quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Alegria, alegria


Permesso.
Todo mundo tem um dia de porre. Hoje é o meu.
Um porre, um dia que bebi inteiro no copo, misturando elementos incompatíveis, desde a vontade matinal de dormir por mais meia hora (que mais cinco minutos era na época do colégio), passando pelo combate animal para ter razão, até a dor de cabeça causada por problemas intermináveis e por pessoas más. Nossa, como tem gente mau caráter no mundo. Pessoas que querem tirar proveito de qualquer situação, procurando brechas para destilarem venenos, procurando maneiras acrobáticas para fugirem de toda responsabilidade e se possível, até transferirem a terceiros. Por outro lado, como tem gente boa também, gente fina, elegante e sincera com habilidade pra dizer mais sim do que não. Gente que consegue transformar um momento maldito numa benção, pessoas que nos fazem enxergar flores nascendo na imperfeição e que com isso engrandecem a nossa existência e perfumam tudo ao redor.
Mas eu estou longe de todas as pessoas agora. Sou um deserto cheio de palavras. Sou um universo na praia deserta e fria. Chove. Meus pés descalços na areia molhada conseguem manter o equilíbrio do resto do meu corpo e nem sabem o porquê. Agora sou apenas eu e o mar. Não há barulho da velha impressora matricial em uma sinfonia infame, não há chamadas de telefone, não há ringtones, nem carros, nem buzinas, nem ordens, reclamações ou explicações, não há choro, nem velas, não há o som dos teclados nem a campanhinha, não há carros de publicidade nem apregoamento de partes, não há o “barulhinho de aeroporto” da senha (finalmente) no visor do Banco, não há declarações de amor e nem de guerra. Apenas há ressaca. Apenas a ressaca. Capitu tinha olhos de ressaca. Olhos que tragavam.
O mar nos traga e por dento pedimos que algo nos traga a luz, mesmo que inundada.
As palavras, estas não se diluem, pelo contrário, se solidificam e criam vida e forma. Parece que romperam uma represa e voam partindo o ar, e querem me ferir e querem me curar. A frase inesperada e tão clichê... “Amo você”... Eu queria ouvir, porém, não tinha intenção de dizer, nem de sentir. Eu desejei que o amor fosse sexualmente transmissível, mas o sexo só transmite doenças... Embora se morra mais de amor do que de sífilis. O amor em formato mínimo... O grande amor que vence a morte. Amor, ramos, Roma e romã, tudo no meu copo. Orientações tributárias, desperdício, e-mails, a fome das três da tarde, o café pequeno, a saudade, tudo no meu copo. As baratas, a cidade alagada, o céu cheio de estrelas acima das nuvens que choram, seus olhos que mudam de cor como camaleões, tudo no meu copo. Minha armadilha e meus descuidos, todos os papéis sobre a mesa, contratos e tratados, o cinema cancelado, as contas pra pagar, a poesia da 3º Ponte, tudo no meu copo. Entorno. Já estou ébria. Quando a onda vem (mais quente do que eu esperava) espumante e sem fúria, a vida perde o sentido. Por um instante todas as coisas não têm sentido nenhum, nenhum, nenhum... É um instante de absoluto silêncio onde o nada existe. Então a onda retorna ao mar e tudo volta ao real, como uma coisa só, com um completo, absurdo e quase insuportável sentido que vem e sempre volta, como a náusea, como os carrosséis, como os nossos erros.Neste momento, perante o mar, eu rio.Nesse meu sorriso cabe o mundo inteiro, baby...
*
*
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não?
(Caetano Veloso - ALegria, Alegria)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Paródia!

Pense naquela musiquinha do Roberto Carlos que a Adriana Calcanhoto canta,
"Por isso Corro Demais." Então, pensou? Agora é só ler o post pensando na melodia dela!!Hehehe
*
Oferecimento: Chocolates Cacau Total!!!
Você come, não dá espinha e nem vai te fazer mal!
*****
POR ISSO CORRO DEMAIS, UAI!
Meu bem, a cada instante em que eu começo a pensar
aumenta a vontade que eu tenho de postar
então eu corro demais
corro demais
corro demais
só pra escrever

E você ainda me pede, fala que não é assim
Diz que o texto tá grande e que precisa de um fim
então eu sofro demais
corro demais
sofro demais
só pra escrever...

Se você de vez em quando vem aqui pra comentar
Eu fico mais disposta para um post imaginar
Esqueço até de tudo, não vejo o tempo passar
Mas se chega a hora em que começo a trabalhar
Corro pra depressa, o meu texto publicar
Então, eu corro demais,
sofro demais
Corro demais só pra escrever
Meu bem!

****

Gente, paz pra todo mundo, muita luz para quando estiver escuro e não esqueçam de levar o casaco ao sair! E as sombrinhas e guarda-chuvas! Sopro de Eves!

sábado, 15 de novembro de 2008

Inquietude

Já não consigo conservar a mesma forma
Sou matéria em constante alteração de estado.
Meu RG é o mesmo, mas muitos números mudam.
Tantos já mudaram...
Novamente as formigas de fogo atormentam minha acomodação.
Incomodam.
Mudo de roupa, mudo o cabelo, o layout do blog...
Só não faço o que é preciso.
E seria preciso parar.
Parar para continuar seguindo.
(A gente sempre pára para ajeitar as sacolas!)
A Avenida é silenciosa em dia de feriado.
Meu coração faz barulho, pedindo para que eu pule no precipício.
Mas que tolo, eu não vou pular!
Ele tá achando que é o Rei da cocada preta?!
Rs. Ele é que não sabe que minha república já foi proclamada há muito tempo.
Antes da sístole ou da diástole.
Bem antes do lançamento do MP9 e do sorvete de açaí com calda de banana.
Eu não gosto de açaí.
Eu sou uma caneta bic antiga, daquela gordinha, azul e branca, com quatro cores.
Eu sou alguém que precisa sair daqui pra fazer algo que tenha sentido.
Pra variar.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Enfim...

Eu não sei como foi acontecer.
A tentação foi maior e mesmo sabendo dos riscos eu segui em frente com ela.
Ela se apodera de mim de uma forma tão intensa, que quem me olha, enxerga quase que apenas ela.
Não foi porque eu permitisse. Na verdade eu não a queria.
Preferia que ela nunca tivesse surgido em minha vida.
Pôxa, logo agora?!
Tem até quem diz que já passou do tempo de isso acontecer comigo.
Não sei se é exagero, mas talvez precise procurar um especialista que me oriente como lidar com o antes, o durante e o depois dela.
Ela cresce a cada dia dentro de mim, à minha revelia.
Não há como oculta-la.
Não existe artifício para que ninguém saiba que ela está comigo.
Eu quis expulsa-la a força de dentro de mim, mas dói.
Tentei métodos menos ortodoxos, mas ainda sim, dói.
Não sei se o tempo pode cuidar disso melhor do que eu.
Temo que depois que ela se for, fique marcas em mim.
Confesso, no entanto, que não sentirei saudades. De nada.
Sentirei apenas, como de fato sinto, um amargo arrependimento por ter ousado tocá-la.
Bem que minha mãe dizia que quem não bole em espinha nunca vai se dar mal!!!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um caleidoscópio

Como cada célula que compõe a pérola
Eu, você e nós
somos um no verso
Preciosos elos ligando histórias
Teceremos fios de luz
Para um colar brilhante

Como a partícula ou um por um dos átomos
Eu, você e nós,
somos universos
Preciosos selos findando capítulos
Nós seremos raios de luz
Para reinventar os inícios

Se acaso a sombra invadir
A sua casa e dividir
Cores e palavras, sonhos e sorrisos
Quando o vento espalhar
Frases sem explicação
Redes e retalhos, tardes sem sentido

Eu, você e nós
Seremos o inverso
Para iluminar o instante

Pedacinho meu
Aonde você vai?
Claros jogos de espelhos
Rotação e mutação
Esperando o tempo remover as cicatrizes
Esperando encontrar no pote o arco-íris

Fragmentos mil
Soltos pelo ar
Lâminas e cortes, cola,
Amor e sol nascente
A vida vem de formas diferentes
Com o dom que lhe é próprio
Oferecer as peças para você montar
O seu caleidoscópio
*
*
*
Eu, que sou meio analfabyte, não consegui colocar a musiquinha em La menor pra tocar aqui. Foi inspirada numa frase de Maria Carla no post Fragmentos da Karen, Flor do nosso jardim.
Me fez pensar sobre a utilidade dos cacos e escombros.
Tudo está em tudo e tudo é reconstrução.
O mundo não é inerte. É sombra, luz e mutação.
Eis a beleza da vida.
Que cada um saiba montar o seu caleidoscópio!
Sopro de Eves!

Michele


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Estamos trabalhando nas frestas do tempo,
tentando mudar o mundo sem os moinhos de vento.
Deixando que as coisas fiquem
diferentes do que foram antes
Com exceção das bolinhas vermelhas
e da manada de elefantes!
Você está no sBLOGonoff!
Welcome

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

MASSA PODRE

Das empadas, prefiro aquelas feitas com a tal massa podre. Parece que a denominação provem do excesso de óleo que faz com que a massa se desmanche facilmente. Nome inconveniente, mas a massa é gostosa. Eu sempre comi, mas nunca havia procurado saber de onde vinha o nome. A gente não se importa e também não se pergunta muito sobre a origem das coisas e seus efeitos. Se é gostoso, consumimos. O pior, mesmo quando sabemos que não é saudável, raramente evitamos certas coisas. A Coca-Cola por exemplo, a gente sabe que ela desentope pias, desenferruja as coisas, faz mal para o estômago, derrete os ossos, entre outras coisas, mas qual de nós deixou de tomar Coca-Cola por saber disso? Levante a mão!!!Bom, o fato é que o conhecimento do mal não afasta o mal necessariamente, porque o mal é bom às vezes e o bem cruel, que o diga a tigresa! Tem gente que se compraz no sofrimento por achar que mais adiante a dor vai passar. Eu mesmo continuo tomando Coca-Cola, mesmo sabendo de seus danos e sei que muita gente sabe e toma. Quem é que liga realmente? Como é que tanta gente inteligente usa drogas e danifica o cérebro, mesmo sabendo dos efeitos malignos do vício. Quanta menininha fica grávida, mesmo sabendo da prevenção. Quanta gente contrai HIV por negligência? Isso sem falar das árvores que caem, dos carros que a gente continua lavando com mangueira, da TV que a gente assiste com a luz da sala apagada...Pois é, não é tão fácil tirar o espinho mesmo sabendo que ele nos causa dor. Existem os masoquistas inconscientes e existe também a consciência da própria burrice que persiste em não mudar. São nossas escolhas. Entre a dor e a delícia de sermos o que somos e vivermos o que vivemos, a vida passa.
Um dia a gente aprende!!!
Ou não.
.
Control+c/control+v de mim mesma. E os cabelos? Quanta diferença...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Parênteses

Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
(A Seta e o Alvo - Paulinho Moska)

É um dia comum, como tantos que vivemos.
Aterrissei minha espaçonave no telhado desse café, e mesmo que um desmoronamento possa ocorrer, fico aqui, sem medo, esperando o tempo fazer algum efeito em meus sentidos no agora.
Não vai cair. Estou sob a proteção dos deuses de Eves.
A propósito, Eves é um planeta que surgiu na cabeça do meu irmão, Jônatas.
Jônatas era um cara enigmático, aliás, é um cara enigmático. Tinha um amigo invisível (não acredito que era imaginário), o Vico. O Vico vinha do planeta Eves. Vico de Eves!
O Vico viveu entre nós. Comia, dormia e brincava entre nós. Eu sempre respeitei sua presença, embora nunca o tivesse visto. Um dia ou outro, a gente sentava em cima do Vico, então o Jônatas socorria. Para facilitar, foi destinada uma cadeira especial para ele, na mesa de jantar. Foi assim até o dia em que ele disse que teria que ir embora em sua nave. Minha mãe fez uma festa de despedida, com bolo e brigadeiro!
Convidamos alguns amiguinhos e ninguém entendeu nada do porquê daquela festa na garagem! Ninguém via o Vico.
Isso faz uns 20 anos...
Então, um dia em 2005, sonhei com um menino azul, desses de seis braços, como Shiva. Era uma época mais ou menos conturbada de minha vida. Esse menino do sonho tinha uma flauta transversal. Vê, que idéia?!
O fato foi que ele soprou meu rosto e o vento balançou meu corpo inteiro.
Ele me disse que era o Vico, nosso amigo de infância. Disse que aquela era uma mensagem de Eves para mim e que as coisas ficariam bem. E como mágica, nos dias subseqüentes, as coisas realmente ficaram bem.
Não lembro direito do rosto do menino do sonho, mas lembro que foi assim.
Desde então comecei a emanar Sopros de Eves pro mundo. Um sonho pode ser apenas um sonho, mas um desejo é muita coisa. Quando digo "Sopro de Eves", imprimo ali o desejo de que ele surta o efeito levemente mágico que teve para mim.
E quando desejo, é menos automático do que quando digo apenas "abraços" nos finais.
Bom, a explicação era para ser apenas um parêntese, todavia, parênteses às vezes se estendem, transformando-se em períodos autônomos.
Eu por exemplo, era para ser outra coisa, mas abri parênteses existenciais e acabei saindo da rota. Hoje, encostada aqui no balcão desse boteco, sou apenas fração de tudo o que poderia ter sido.
Quantas vezes conseguimos manter o plano original?
E se o alvo na certa não te espera?
Por falar nisso, ele reclamou que "Corria todos os riscos e eu deixando a porta se fechar. Queria saber a verdade e que eu me preocupo em não me machucar.” É claro que eu preocupo em não me machucar. Vocês também não se preocupam não? Até quem se arrisca e segue, pensa em não se machucar.
Foi por isso que me prometi não mais amar.
Acontece, meus caros, que promessas como esta, resultam em nada, porque o coração zomba das promessas!
E certos parênteses zombam das frases!
.
.
Não era disso que eu queria falar...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Embora aqui seja quente


Ah, Josephine, você me instiga!
Continuo afirmando que as coisas são perfeitas.
Entretanto, é preciso flutuar pra ver tudo isso. É preciso entender que toda causa tem efeito e que esta é a lei que rege o universo e que o torna harmônico. Nisto consiste a perfeição.
Eu nunca quis dizer para ninguém se contentar com tudo do jeito que está. Melhore as causas que os efeitos melhoram, ué! Simples. (Deveria ser).
Eu só quis dizer : Não se desespere, não se entregue. Isso aqui funciona sim!
O mundo é tão maior que nós...
Eu já te falei isso.
Porque perfeição em formato mínimo, Josephine, só nos flocos de neve.
Oh you look so beautiful tonight...
(City of bliding ligths)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Josephine, todas as coisas são perfeitas

Existirá - Em todo porto tremulará a velha bandeira da vida
Acenderá todo farol - Iluminará uma ponta de esperança
E se virá, será quando menos se esperar, de onde ninguém imagina
Demolirá toda certeza vã
Não sobrará pedra sobre pedra

Não é porque o dia amanheceu chuvoso que o sol não continue brilhando ali por cima.
A toupeira viu o cometa pela poça lamacenta, se lembra?
Até a poeira sobre os móveis tem razão de ser. Ela não estaria ali se você limpasse.
Tudo, tudo Josephine, está de acordo com as leis gerais. Não percebe a engrenagem da desordem?
Não se preocupe, o perfume não deixará de existir, nem os abraços, nem os sorrisos. O prazer segue ao lado da dor. O mundo não está perdido.
Todos os dias cérebros são arrebatados, ou com revólveres, ou com informações ou com entorpecentes. A dor de dente, a fome, e a pizza de enchovas, o parque de diversões, o circo malacafento de cinco reais, o Circo do Sol de trezentos reais, os elefantes e os macacos em extinção, todas essas coisas continuarão existindo juntas. Coexistir.
Você acha que guardarão seus segredos para sempre, Josephine?
A função de um segredo é se revelar como um botão de rosas.
Mesmo os seus.
O planeta agora é uma grande bola pulsante, pronta para explodir.
Caso isso aconteça, você vai explodir junto, assim como eu, como eles e todos os outros pronomes. Cada um de nossos átomos (ainda acentuados como as curvas da estrada de Santos!) percorreria todos os anos luz que nos separaram da verdade por todos esses anos e reconstruiríamos, partícula por partícula, uma nova galáxia.
De que cor ela seria?
Por isso não se afobe agora. A pulsação pode permanecer por décadas, como se você caminhasse sobre um campo minado e mesmo assim, seria possível ter paz, sobretudo na grande explosão.
Porque todas as coisas são perfeitas, Josephine.



Enquanto isso, não nos custa insistir na questão do desejo.
Não deixar se extinguir. Desafiando de vez a noção

na qual se crê que o inferno é aqui.
Existirá - E toda raça então experimentará para todo mal a cura.
(A Cura - Lulu Santos)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Eu ia deletar o post abaixo. Ia deixar uma televisão desligada no lugar, mas resolvi apenas seguir. Por mais que eu queira um botão de “reset”, só é possível o “play”!
Descobri que não existem reinícios, mas sim continuações. E até que sou bem aventurada! Se eu abrir os olhos, verei com certeza os anjos ao meu redor. Todas as luzes! Olhem só, os comentários ao post abaixo!! Eles me fizeram chorar sim, mas foi diferente do que desejei hoje pela tarde. Vocês, mesmo distantes foram necessários. Sou grata a todos.
Seria muito bom se fosse possível apertar o start e começar do zero (que redundante, né?!), como no vídeo game.
Só que isso aqui é mais que um jogo.
Jogos acabam com o "Game Over".
A vida não.
Que bom!
Vila Velha, 15 de outubro de 2008.

Hoje é mais um dia quente, porém, aqui dentro desta sala, meus músculos doem perto do frio artificial do ar condicionado.
A rua parece outro mundo.
Os dias passaram, mas a angústia não passou. E o pior de tudo é que não tenho a quem recorrer, a não ser eu mesma. O grande problema, é que não sei necessariamente como me ajudar, como não me tornar uma kami Kase agora e acabar prejudicando outras vidas.
Detesto ficar triste e confesso que acho que deve haver algo muito anormal em alguém que está constantemente triste. Não é assim que é pra viver. Gente é pra brilhar.
Eu tenho aqui vários sentimentos, mas ainda não sentei para encarar nenhum.
Hoje eu queria escrever sobre a emoção que senti ao saber que o filho do meu irmão caçula já habita o planeta pelo lado de fora. Meu sobrinho Yan! De qualquer forma, eu queria que ele sentisse que embora o mundo seja um lugar muito perigoso, é também cheio de belezas que podemos tocar e de belezas que apenas nosso coração pode ver.
E quero muito que ele seja um homem de bem a mais por aqui. Que ele seja bem vindo.
Eu sei sobre nossa imperfeição. Às vezes tenho a impressão de que vivo num baile de máscaras. Só que eu penso que se esta é a forma das coisas, é preciso viver conforme esta realidade. Não vale a pena apedrejar a realidade e muito menos negá-la.
O impulso pelo bem é latente.
Ah, eu já nem sei do que estou falando.
Só sei dessa vontade incrível de chorar.
Sem colo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Porque ela dormiu de calça jeans



"...você me disse que eu destruo sempre a sua mais romântica ilusão. E destruo sempre com minha palavra o que me incomodou. Acho que é sim. Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu?!"
(Todo mundo é lobo por dentro - Oswaldo Montenegro)

mas isso não é desculpa – nota do sblogonoff

É engraçado como certas coisas acontecem.
A gente de vez em quando complica o simples por nada.
Por exemplo, Fulano, sem querer, fez algo que incomodou Cicrano, mas Cicrano não quis dizer e nem exteriorizar que se sentiu incomodado. Ao invés disso, preferiu ser desagradável com Fulano. Fulano, que pensava que tudo estava bem, não sabe porque Cicrano estava tão hostil e por sua vez, foi ficando fulo da vida. É assim que a meleca circular e viciosa começa. Não é muito mais fácil, já que todos são civilizados, Cicrano chegar em Fulano e dizer: “Olha Fulano, aquilo que você fez me incomodou por causa disso e disso e disso”. ??? Ou então, Cicrano chegar pra Fulano e perguntar: Eu fiz alguma coisa que te incomodou?
Exemplo 0.1: Godofredo fez algo que Jeremias não gostou. Jeremias, ao invés de falar com Godofredo diretamente, já espalhou pra todo mundo que Godofredo agiu assim e assado. Colocou o outro na berlinda sem chance de defesa. Tsc, tsc. E quando Godofredo aparece, Jeremias é só sorrisos! Não dá pra entender.
Outro exemplo: Beltrano sentiu ciúmes de Miltrana, mas ao invés de dizer isso à ela, começou a desvalorizar a menina, a feri-la com comentários depreciadores e ela, sem entender nada, foi embora magoada e não vai dormir direito à noite. Não seria muito melhor se Beltrano falar para Miltrana que ficou com ciúmes, que se sente inseguro??
Exemplo três: A esposa de Mélvio dormiu de calça jeans e agora Mélvio está insuportável com todos no trabalho. Seria muito melhor se Mélvio desistisse de querer descontar em todo mundo suas insatisfações, porque nem todo mundo tem bola de cristal para adivinhar que sua noite não foi boa e nem todo mundo tem paciência suficiente para compreender sua grosseria.
Já que somos tão civilizados, já que nos consideramos tão modernos, porque destilamos pequenas vinganças nas relações? Todo mundo está propenso a desapontar e ser desapontado, a magoar e ser magoado. Tem gente que não dissolve a mágoa, engole sapos indigestos e tenta ostentar sorrisos. Quando não suporta mais, começa a descontar no outro, em doses homeopáticas, sua hostilidade, o que acaba por minar as relações. Isso é ainda pior do que as respostas à queima roupa, do que o “bate e volta” reacionário. É mais digno (embora não seja mais fácil) ser humilde, respirar e ir falar com a pessoa que existe um problema. Falar em tom moderado, consciente que é um potencial causador de feridas também. Se preciso for, é até melhor deixar a raiva passar e só depois ir esclarecer as coisas. É melhor do que se armar com o dedo em riste e sair bradando. Adianta virar o Hulk?! Li por aí, que o oprimido é sempre o pior opressor. E acho que é verdade. Cobras atacam para se defender, e sem o devido cuidado, o ataque é letal. Mas nós estamos num grau mais elevado da escala evolutiva, não é?! Acho que estamos ali, onde diz: Animais RACIONAIS.
Pode-se até não conseguir o resultado ideal, mas teremos feito a parte grandiosa de ser humano. Caso o outro não entenda, já não será problema nosso. Todo mundo tem seu tempo.O que posso afirmar, é que na maioria esmagadora das vezes dá certo. Palavra de uma garota impulsiva que está aprendendo (antes tarde do que nunca!) os benefícios do diálogo e descobrindo que até o pastel chinês da esquina é muito melhor que os sapos que ela engolia e não conseguia digerir.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O dia depois de ontem

A segunda-feira acordou como uma cidade do velho oeste após o tiroteio.
Ontem foi o duelo, (polielo, se é que essa palavra existe!), hoje são os vestígios.
As ruas sujas de santinhos, os muros cheios de propaganda, os vencedores e vencidos, todos na mesma poluição visual. Pelo menos estaremos livre dos jingles infernais!
É, porque quando ouvi Let it be dos Beatles, parodiada, pensei, coitada da democracia, gente!
Pense no refrão de Let it be.. Pensou? Pois é, o jingle era assim: Vote em mim, vote em mim, vote em mim, vote em mim, juntos venceremos, vote em mim, uuuhhh. Tinha até o uuuhhhh. E a Drag Queen que parodiou I will survive? O jingle de sua campanha era uma paródia do Hino Gay da Gloria Ganyor!! Foi eleita! Chica Chiclete, vereadora de Vila Velha! Nada contra a orientação dela, mas a companha foi um grande circo, assim como tantas outras.
Eu nem estou falando de política. Tô falando de bom senso!
Ai, ai...
É por isso que valorizo tanto o chocolate.
As coisas não vão bem, mas eu tenho um Laka, e por enquanto, isto basta!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sol na casa 2, Lua na casa 4

Dizem que os primeiros 15 minutos do seu dia determinam como será o resto.
Acordei de mal humor, embora o sol e a lua estejam nas casas que me trariam harmonia.
Quimeras.
Não devo ter ido para um lugar muito legal no astral, esta noite.
Quis e até agora quero estar em silêncio.
Falar me irrita.
Explicar me irrita.
Não quero falar, não quero ter que explicar o porquê de eu não querer falar.
Hoje sou leite coalhado. Azedo.
Vou esperar o dia passar. Talvez, até o fim da tarde essa sensação mude.
Talvez a garganta desinfame, talvez a gripe se cure, talvez a cabeça pare de doer, talvez aconteça aquele fluxo de sangue. (acho menstruação uma palavra esteticamente feia.).
Pode ser TPM. Pode não ser nada. Pode ser qualquer coisa.
Talvez seja culpa da Lua. Talvez os astros nada tenha a ver com o meu dia.
Talvez (muito talvez) eu pare de pensar se realmente quero (você) em minha vida.
Acho que não posso.
Acho que isso passa.
Estou com saudades de casa...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

MARSUPIAIS

Na bolsa dela não cabe a máxima "o essencial é invisível aos olhos". Todo o resto cabe.
Huuum...Bolsa dela ficou feio, né?! Ficou cacofônico, parecendo uma palavra só: bolsadela!
Ei, me dá um pão com bolsadela, por favor?!!
Imagina, pão com bolsadela equivaleria a um X-Tudo, de tanta coisa que tem lá dentro.
Não, não tá bom não. Peraí, vou reiniciar pra ficar melhor:
Em sua bolsa cabe tudo, exceto a máxima de Exupery: o essencial é invisível aos olhos.
Olha, se o essencial fosse mesmo invisível, a existência da bolsa não teria sentido. Porque lá se vê de tudo, tem de tudo, quase tudo tem. E tem atééé couro pra pandeiro. Tá. Isso lá não tem não, mas tem secador de cabelo portátil, tem mini-chapinha, tem grampeador, tem uma sacolinha com três colherzinhas (???) (É que ela é viciada em Chandelle, e nem sempre Chandelle e colheres estão concomitantemente juntos.) Também tem câmera digital, tem comprimidos pra dor de cabeça, outros para cólicas, tem sombrinha, tem tesourinha, estojinho básico de maquiagem, tem cortador de unhas, tem esmalte, pelo menos dois, um cremoso e uma base, tem algodão e tem acetona, tem um exame preventivo (que já era pra ter levado ao laboratório!), tem saboneteira com sabonete dentro, tem um CD e um DVD virgens, tem pasta e escovas de dentes, tem agenda, tem duas barras de cereais, tem o pen drive que ela achou que tivesse perdido, tem um livrinho de receitas de sobremesa da Garoto, isso fora a carteira, o carregador de celular, o celular, as chaves enroladas no fone do MP3, e um chaveiro colorido sem chaves. Tem o monstro da lagoa negra, o abominével homem das naves, tem o Bin Laden desaparecido... Nó, tem tanta coisa que parece a casinha do Snoop. Já viu num daqueles episódios em que o Snoop tira uma escada interminável lá de dentro??! É como a bolsa!
Ela diz que é melhor prevenir: vai que acontece de irmos parar no meio do mato com uma bolsa vazia!! Já pensou?
McGiver é que se cuide, porque essa bolsa é mais surpreendente que seus canivetes!
E ela está andando cada vez mais torta, feito a torre de Pizza!
Pois é, o essencial além de não ser invisível, pesa nos ombros!
Então ela pára, repensa e decide, afinal, que vai organizar a bolsa, retirando de lá o que é supérfluo.
Quando esvazia a bolsa sobre a mesa, ficamos admirados pensando em como é fácil contradizer as leis da física e toda aquela história de dois corpos não ocuparem o mesmo espaço... Cartola de Mágico!
Depois de pensar muito e selecionar metodicamente, analisando a possível utilidade de cada coisa, exclui, enfim, alguns folders guardados, papéis inúteis, os esmaltes e a saboneteira.
Ela diz: Nossa, quanto espaço há agora! Não é tão difícil se desfazer das coisas!!
Realmente. (!!!)
Observando tooodo aquele espaço restante, antes de fechar a bolsa e concluir a “arrumação”, ela diz: tem tanto espaço que agora até cabem os esmaltes. E é assim que os esmaltes retornam (na repescagem!) juntamente com uma gominha daquelas amarelinhas e uns clips que nem estavam lá antes.
Afinal, agora tem espaço, eles não farão diferença, uai!!!
Esta é a hora em que a câmera fecha o close na saboneteira isolada ali na mesa (porque os papéis foram pro lixo!), enquanto na TV alguém noticia que aquela outra Bolsa lá está despencando, tão cheia de valores quanto a bolsadela!
.
.
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Inspirado na pequena Beatriz e sua grande bolsa, ou na grande Beatriz e sua pequena Maxxi Bolsa.
E mais ou menos na minha bolsa, na bolsa da Carol, da Zezé, da D.Hermínia, da Lú, do Marco Antônio (!?!), da Elisa...
E também inspirado no Snoop, no McGiver e nos cangurus!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

JELLY ROLLS (2º da Trilogia "O Crime Descompensa")


"-
Vou lhe dizer algo e espero que não se esqueça, caso queira ter sucesso na profissão: Nunca sofra por uma dor que não é sua.
- (...)
- Você pode achar isso cruel, mas vai acabar percebendo que não é. Não conseguirá resolver o problema dos outros se envolver seu coração nisso. Envolva a perspicácia, seu raciocínio e resguarde o coração. Veja através de você mesmo, de seus próprios problemas. Estando neles, sentindo a dor que eles lhe causam, fica mais complicado ter uma visão externa que lhe permita resolve-los. É preciso olhar de fora.
- É... Você tem razão. (pensava: E tudo aquilo que me disseram, sobre ser inteiro, sobre o “algo mais”???)
Ele queria ter certeza de que o outro tinha razão, mas ficava inquieto. Não sabia exatamente qual era o seu papel no mundo, se era apenas usar as palavras certas, a eloqüência e apresentar as soluções através de pedidos deferidos, alvarás, sentenças favoráveis.
- O mundo é uma selva.
- Raramente ele não é, rapaz. "
Este foi o diálogo que teve dias antes com um oficial de justiça que ele mal conhecia e que ecoava em sua mente enquanto aguardava que o acusado fosse trazido à sua presença.
- Pronto doutor. O preso está à sua disposição.
O aviso o trouxe de volta para o presente.
Era seu primeiro contato com o homem. Ele estava pálido e ferido, apesar de tratado. Parecia bem mais velho do que a idade que constava em seu prontuário.
Depois da conversa e orientações de praxe, o homem falou em tom de rogo:
- Aqui não é o meu lugar.
- Você é o responsável por estar aqui.
- Aqui é o inferno, durmo no chão frio entre mais de 130 caras, estou sem agasalho, estou com cólicas e essa ferida no braço. E são tantas moscas por lá. Me tire daqui, doutor, pelo amor de Deus!
No depoimento ele disse ser ateu, agora rogava pelo amor de uma entidade que ele sequer acreditava!
- O possível será feito por você. Mas não depende somente de nós, entende?
O homem começou a chorar feito criança. Verdade ou dissimulação?
- Você pode me fazer um favor?
- Peça e eu digo se posso.
- É que amanhã é dia de visita. Como você sabe, toda minha família é de outro estado. Não virá ninguém. Eu to louco pra fumar, sabe?
- Você quer que eu traga cigarros pra você?!!!!
Perguntou meio indignado. Ele não fumava. Detestava a fumaça de cigarros. Agora o homem pedia que ele comprasse...
- É que o cigarro me acalma.
- Está bem, verei o que posso fazer.
- E... Balas de goma. Sabe, aquelas coloridas?
Ele riu com o pedido!Era apaixonado por jujubas. Nunca se contentava com os rolinhos de 10 unidades! Achava mais poético chama-las de Jelly Rolls, como vinha escrito no pacote. É que se sentia no meio de um clipe da Janis Joplin, sabe-se lá porque!
- Você quer jujubas?!!
O preso ficou envergonhado ao assumir que sim. Tinha graça!
- Agora entendi o motivo dos chocolates no meio das outras coisas, seu malandro!
Os dois riram. Era a primeira expressão mais alegre naquele lugar cinza e frio.
- Pode aguardar. Eu trarei!
Não era o seu dever, mas como prometeu, no outro dia ele estava lá com “os pedidos”.
O cigarro entrou e mesmo assim, abriram as carteiras e espalharam todos avulsos numa sacola. Mas as Jellys Rolls foram barradas.
- É que pode ter muita manha dentro de uma simples bala, doutor - disse o agente penitenciário.
- É... Eu entendo.
Porque de repente parecia um crime portar balas?!!!!! Naquele lugar era mais fácil entrar com drogas do que com jujubas!
Foi embora dali. Ao sair, viu uma barraca de acampamento na entrada do presídio e duas moças dentro delas. Mulher de preso - pensou. Ficou pensando se elas faziam aquilo por aventura, por medo ou por amor. Ficou pensando na abnegação de todas aquelas mulheres que subiam o morro do presídio, mulheres de todos os jeitos e corpos caminhando em um séqüito como formigas, cheias de sacolas. Eram mães, filhas, irmãs, companheiras, esposas... Quase não viu homens entre elas, apenas meninos, crianças.
- Não. Não deve ser apenas por medo ou só por aventura. Ia além.
Havia sofrimento no suor daqueles rostos que subiam o morro para o dia de visitas, mas havia também uma beleza que ele não sabia explicar, e que, no entanto, tocava seu coração de tal forma que a garganta comprimia.
A cada um segundo suas obras. Era assim que as coisas funcionavam, o universo se encarregaria do destino de cada um. Daqueles presos pelo lado de fora e daqueles presos pelo lado de dentro. Como acontece com os lírios do campo...
Enquanto descia o morro, entre todos os pensamentos, ressoava aquele diálogo que tivera dias antes.
“Não sofra por uma dor que não é sua.” “Você não faz parte do problema, apenas movimenta as peças!”
Lembrou que aceitara o último caso antes deste, devido às súplicas de uma mãe de condenado e que foram as lágrimas maternas que o moveram, mais do que qualquer outra coisa.
E agora? Estaria ali pelo quê?
O morro acabava no início da estrada.
Ele parou por um segundo, olhou para o pacote colorido de balas no banco do passageiro e concluiu que apesar das inúmeras crianças, todas inocentes, que ficariam muito felizes em ganha-las, aquelas já teriam destino certo no dia da liberdade.
A doce liberdade!
Acelerou, deixando o presídio para trás.
Ele não era o herói do mundo e nem deveria tentar ser. Ele era só o cara que não sabia muito bem diferenciar piedade de compaixão ou misericórdia de pena.
Naquele momento, ele era só o cara das balas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DIVÃ

Vamos falar da primavera que neste ano veio quente
Vamos falar de um inferno cheio de boas intenções

Vamos falar da poesia de sua alma transparente
Falemos dos elos perdidos e perigosas ligações

Vamos falar de tudo o que ainda não foi falado
Vamos propagar o som velado
Vamos revelar a luz do sol
Vamos falar do que é notícia
Dos podres poderes da polícia
Vamos falar do mundo
Vamos soltar a voz

Calei,
Nem foi por defesa
Eu tive coragem, mas não tive opção
Falei,
Que tinha certeza:
Nem toda verdade tem repercussão

Vamos falar do que incomoda
da moda sobre as passarelas
Vamos falar de tudo
Vamos soltar a voz

Vamos fazer do modo certo
Vamos jantar à luz de velas!
Vamos falar do mundo
Vamos falar de NÓS.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

CHOCOLATE E BREU (1º da trilogia quase fictícia "O Crime Descompensa")

Pequeno e acelerado . Era meu coração naquele momento.
Para contrariar o costume, eu queria o silêncio.
Então ela chegou e sentou-se ao meu lado.
- Está aí esperando tem muito tempo?
- Não. Cheguei agora.
- Tem um cigarro?
- Eu não fumo.
- Tô nervosa. Preciso de um cigarro.
- Nem se eu tivesse um você poderia fumar aqui dentro.
- Eu dava um trago lá fora. (...) E chocolate, você tem?
- É seu dia de sorte. Tenho um Chokito!
- Serve!
Dei a ela o chocolate que foi devorado em três tempos.
- Acho que você está mesmo nervosa!
Ela não parava quieta. Sentava, levantava, ia até a porta e voltava e esfregava as mãos.
- Fique tranqüila. Você já passou pelo pior. Agora vai doer menos que uma injeção de Bezetacil.
- Você é meio doida! Eu sempre achei.
Fiquei surpresa com aquela afirmação!
- Sempre achou por que?
- É que você fala umas coisa diferente. E nunca vi alguém com tanto doce na bolsa que fala coisas diferente. (sem concordância mesmo)
- Só por isso você me acha doida?
- Sei lá. Você não é muito normal não. Eu sou estropiada assim, mas sei ver quando uma pessoa é normal e quando é meio doida igual você.
A essa altura eu já ria, preocupada com o fato dela me achar “meio doida.” Aquilo poderia abalar a relação que tínhamos estabelecido até ali, com o respeito que deveríamos ter uma pela outra.
- O que é que tem a ver você se achar estropiada com saber se a pessoa é normal ou não?
Ela só riu e balançou a cabeça, como a dizer: sou foda!
- Você tem mais chocolate?
- Tenho não. Só tinha aquele. Tenho bala Toffe!
-Serve.
Meu telefone tocou e enquanto eu o procurava com a mão no meio da bagunça da bolsa, uma foto caiu. Ela pegou. No verso da foto, a inscrição com caneta preta: “Sempre seu”. Ela leu.
Enquanto falava ao telefone, vi que ela fazia careta. Desliguei.
- Humpf. Isso não tem jeito.
- Hã?!
- Prometer o que não sabe.
Me devolveu a foto.
- A gente faz jura de amor, menina, mas é sem saber o que vai ser.
Promete a eternidade, mas é tudo uma incerteza só!
Olhei para ela espantada. Sua última frase não condizia com o julgamento que eu fazia dela: mulher simples de idéias e vocabulários limitados.
- Mas na hora que a gente fala ou ouve, faz sentido, não é? Perguntei querendo ver até onde ia dar aquela conversa.
- Se você parar pra ver, não tem sentido não. Essas palavras aí são bonitas de ouvir, mas só cria vontade. Depois que a validade da palavra acaba, a vontade não acaba junto. Aí vai doer. Você ainda tá com o moço da foto?
- Não. A foto é velha.
_ Tá vendo?! E você ainda carrega a foto na bolsa. Joga isso fora.
- Não. Faz parte da minha história. Foi eterno enquanto durou.
- Ah, pára de falar bonito, menina. Dizendo isso, fez muxoxo. Deve ter durado menos que essa bala. Você sabe que eu tô certa.
- Durou o suficiente. (...) Se é tudo incerteza, quando é que a gente vai ter certeza pra dizer que ama?
- É tudo uma merda, menina.
Exclamei:
- Ó!! Acho que você é meio doida!
- Ei, peraí, num começa a inverter as coisas. Você é que é meio doida!
- Rsrs!
Eu já havia me revelado mais do que deveria para aquela mulher. Em certas horas é preciso conter as exclamações. Eu apenas sorri e me calei. Ela continuou andando de lá pra cá, esfregando as mãos e coçando a cabeça.
- Preciso de um cigarro, cacete...
Então ela olhou para mim e estendeu as mãos:
- Me dá outra bala aí.
.
.
.
.
Ela cumpriu pena por oito anos, por ter assassinado seu marido.
Não suportou as mentiras dele e nem os socos.
Numa manhã, véspera de natal de 1989, depois que ele saiu do banheiro, ela o esfaqueou e o dividiu em quatro partes. Ficou em casa esperando a polícia chegar.
Agora cumpre o semi aberto. No momento do diálogo, aguardava as condições da audiência admonitória.
Começou a fumar no presídio.
... e a comer chocolate compulsivamente comigo.


terça-feira, 16 de setembro de 2008