálogo que teve dias antes com um oficial de justiça que ele mal conhecia e que ecoava em sua mente enquanto aguardava que o acusado fosse trazido à sua presença.
- Pronto doutor. O preso está à sua disposição.
O aviso o trouxe de volta para o presente.
Era seu primeiro contato com o homem. Ele estava pálido e ferido, apesar de tratado. Parecia bem mais velho do que a idade que constava em seu prontuário.
Depois da conversa e orientações de praxe, o homem falou em tom de rogo:
- Aqui não é o meu lugar.
- Você é o responsável por estar aqui.
- Aqui é o inferno, durmo no chão frio entre mais de 130 caras, estou sem agasalho, estou com cólicas e essa ferida no braço. E são tantas moscas por lá. Me tire daqui, doutor, pelo amor de Deus!
No depoimento ele disse ser ateu, agora rogava pelo amor de uma entidade que ele sequer acreditava!
- O possível será feito por você. Mas não depende somente de nós, entende?
O homem começou a chorar feito criança. Verdade ou dissimulação?
- Você pode me fazer um favor?
- Peça e eu digo se posso.
- É que amanhã é dia de visita. Como você sabe, toda minha família é de outro estado. Não virá ninguém. Eu to louco pra fumar, sabe?
- Você quer que eu traga cigarros pra você?!!!!
Perguntou meio indignado. Ele não fumava. Detestava a fumaça de cigarros. Agora o homem pedia que ele comprasse...
- É que o cigarro me acalma.
- Está bem, verei o que posso fazer.
- E... Balas de goma. Sabe, aquelas coloridas?
Ele riu com o pedido!Era apaixonado por jujubas. Nunca se contentava com os rolinhos de 10 unidades! Achava mais poético chama-las de Jelly Rolls, como vinha escrito no pacote. É que se sentia no meio de um clipe da Janis Joplin, sabe-se lá porque!
- Você quer jujubas?!!
O preso ficou envergonhado ao assumir que sim. Tinha graça!
- Agora entendi o motivo dos chocolates no meio das outras coisas, seu malandro!
Os dois riram. Era a primeira expressão mais alegre naquele lugar cinza e frio.
- Pode aguardar. Eu trarei!
Não era o seu dever, mas como prometeu, no outro dia ele estava lá com “os pedidos”.
O cigarro entrou e mesmo assim, abriram as carteiras e espalharam todos avulsos numa sacola. Mas as Jellys Rolls foram barradas.
- É que pode ter muita manha dentro de uma simples bala, doutor - disse o agente penitenciário.
- É... Eu entendo.
Porque de repente parecia um crime portar balas?!!!!! Naquele lugar era mais fácil entrar com drogas do que com jujubas!
Foi embora dali. Ao sair, viu uma barraca de acampamento na entrada do presídio e duas moças dentro delas. Mulher de preso - pensou. Ficou pensando se elas faziam aquilo por aventura, por medo ou por amor. Ficou pensando na abnegação de todas aquelas mulheres que subiam o morro do presídio, mulheres de todos os jeitos e corpos caminhando em um séqüito como formigas, cheias de sacolas. Eram mães, filhas, irmãs, companheiras, esposas... Quase não viu homens entre elas, apenas meninos, crianças.
- Não. Não deve ser apenas por medo ou só por aventura. Ia além.
Havia sofrimento no suor daqueles rostos que subiam o morro para o dia de visitas, mas havia também uma beleza que ele não sabia explicar, e que, no entanto, tocava seu coração de tal forma que a garganta comprimia.
A cada um segundo suas obras. Era assim que as coisas funcionavam, o universo se encarregaria do destino de cada um. Daqueles presos pelo lado de fora e daqueles presos pelo lado de dentro. Como acontece com os lírios do campo...
Enquanto descia o morro, entre todos os pensamentos, ressoava aquele diálogo que tivera dias antes.
“Não sofra por uma dor que não é sua.” “Você não faz parte do problema, apenas movimenta as peças!”
Lembrou que aceitara o último caso antes deste, devido às súplicas de uma mãe de condenado e que foram as lágrimas maternas que o moveram, mais do que qualquer outra coisa.
E agora? Estaria ali pelo quê?
O morro acabava no início da estrada.
Ele parou por um segundo, olhou para o pacote colorido de balas no banco do passageiro e concluiu que apesar das inúmeras crianças, todas inocentes, que ficariam muito felizes em ganha-las, aquelas já teriam destino certo no dia da liberdade.
A doce liberdade!
Acelerou, deixando o presídio para trás.
Ele não era o herói do mundo e nem deveria tentar ser. Ele era só o cara que não sabia muito bem diferenciar piedade de compaixão ou misericórdia de pena.
Naquele momento, ele era só o cara das balas.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
DIVÃ
Vamos falar de um inferno cheio de boas intenções
Vamos falar da poesia de sua alma transparente
Falemos dos elos perdidos e perigosas ligações
Vamos falar de tudo o que ainda não foi falado
Vamos propagar o som velado
Vamos revelar a luz do sol
Vamos falar do que é notícia
Dos podres poderes da polícia
Vamos falar do mundo
Vamos soltar a voz
Calei,
Nem foi por defesa
Eu tive coragem, mas não tive opção
Falei,
Que tinha certeza:
Nem toda verdade tem repercussão
Vamos falar do que incomoda
Vamos falar de tudo
Vamos soltar a voz
Vamos fazer do modo certo
Vamos jantar à luz de velas!
Vamos falar do mundo
Vamos falar de NÓS.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
CHOCOLATE E BREU (1º da trilogia quase fictícia "O Crime Descompensa")
Para contrariar o costume, eu queria o silêncio.
Então ela chegou e sentou-se ao meu lado.
- Está aí esperando tem muito tempo?
- Não. Cheguei agora.
- Tem um cigarro?
- Eu não fumo.
- Tô nervosa. Preciso de um cigarro.
- Nem se eu tivesse um você poderia fumar aqui dentro.
- Eu dava um trago lá fora. (...) E chocolate, você tem?
- É seu dia de sorte. Tenho um Chokito!
- Serve!
Dei a ela o chocolate que foi devorado em três tempos.
- Acho que você está mesmo nervosa!
Ela não parava quieta. Sentava, levantava, ia até a porta e voltava e esfregava as mãos.
- Fique tranqüila. Você já passou pelo pior. Agora vai doer menos que uma injeção de Bezetacil.
- Você é meio doida! Eu sempre achei.
Fiquei surpresa com aquela afirmação!
- Sempre achou por que?
- É que você fala umas coisa diferente. E nunca vi alguém com tanto doce na bolsa que fala coisas diferente. (sem concordância mesmo)
- Só por isso você me acha doida?
- Sei lá. Você não é muito normal não. Eu sou estropiada assim, mas sei ver quando uma pessoa é normal e quando é meio doida igual você.
A essa altura eu já ria, preocupada com o fato dela me achar “meio doida.” Aquilo poderia abalar a relação que tínhamos estabelecido até ali, com o respeito que deveríamos ter uma pela outra.
- O que é que tem a ver você se achar estropiada com saber se a pessoa é normal ou não?
Ela só riu e balançou a cabeça, como a dizer: sou foda!
- Você tem mais chocolate?
- Tenho não. Só tinha aquele. Tenho bala Toffe!
-Serve.
Meu telefone tocou e enquanto eu o procurava com a mão no meio da bagunça da bolsa, uma foto caiu. Ela pegou. No verso da foto, a inscrição com caneta preta: “Sempre seu”. Ela leu.
Enquanto falava ao telefone, vi que ela fazia careta. Desliguei.
- Humpf. Isso não tem jeito.
- Hã?!
- Prometer o que não sabe.
Me devolveu a foto.
- A gente faz jura de amor, menina, mas é sem saber o que vai ser.
Promete a eternidade, mas é tudo uma incerteza só!
Olhei para ela espantada. Sua última frase não condizia com o julgamento que eu fazia dela: mulher simples de idéias e vocabulários limitados.
- Mas na hora que a gente fala ou ouve, faz sentido, não é? Perguntei querendo ver até onde ia dar aquela conversa.
- Se você parar pra ver, não tem sentido não. Essas palavras aí são bonitas de ouvir, mas só cria vontade. Depois que a validade da palavra acaba, a vontade não acaba junto. Aí vai doer. Você ainda tá com o moço da foto?
- Não. A foto é velha.
_ Tá vendo?! E você ainda carrega a foto na bolsa. Joga isso fora.
- Não. Faz parte da minha história. Foi eterno enquanto durou.
- Ah, pára de falar bonito, menina. Dizendo isso, fez muxoxo. Deve ter durado menos que essa bala. Você sabe que eu tô certa.
- Durou o suficiente. (...) Se é tudo incerteza, quando é que a gente vai ter certeza pra dizer que ama?
- É tudo uma merda, menina.
Exclamei:
- Ó!! Acho que você é meio doida!
- Ei, peraí, num começa a inverter as coisas. Você é que é meio doida!
- Rsrs!
Eu já havia me revelado mais do que deveria para aquela mulher. Em certas horas é preciso conter as exclamações. Eu apenas sorri e me calei. Ela continuou andando de lá pra cá, esfregando as mãos e coçando a cabeça.
- Preciso de um cigarro, cacete...
Então ela olhou para mim e estendeu as mãos:
- Me dá outra bala aí.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Acreditar não é verbo de auto-ajuda. É quase um pó de pirlimpimpim!
Certas coisas a gente precisa enfrentar mesmo. (Não havia uma placa na entrada dizendo que seria fácil).
Sou imensamente grata, hoje especialmente às minhas duas irmãs, a Beatriz, irmã cósmica que me fez respirar , oxigenar o cérebro para encontrar soluções e à Jeanine, minha doce irmã de sangue, por existir e ter me auxiliado com o peso da cruz.
Os problemas continuam, assim como os fatos, mas por vocês existirem, ficou mais fácil enfrentá-los!
Obrigada, gente.
Amo vocês.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
The Dark Side...
Achava que não tinha máscaras, que era transparente!
Coitada, era tão transparente quanto um rio turvo.
Era uma cebola. À medida que a descamação acontecia, alguém por perto chorava.
A luta para saber o que havia sob sua pele era sincera, no entanto, seus artifícios eram muitos. Ela fugia e fingia sempre que fosse conveniente.
E o pior, ela cobrava sinceridade dos outros, embora não suportasse as franquezas mais cáusticas.
A frase da mãe ecoava:
- Tá, mas e aí? Como dizer verdades que não cabem na palma da mão?
Requer habilidade ou apenas decisão e firmeza?
Ela sempre escondia algumas frases debaixo do colchão. Engolia sapos indigestos para evitar as guerras. Quase sempre se escondia atrás de situações acima de suspeita, mesmo se sentindo desconfortável com tais atitudes, mesmo sob a égide do “sem querer”. Não premeditava tudo, mas o impulso da covardia e preservação ainda vigorava nela.
Um dia lhe disseram que não conseguia dizer as verdades mais duras porque queria safar a própria cara e não porque queria preservar o outro.
Era melhor ser a mocinha!
Na hora ela achou crueldade, mas agora pensa se não é assim mesmo.
Depois que soube que seu coração era explosivo, quis por um instante que acontecesse um infarto. O arrependimento por esse desejo veio imediatamente, por achar que poderia ser mais forte, que a vida era mesmo dádiva, que existe coragem nas continuações.
Já que o cálice não seria afastado, então, precisaria ver emergir o monstro da lagoa. E enfrenta-lo.
Ah, meu Deus, descobrir suas torpezas quando as detestava no outro, era árduo.
E quanto aos relacionamentos.
Nisso ela sabia ser perversa!
Culpa ou dolo?!
Sabe quando um programa trava e não adianta mais clicar?
Era ela nas entregas. Travada.
Entregou-se inteiramente apenas uma vez, mas nem antes e nem depois conseguiu fazer isso. A metade que ela sabia ser era como bala de pimenta. Bom pra quem gosta.
Logo ela, moça tão correta, de sorriso fácil, quase nunca aparenta tristeza embora fique triste, não fala palavrão, não bebe álcool, não fuma, não... (ah, isso ela faz de vez em quando!), não atura injustiça...
Logo ela era a vilã.
A vilã em seu próprio filme.
Vilã não do acaso, mas do pseudo-enfrentamento ou do autismo funcional.
A mania de querer melhorar o mundo era, no fundo, uma insatisfação com o que trazia por dentro.
Seu coração já não cabia no peito, mal suportava a expectativa do looping.
Mas ela sabia, ela sabia que a lanterna estava perdida em algum lugar dentro de si, entre as justificativas que formulava para as omissões, para as meias verdades, entre suas misérias, entre as vísceras, entre o chocolate e o mel que possuía e entre a luz que acreditava ter.
Ela sabia que estava ali o roteiro que a faria mudar de papel.
E mais do que tudo, ela queria outro papel.
Com Vontade.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Epifania Supernova
não mais que de repente, toda angústia se dissolveu naquele ato.
O mundo se mostrava grandioso e brilhava mais na medida em que seus sentimentos retornavam do passado.
Abriu o livro por necessidade e encontrou inesperadamente, entre as técnicas páginas, a didática da revelação:
“Natureza morta” emanando vida às horas.
Foi um presente dele, talvez o único sincero.
Ela guardou para não esquecer.
Mas não era ele e nem a rosa que significavam aquele momento.
Era a resposta mística aos seus apelos ao alto.
Era o símbolo da sabedoria materna que recomendava fé, que a exortava ao caminho estreito, tão difícil de seguir.
Era uma mensagem ao seu coração assustado, egresso da “Terra do Nunca” dizendo: “Pulse. Impulsione. Não se impressione.
O mar não deve ser maior que a Vontade.
Ela sabia. Ela sentia. Aquela era a sua epifania e as lágrimas de então eram de gratidão à vida.
Lá fora tudo continuava exatamente igual ao que era antes dela abrir o livro:
Por dentro dela, uma supernova acontecia.
Sua razão, quase sempre cética,
Caso sua sensibilidade estivesse mais aflorada,
- Aquiete seu coração. A primavera já se anuncia!
terça-feira, 26 de agosto de 2008
(I Can't Get No) Satisfaction
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos.
O que me resta é só um gemido,
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino, minha alma cativa"
(Ney Matogrosso - Secos e Molhados)
Parece brincadeira...
A gente se recupera de um golpe e vem outro
Mal dá tempo de tomar fôlego
Se fossem fases de vídeo game
Estaria perto do “game over” quase sem vidas para continuar
Só quase!
A dona me falou que querem tirar o meu sorriso,
que é pra eu estar atenta
Por teimosia, vou sorrir
Mesmo com o coração descompassado
Mesmo com um detalhe engasgado na garganta.
O que me importa é não estar vencida
Porque agora a rédea é minha
Sempre foi, mas agora eu sei que é.
Antes, bem antes,
Era a vontade estúpida e violenta
De quebrar os copos, metralhar o mundo entre as paredes
Explodir tvs e telefones
Agora é melhor
Eu absolvi o mundo de qualquer pecado acima ou abaixo da linha do Equador
Não há revolta porque a desordem é a minha
O que sinto agora é um incômodo centrífugo
Uma auto-insatisfação
Eu tenho uma relação paradoxal comigo de amor e ódio
Hoje é assim e ainda derramei café em minha roupa.
É a menor mancha que tenho no corpo, na veste ou na alma e não queima mais do que o frio das horas que passo sozinha formulando soluções
Tudo parece uma repetição sob novas perspectivas.
Não tem a ver com minha obsessão por Foucault ou por Dali,
Não tem a ver com a dádiva da existência de pessoas que são verdadeiros anjos em minha vida,
Com as belas paisagens do caminho,
Com esse jingle horrível do candidato 23.222 para vereador,
Com eu gostar menos de sexo do que os outros terráqueos e de me sentir E.T por causa disso,
Com o resultado do hemograma que me alforriou da angústia da semana passada
Com o fato de eu poder continuar comendo jujubas sem preocupação,
Com essa tosse que não passa,
Com o armário bagunçado,
Com o caleidoscópio que quero montar, reutilizando os cacos,
Ou com a alça do meu sutiã aparecendo toda hora, fora da moldura como eu.
Não.
Na verdade, tem a ver com *embarcar.
E embarcar tem a ver com todo o resto.
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo...
*Foi golpe baixo Beatriz!! A frase era minha!
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
EMBARCAR
Para ser grande, sê inteiro.
(Fernando Pessoa)
É simples assim: cada escolha é uma renúncia.
Existe um barco na água, pronto para ir.
Ao lado dele, está o continente, cheio de possibilidades.
Você pode escolher embarcar, assumir o risco do desconhecido e vivenciar novas experiências. Recomeçar.
Você também pode escolher ficar em terra firme, solidificar as conquistas que já fez, sedimentar os afetos ou concluir seus projetos inacabados. Continuar.
O que não dá pra fazer, é ficar com um pé no barco e o outro no continente.
Isso irá lhe partir ao meio e não possibilitará a você a luz de experiência alguma, a não ser a sombra da indecisão inerte. E convenhamos, viver é movimento, né?!
Que movimento acontece quando você tem um pé em cada lugar de natureza diferente?
Você até consegue rebolar, mas precisa saber se é realmente o que quer. Rebolar pra viver. Você consegue mexer os braços, mas não pode alcançar muita coisa. Você pode girar o pescoço, mas não verá muito além do que existe ao redor.
Você trava o mundo, a rotação, a translação e deixa a angústia, a expectativa e o medo segurarem as rédeas do seu destino. Que é seu! Só seu.
Esqueça os “e se”. Ora, você só vai saber se for... ou se ficar. Não há respostas dentro do “mais ou menos” e nem na experiência do outro.
O outro estava sob outras condições de temperatura e pressão atmosférica!
Renunciar a uma alternativa gera certa dor, contudo, é preciso ter coragem e ter coragem não significa não temer. Significa ter medo e enfrentar. No pain, no gain.
Embarcar é isso, é enfrentar a dúvida e escolher.
É escolher e assumir a escolha, sem “mais ou menos”.
Você pode ir. Você pode ficar.
Mas é bom lembrar que a felicidade só é possível no lugar onde você for inteiro.