terça-feira, 20 de março de 2012

REIS


Não se fere um rei a ferro e fogo
Eu não desejaria ao fogo, à febre um rei
Seja cangaceira a carta à Espanha
Seja d'ouro a cana, o canto servo, a lei

A cada grito a porta aberta desespera
Aponta a flecha ao céu além
Cada caravela que espera o retorno da era
Quimera, a peixeira, o desdém

Não se cala um canto, uma discórdia
A língua que separa a prece
Ilude o mesmo Deus

Não se foge ao mar a procurar relíquias
Sujeitando a mata a recriar o caos

A cada grito a porta aberta desespera
Aponta a flecha ao céu além
Cada caravela que espera o retorno da era
Quimera, a peixeira, o desdém

Dizimando o rei, o réu sou eu
Vitimando o réu, o rei sou eu
Cangaceiro febril da terra inteira, o erro é meu

Da mortalha a peixeira que usei
Cada prece iludida que preguei
Desbravando o meu peito sem fronteira
Agora eu sei

Consumando o rei, o réu sou eu
Vitimando o réu, o rei sou eu
Cangaceiro febril da terra inteira, o erro é meu
*
*
*
*
O ERRO É MEU.

*
a música, da Maria Gadú...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Lamas no Everest, Belo Horizonte no meu coração

Amo o céu cobalto.
O céu cobalto pinta de outras cores meu íntimo, diferente dos dias quentes (reclamando pra variar), que lançam chamas, incendeiam e de herança deixam a fumaça, a fuligem e a dificuldade de respirar, de esfriar a cabeça, de dormir abraçado em conchinha, de enfrentar filas, de oferecer amor em troca de cada pisão no dedo inflamado.
O cobalto me torna um pouco mais paciente,assim como minhas doenças.
Piada estranha, né?
De perto pouca coisa é normal!
Sou mineira de Pará de Minas.
Pará de Minas, Luas da Terra...
Em dias de chuva, Sete Lagoas parece a lua. Enche de crateras e de vez em quando vemos emergir o monstro lunar.
Em Guaranésia, sul de minas, havia a mulher do cemitério. E o mais belo por do sol com cheiro de café daquela região.
Em Vila Velha há a terceira etapa, o terceiro sexo, a terceira ponte. Parte dela. A outra, parte sobre o mar rumo a Vix. É o trânsito flutuante mágico. Cariacica tem caranguejos e a Avenida Expedito Garcia, flor da manhã, padaria e movimento. E tem a Rua Jerusalém, um pedaço de Minas com polenta capixaba!
Viana tem o passado a limpo, uma amoreira e cheiro de perfume.
Domingos Martins tem uma pedra no meio do caminho, com um lagarto paralítico que brilha úmido quando há sol depois da chuva.
Marechal Floriano tem o aconchego da serra, do frio, dos lagos e cavalos.
Araçaí tem um portal, argila de moldar o pensamento, pequi e casos de assombração. No cerrado, os dragões bafejam, mas a noite os asserena.
Serenô, eu caio, eu caio...
Eu caio em Belo Horizonte.Capital afrancesada, província iluminada cheia de ruas e carros. Nunca vi uma cidade tão pichada quanto BH. Os pichadores de lá são os mais aventureiros de todos. Pense num lugar improvável e verá spray borrifado formando letras e códigos. Garatuja urbana, maltraçadas linhas antropológicas da cosmopolita e caipira cidade. Seus encantos me fizeram sempre andar no interior, perifericamente distante, como se o sol não delimitasse meu horizonte ali.
Eu percebia sim que mesmo brincando de roda, girava ao redor de BH enquanto minhas águas convergiam praquele ponto e eu não pudesse conter o fluxo.
Contive, mostrei que meus braços ficam fortes quando remo contra a maré.
Então o tempo passa e a força aumenta o poder dos gentílicos.
Somos arrastados junto com todas as outras cidades para o interior da capital, sem pecado, sem estado civil, sem outras fronteiras a não ser as placas dos motéis, dos um milhão de motéis que precedem BH, com volúpia, açúcar, afeto e promoções de pernoite. Com certezas derretidas como queijo na pizza e com a dúvida se o amor mata mais do que as DSTs!
Tapetes vermelhos se estendem para desfiles nem tão elegantes assim de jovens com sonhos universitários de proclamarem a república para o resto de suas vidas e depois se transformarem na plebe agonizante e feliz cantando acappela todos os hinos de massa! Reis e rainhas sem trono, assim como eu, rainha de estrelas que já deixaram de existir, embora a sua luz ainda visível insinue outros castelos.
Tanto chão pra andar.. O céu, a terra e as pessoas... Você pode me estranhar, mas eu prefiro as Sete Lagoas.O mundo é uma bola só, onde a gente desvaria e voa. Você pode até estranhar, mas tem sentido ser sete lagoas.
Radicalmente!
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Se eu não fosse analfabyte, postava a música "Três Coroas" dos The Darma Lovers. Vã, vc se habilita?

sábado, 10 de março de 2012

A força que faz a flor nascer

Eu deveria oferecer a minha cara a tapa, assumir as culpas, os erros e os jardins que abandonei.
Assumir a poeira que se formou, a crosta de sujeira sobre todas as promessas, a ferrugem do sorriso e o desgaste das amizades por pura negligência, púrpuras chuvas que não fizeram março fechar nenhum verão.
Será que alguém vê mesmo alguma coisa? O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia???
Eu não leio. Eu não vou assumir. eu não vou enfrentar.
Os erros, a poeira, as traças e a ferrugem são causas naturais, aconteceriam mesmo que eu fosse contorcionista e me esticasse até a última fibra gritar.
A gente vai até onde dá e se possível mais um pouquinho pra ver se o passo se adapta ao andar do mundo.
Mas o mundo voa.
É quase desleal.
Mas é justo.
Esse mundo é cheio de justiça e flores.
Eu faço minhas orações e procuro não morder as maçãs.
Mas sabem, adoro maçãs.
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Não sobrará mais que o leito de um rio...
Enquanto o homem não acorda, idiota, nem nota
Se enforca com a corda da própria tensão....


Estrelinhas pra Caetano, Maria Gadú, Dani Black e pra Eva.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Rir, o breve verbo rir

O sertão ensolarado é um imenso portal.
Quem conhece os ares, o solo, os pássaros, os rios e os segredos do sertão, consegue sentir quando a natureza se agita e aquece por dentro e por fora do ser.
O portal é passagem de energias e outras matérias.
É por lá que o sol entra sobre cavalos, rente à vegetação rasteira, entre arbustos e histórias permeadas de mistérios, lendas e interrogações.
Na história de cada um, longas veredas.
Não sei há quanto tempo caminho.
O suor que escorre no rosto, chega ao chão e continua infinitamente, deixando um rastro que edifica cidades inteiras, algumas sumersas, outras, ocultas nas dimensões invisíveis à nossa risível ignorância.
De longe, o berrante do boiadeiro fantasma consegue me atordoar.
Sigo silente sobre os pastos o sob um céu intenso, azul de cegar.
As almas que perambulam comigo não possuem corpos, mas possuem histórias e casos, dívidas e nomes.
Curioso, mas não consigo entender o que é a solidão, embora tenha nascido só, embora faça só a passagem para o reino da morte, embora colha sozinha o que com minhas mãos semeei.
Não lembro de ter sido abordada pela solidão nesta estrada.
Lembro dos dias tristes, dos percalços, das dúvidas, das noites frias, no entanto, guardo em mim a lembrança de outras presenças nos momentos mais graves da luta, nos abraços reconfortantes e nas palavras luminosas que impulsionavam meu avanço.
Nem sempre estive atenta aos sinais da vida, às codificações da natureza, entretanto, sempre acreditei que era possível avançar, construir, garimpar pequenas felicidades, mesmo me sentindo em vários momentos uma peça à parte, avulsa entre tantas outras. A única bala verde em um saquinho de balas coloridas.
No horizonte, o sol se despede vibrante e a noite nascente herda o calor, o vapor e a procura das aves (que voam em bando) por um lugar mais seguro.
Lá no longe percebo a curva que me conduzirá ao meu destino.
Esboço desânimo e cansaço e no momento em que intento reclamar, o ar se movimenta e sopra meu corpo. É o vento!
De onde ele vem? Onde está seu início? Será que vem pro meu alívio ou sou obstáculo em sua passagem?
Faço cessar as questões. Sempre chega a hora em que não é importante perguntar nada.
Não raro, esta é a mesma hora em que as respostas chegam e nos preenchem, fazem com que tudo ganhe sentido extraordinário. As vistas notam o que antes era imperceptível, e a realidade revela outras cores, outros tons, verdades desconhecidas.É uma breve epifania!
Nesse instante, tudo é perfeito. Do átomo ao arcanjo.
Vivencio o instante magnífico, onde o ser se expande até para os lados que não existem.
Importa apenas o que sinto, esse infinito dançando em mim.
Eu rio!(E seus afluentes)
Preciso seguir enquanto o vento vai embora e voltam acelaradas as coisas comuns.
Atrás de mim, um oceano de ocasos.
Estrelas querem despontar...
*
*
Grata a Guimarães Rosa por irrigar essas veredas.
Grata a quem inventou a bala goma, vulgo, jujuba.
Grata a quem criou o filtro solar (conselho bom nesses tempos!)
Gratidão aos ventos de alívio!
*
*
Rir, breve verbo rir, lido ao contrário forma a mesma frase. (Palíndromo)
Mão e contra-mão!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Solo tu amor



Os raios de sol dissolvem meu pensamento em mais de cem sentidos.
Eu procuro a resposta da vida perto de cada ventilador.
É estranho como um hidrotônico me traz mais alegria do que a cara terapia de verão.
Trocamos palavras sem intenção de matar.
Esperamos com aflição cada reposta eletrônica ou não.
Desejamos ardentemente a resposta criada por nós mesmos, antes de perguntar.
O sangue segue fervendo, a esperança se funde aos ossos do corpo e passa a fazer parte de toda sentença.
O chocolate derrete na bolsa e se espalha no forro interno. Agora é como se a carteira, as chaves, os papés amarelos dos cupons fiscais e a bolsinha do celular fossem feitos da mesma matéria.
Em certos momentos o suor parece justificar toda a intolerância e a irritação que deixamos manifestar.
Será que as justificativas cicatrizam as feridas que abrimos com protocolos e solicitações deferidas? (...)
Será que o sol é culpado por não haver camada de ozônio suficiente que nos proteja?
Será que por ser mega-hiper-ultra violeta, essas flores do supermercado nos trarão a luz?
Haverá um parto normal? Uma maiêutica sem lágrimas? Indolor?
Será que há garantias para nós?
Cada movimento do sol sobre você
Cada móvel velho e cada anoitecer...

Da me tu amor
Solo tu amor

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

QUE O NOSSO AMOR SE DECLARE MUITO MAIOR E NÃO PARE EM NÓS

Pensando bem, sou um tipo de kami kase, meio sádica, que protela a vida para que o último minuto assegure a sanidade e ordem necessárias.
Até lá, é todo esse suor, essa aflição, esses minutos que se sucedem sem perdão diante dos meus olhos e mesmo à minha própria revelia.
Na contagem regressiva, forço uma solução inexata demais para as necessidades do mundo.
Todos olham para mim com os sfincteres contraídos, cheios de fórmulas e prazos, e eu devolvo a agonia travestida em remendo.
Remendo para esse falta que sobra na lógica.
Remendo para todos os compromissos inadiáveis.
Remendo para essas soluções temporárias que ao se prorrogarem periodicamente, se estendem ad eterno, encontrando o próprio rabo na segunda volta.
A pilha de poeira, protocolos, passado e lixo se formou com minha tácita permissão e vejo, com certo espanto, que ela possui um sistema de auto alimentação.
O sol faz com que tudo isso pareça mais intenso do que a verdade sugere.
O sol fumegante das 19:00h. O sol que adentra a noite e seca as roupas , mesmo aquelas urgencias que se resolviam atrás da geladeira.
O mesmo sol, a mesma Terra. A diferença entre o possível e o desejo. Entre a licitude e a conveniência.
Nós poderímos simplesmente dar as mãos e criar um mundo, fazer coisas novas, pintar o cabelo, mudar o nome, o endereço, a ficha genética, a cor da íris, a árvores genealógicas, a ordem dos fatos...
Poderíamos mudar a letra e alterar as linhas de nossas impressões digitais.
Quem sabe?
Todavia, isso não parece possível aqui.
Aqui é uma enorme boca cheia de realidade e movimentos precisos e contínuos.
É preciso estar aqui.
Ficar aqui e agir.
Aqui.
É preciso apertar o botão, oferecer virgens ao sacrifício, ostentar o chicote com o qual espantamos o leão.
Acho graça! E acredito que muitos se espantariam ao saber que as virgens ensaiam para um sarau bem no meu quarto. E o leão é meu bicho de proteção.
Quem tiver coragem, se aproxima. Quem ousar, afaga.
E o botão, ah, o mundo hoje é cheio de botões!!
Teria que resolver primeiro a equação que me confirmasse que aquele que acredito ser, seja realmente o certo.
Pois com a tensão em que estou, sou capaz de explodir o mundo, baby, acionando dispositivos errados.
É por isso que em todos os casos devoro lentamente, mas com ânsia e gosto esse pote de Nutella.
Porque a vida precisa ser doce.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Stultifera Navi

Então o vento lá dentro da serra,
onde apenas havia o barulho insensato
das coisas sem nome
começou a bater (a bater, a bater)
a bater rataplã (rataplã, rataplã)
no tambor da manhã.

Quando todos decidimos embarcar, cada qual ao seu turno, havia um pacto anterior.
No momento em que eu cheguei, o mar estava revolto, mas eu não tinha consiência sequer da gravidade da luta.
E da turbulência do mar.
Mas sob os amparos e cuidados da grande mãe, o medo acabou e pudemos navegar em águas mais calmas.
Após, o quebra cabeças insano da vida apresentou novas sequências e sempre havia um encaixe, mesmo no improvável.
Porque ele conhecia o segredo de cada peça e ela sabia o motivo e a finalidade dos quadros formados.
Encontramos perfeição nas linhas tortas.
E sabíámos que só era possível se fosse completo.
Fomos nômades, errantes em cada lugar e por isso mesmo tão necessitados de outros crepúsculos.
Pregamos nossas bandeiras no chão de vários terras, conscientes do sangue cigano que nunca foi filtrado de cada fio de veia, de qualquer artéria, arte bem feita, carente de interpretação.
Seguimos à margem de mil convenções, fração imprópria de cada conjunto.
Mas à margem, inserimos no contexto o jeito ímpar que eles conquistaram e nos deixaram por herança.
Superando as dificuldades com leveza e criatividade.
Sustentando o peso das dívidas e dúvidas como equilibristas e sabendo da incrível possibilidade de percorrer a corda apenas com o conhecimento da fé.
Hoje, no cais, cada um possui o própio bote e outros roteiros de viagens. Era esse o fim, a finalidade.
Vejo navios partindo com mar agitado, vejo outros em construção, vejo navios atracados em baixa maré.
Dentro de mim, apenas o desejo de soltar as âncoras de quem vai, de escolher ficar em terra firme ou embarcar num desconhecido oceano e ainda assim estar em uníssono, mesmo distante, mesmo sendo uma peça não muito importante no esquema atual.
E guardo também o sentimento inabalável de que o amor que não se ensina nem se aprende está em nós, vibrando, quase que transmitido por osmose, vindo dele e dela.
Sendo ele e ela, somos todos irmãos.

***

À minha família.
Inpirada pelo Otávio.




segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

PORQUE É

SEU ANIVERSÁRIO!!

O SBLOGONOFF COMEMORA,
MESMO NO RUSH,
PORQUE O AMOR QUE VOCÊ ESPALHOU
NO CICLO QUE SE ENCERRA
MERECE SER CELEBRADO!!!
MERECE SER DESTINATÁRIO
DOS MELHORES DESEJOS!
PARA QUE SUA JORNADA TENHA
FELICIDADE POR COLHEITA!!

PARABÉNS, PEQUENA!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Grandes Esperanças

Acabei descobrindo que o mundo apenas acontece quando nos mexemos também.
Como já cansei de dizer por aqui, TUDO É MOVIMENTO!
Sem movimento, não há cheque-mate gelado!
Rotação, translação...
O tempo não pára.
Só corre.
Socorre.
Algumas circunstâncias nos adotam, mas a minunciosa análise me leva a crer que demos causa mesmo ao inesperado, ao surpreendente, à tudo aquilo que aparentemente não escolhemos viver.
Nuns dias chove, noutros dias bate sol.
Quente.
Quente.
É verão, bom sinal, já é tempo de voar.
Devemos agora prezar o período que passamos em nossas crisálidas.
Devemos voar.
Em jardins, em pântanos,em avenidas ou rodovias.
Devemos voar.
Se eu precisasse descrever com apenas uma palavra o que foi 2010, diria: APRENDIZADO.
Foi um ano de muito aprendizado, escolhas, superações, venturas e aventuras.
E foi o ano que mais revi meus conceitos, meus pré-conceitos.
Flexibilidade!
Eu sou aprendiz!!!
Mas espero que 2011 seja um ano de aplicação!
Já é hora de praticar tudo o que aprendemos com a razão e com o coração.
Não falei de natal (mais por falta de tempo que de texto!) e nem vou desejar coisas felizes de control-c, control-v.
Mas é claro que espero.
Tenho grandes esperanças!
Espero que vocês provoquem a inércia dos pensamentos, das opiniões que não mudam, de toda rigidez e todo o medo paralisante.
Shake, shake, shake!!
Pra vida acontecer.
Pra felicidade acontecer.

Porque 2011 será um ano ímpar!!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Viajantes


Venha, pequena estrela
Nós não temos nada a temer!
Esse caminho que percorremos nos fez fortes.
As cicatrizes do nosso corpo, da nossa alma, são capítulos vivos de um livro sagrado.
Dê-me a mão, porque até aqui nós podemos caminhar juntos.
Adentrar o arco-íris, adentrar os corações, avançar um pouco mais rumo a essas verdades que não cabem nos olhos.
Vamos deixar que o amor se expanda, pequena estrela.
Você me pergunta porque fomos criados.
Fomos criados para amar daqui até o infinito.
Estivemos na poeira dos planetas, na composição dos astros, estivemos nas montanhas, nos oceanos, nas florestas...
Estivemos nas cavernas, nos pântanos, nos paraísos...
Somos únicos, mas consubstanciados somos todos um só.
Viemos das mesmas mãos e temos o mesmo destino.
Você possui o segredo do universo contido em cada partícula, pequena estrela.
Sua proteção e seu amparo.
Tudo em você.
Não tema.
No conjunto perfeito, não importa o seu tamanho e nem os calendários.
Cada mistério que desvendar, eliminará um obstáculo no caminho e então será mais livre e mais integral.
Você integra o meu mundo e eu lhe entrego o meu amor.
E nisso consiste a magia, em saber que a vontade e o conhecimento podem nos mover a a grandes distâncias e transformar a matéria bruta em preciosidades.
Pequena estrela, tudo o que você foi colabora para o que você é.
E o que você é agora, é a única coisa que importa.
Você só precisa brilhar.
Cumprir seu destino e brilhar.
Porque é assim que Deus se revela!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um lapso...

Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso, anterior a fronteiras,
humildemente vos peço que me perdoeis.


(sempre o Drumond - Sentimento do Mundo)

*

Eu apenas sei que preciso seguir.
Digo aos outros para irem avante, movimento meus músculos, verto suor e sangue para que todos possam sorrir e ver beleza em qualquer dia.
Então, chegam os dias de chuva e tempestade e sabemos no fundo que cada um suportará como puder.
E eu sei que não é raro eu querer simplesmente me entregar e parar de tentar ser o que pareço não ser.
Isso tudo o que nós construímos nos custou tanto esforço tanto tempo, tanto dinheiro e lágrimas que dói olhar para trás e ver que só demos um passo. Um pequeno passo.
Quero me libertar dessa sensação que me faz crer que estamos dando voltas.
O céu é tão imenso...
Não faço idéia do que seja o infinito.
Não imagino porque fomos criados.
Eu apenas sei que preciso seguir.
Como um instinto, como uma necessidade.
Como destino.
O relógio não perdoa nossas paradas.
Minhas células mudam, estrelas nascem e morrem no universo,
estou perto de mais um aniversário, de mais outro natal.
Continuo com medo da morte (da minha, dos meus), dos meus fantasmas e de finais tristes.
Talvez por isso eu esteja sempre apertando o reset, reiniciando o jogo perto do meio, perto do fim...
É assim quando estou no meio do jogo e tenho apenas uma vida.
Quais são as possibilidades de vencer quando estamos nessa condição?
Será que posso me tornar mais hábil e contra todas as possibilidades chegar à última fase e vencer o vilão que me dificultou o jogo o tempo inteiro?
Será que não vou sucumbir quando uma força quase magnética me puxar para o outro lado, arranhando minha alma com unhas afiadas?
Eu acordo em silêncio. Queria sorrir, queria suportar as verdades, queria ter força e boa vontade.E sinceramente, não queria colo.
Em alguma hora eu entrei pela porta errada.
Em algum lugar eu desviei.
De onde estou, vejo o oásis, vejo as luzes, ouço vozes familiares, mas não sei como chegar lá.
É como se estivessem numa outra dimensão.
Tão distante, embora rente a mim...
De repente é preciso saber a palavra mágica que vá abrir esse portal.
Mas não existe mágica.
Existe vontade.
Existem labirintos.
Existem leis.
Eu existo.
E esse é o meu maior enigma.
Eu apenas sei que preciso seguir.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Estou bem.

Não havia como negar.
A dor que sentiam não ia cessar agora.
Foram enviados para aquele planeta por haverem se rebelado contra a ordem vigente e por terem destruído patrimônios morais tão sagrados ao povo daquele valoroso planeta que orbitava no cosmos.
Comparado ao que já possuíram, o planeta presente não era tão belo. Nem era tão fácil viver na escassez de qualquer tecnologia.
Muitos mal se lembravam de como era antes, mas traziam no fundo do peito uma saudade lancinante de tudo o que deixaram para trás. Quando olhavam as estrelas, não era raro rolarem lágrimas.
Muitos deles não suportavam o degredo, e sucumbiam em mais revoltas, em fugas inúteis, em associações apocalípticas, disseminando o caos e a discórdia por onde passavam.
Todavia, outros usavam os conhecimentos que haviam adquirido ao longo do tempo para melhorarem as condições e precariedades do lugar. Avançavam enquanto podiam, no limite de suas forças, como bem aconselhou o líder deles, anos antes.
E assim construíram novas civilizações.
De tempos em tempos, uma enorme espaçonave pousava na superfície do pequeno planeta e abria suas portas. Todos aqueles que adquiriram por seus próprios esforços o ingresso, penetravam a nave e desapareciam entre clarões intensos que vinham do seu interior. O curioso era que em uma nave tão grande as portas fossem mínimas, de modo que era possível a passagem de apenas um de cada vez.
A conquista pelo ingresso na nave era pessoal. Por mais que o amor e o zelo de uns pelos outros fosse capaz de até descer ao inferno, não havia como um comprar a passagem para o outro.
Naquele dia, ela soube que subiria. Havia merecido o ingresso para a nave.
Sentiu extrema felicidade.
Foi correndo contar aos seus, na esperança de que todos fossem juntos.
A mãe e o pai foram embora nos anos anteriores para lhes prepararem o caminho.
Eles, os irmãos, ficaram ali a mercê deles mesmos, sob o amparo e proteção do bondoso e consolador governante do planeta.
Chegando em casa, sem se conter, empurrou a porta e abraçou feliz todos os irmãos.
A não ser um que estava amuado em um canto da sala.
Quando soube que ele não ia, ela quis ficar.
Foram dias de sofrimento e desespero antes da nave aterrissar.
Ela não tinha condições de ficar ali. Poderia voltar, num futuro, mas por ora, era imprescindível sua partida.
Depois de se acalmar, decidiu que iria, mas que voltaria, caso ele demorasse demais a ir também.
Disseram a ela que estavam ali pela iniqüidade de seus corações e que deveriam conquistar com o suor e esforço próprios o direito de retornar à pátria celeste. Informaram que uma pessoa pode iluminar a outra por algum tempo, mas que era necessário que todos ativassem a própria luz para se credenciarem à viagem na grande nave. Por isso a porta era tão pequena. A passagem era apenas de um.

Ela entendeu de repente a solidão que sentia às vezes. Seu progresso, assim como suas quedas, eram de sua inteira responsabilidade. Responsabilidade pessoal e intransferível.
Finalmente, no grande dia, ela entrou na nave que sumiu no infinito.

Algum tempo depois de sua ascensão, em seu paradisíaco planeta de origem, recebeu a todos os amigos que haviam ficado para trás e regressavam agora. Abraçou a todos com grande alegria e procurou em vão pelo irmão na multidão.

Ele ainda virá, disseram-lhe.

Seu coração se apertou. Olhou para o céu e pensou nele com amor.
Alguém então toca seu ombro e lhe entrega uma carta resumidíssima, semelhante a um telegrama:

Estou bem.

Ass:James.

Quis chorar, entretanto resolveu confiar que ele ainda estaria ali entre a família. Confiar que ele um dia mereceria regressar.
(...)
*
Estamos aqui e precisamos uns dos outros para progredir, para desenvolvermos nossos sentimentos e melhorarmos nossas atitudes, no entanto, cabe a nós mesmos acendermos a luz que iluminará o resto do nosso destino e que nos fará encontrar o caminho de volta pra casa.
*
*
Este texto é uma sinopse do romance imaginário: “Lavouras” de Michele Edwirges, baseado na obra “Os exilados da Capela” de Edgard Armond.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Se você puder...

Vamos nos sentar aqui e conversar como se estivéssemos nos conhecendo.
Vamos reinventar o encantamento dos encontros, a surpresa dos inícios, a conquista de cada frase. Conversemos agora sem o peso das tardes, das luas, dos erros.
Deixemos que tudo seja novidade. Façamos com que cada sorriso revele outras luzes e outros mundos.
Vamos ignorar que agora é tarde.
Permita que eu pergunte o seu nome, a cor que você mais gosta, sua música favorita. Deixa eu saber dos livros que já leu, dos filmes que ficou de assistir, de suas viagens mais marcantes.
Deixa eu lhe contar minha história triste, dizer como sou lenta e reticente, cantar um chocolate pro futuro, perguntar o número do seu telefone e prometer ligar depois.
Vamos pedir outra garrafa, outra porção e esquecer que a madrugada vai chegar.
Vou falar dos meus sobrinhos, de como são meus pais, meus irmãos, das manias que tenho e de como gosto do Balão Mágico.
Vou te ouvir revelando detalhes que nunca disse a ninguém. Vamos rir das bobagens e trocadilhos, vamos arquear a sobrancelha a cada afinidade descoberta.
Vamos compartilhar nossas dores, nossos arquivos, vamos recomendar filmes e livros, vamos deixar que a vida seja leve, que o passe seja livre.
Nem que seja pra condensar todo o percurso em um minuto.
Vamos fazer de conta que não há dor nem cicatriz, que não houve perdas, partidas, despedidas nem crepúsculo.
Vamos fazer de conta que ninguém ficou desapontado, que nenhuma lágrima rolou, nem e-mails desencaminhados. Vamos fingir que temos um papel em branco e muitos lápis de cor, são mil possibilidades e nenhum mal entendido.
Vem, puxa a cadeira e senta aí, como se estivéssemos nos conhecendo.
Porque agora apenas estamos aqui com essas xícaras de sol.
O resto do mundo é pra depois.

Ouvindo”These Things That I've Done” dos Killers.

All these things that I've done
(Time, truth, and hearts)
If you can hold on
If you can hold on





quinta-feira, 16 de setembro de 2010

MAMUTE MUITO, COMO AS FLORES MAMAM, laralaralaralara la la la...



Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e e de entender estrelas.
(Bee Lacteo) ou Bilac

É preciso cavar buracos para plantar certas sementes.
(Sobre a dor.)
Criança, isso não é implicância com você! É mais uma exortação!
Dor haverá por tudo quanto é parte.
Nem sempre é necessária, mas quando vem, pode ser benéfica sim.
E... Macacos banguelas me mordam, se adianta a gente se entregar ao pântano escuro e fétido.
Rá!
Você vai sempre dizer que entende, que já sabe. Vai recitar pra mim tim tim por tim tim a minha antologia otimista, e vai caçoar dela. Vai me flechar, mesmo sem querer, com doses realistas de algodão doce. Alguns de seus dardos vão me ferir. Vai sangrar.Você vai chutar o balde quando o céu escurecer e as estrelas sumirem. Vai achar que problema nenhum tem solução. Vai fazer uma piadinha infame só pra disfarçar, pra fingir que não se importa tanto. E vai achar que é piada quando a vida aparecer sorrindo.
Você diz que sabe e que não vê sentido nisso tudo. Mas só vê sentido quem aprende com o coração. Sois mestre em Israel e não sabeis dessas coisas? Que mal há em acreditar? O que o pessimismo produz? O que a desistência produziu até hoje senão derrotados? Me cita um exemplo só, que me calo, que deixo de falar que sobre toda nuvem negra brilha forte o sol.
Certas defesas humanas são tolas, pois nos afastam da vitória.
Vencer ou não vencer é relativo demais. Pode ser que uma derrota seja seu maior ganho e isso vai muito além do que brincar de Polyanna, de ver o lado bom só pra ignorar que o que é podre na Dinamarca fede pra caramba cá nos trópicos. Precisamos saber discernir o que é otimismo do que é alienação. O otimismo é dinâmico. Não era pra ser tão difícil. Acontece que somos aranhas fiadeiras tecendo malhas na vida, entortando as linhas e dando um jeito de falar que elas foram escritas por Deus, pela Vida, pelo Sereno... Se erramos, se sofremos, se as coisas doem, é porque estamos na batalha.
Todo mundo tem o direito de ficar triste. Ninguém é de ferro por aqui. Certas coisas nos levam a nocaute sim. Mas e aí? E depois? Vou ficar de bode pra sempre? Por causa do nocaute (que aparentemente a vida me deu?!)
Ninguém perdeu definitivamente. Culpar a vida ou as divindades é como pegar a mulher (ou o marido) transando com o amante (ou a amante) no sofá e jogar o sofá fora!! "Pronto. Resolvido o problema. Joguei fora o sofá!!! "
O coração precisa estar atento ao foco, senão fica míope.
Coração com problema de vista é muito mais sério que o glaucoma da minha avó que já morreu.
Então, se é assim, viva os trouxas!!!!! Viva você que se arriscou, que pagou pra ver!
Viva você que acreditou, que deixou a flor roxa nascer!
Qual o problema?
Pior pra quem não amou. (pior pra mim)
Melhor que ter no peito um solo árido, cheio de tuaregs e camelos. (Apesar de ter gosto pra tudo).
Melhor assim do que ser apenas espectador da própria vida.
Protagonistas sofrem, mas é mais provável que o final feliz esteja destinado a eles, e não aos figurantes.
Ser trouxa é não ser bruxo, segundo o Harry Poter (!!!). Mas é também deixar o orgulho morrer por dentro, massacrado por uma manada de auto-perdão. Ser trouxa é deixar a vaidade se transformar numa fumaça que vai fazer você tossir, seus olhos verterão lágrimas, mas ela logo vai desaparecer no ar.
É deixar a coragem virar adubo para um imenso jardim de flores roxas.
E que a primavera seja bem vinda!
*
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

MORUS NIGRA (Epsódio I)



Ele estava ocupadíssimo, metido em dezenas de livros e jurisprudências, afim de encontrar a “brecha panacéia” que solucionaria todos os casos aparentemente insolúveis.
Ela chega ofegante. Senta no sofá solo. Levanta, pega um café, senta-se novamente e diz:
- Cara, to com febre.
Ele levanta a cabeça, a observa por sobre os óculos por uns momentos e continua por sua busca em silêncio.
Ela termina o café, levanta, vai até a mesa onde ele está, abre um livro, folheia sem ler nada, volta ao sofá, esparrama-se e diz outra coisa:
- O problema de depilar tudo, absolutamente tudo, é que o xixi sai como um esguicho e escorre pela perna. Ai, que ódio que me dá. Quero matar alguém.
Ele pára, tira os óculos e a fita. Incrédulo:
- Tu te tornas completamente inimputável, já que és louca e reativa.
Dentro dela, todas as exclamações e interrogações se unem no centro do pulmão, fundem-se, e são expelidas para o exterior em forma de hã de top model. Assim: Hã?!!!!!?
Ele simplesmente volta aos livros.
Ela simplesmente continua conversando, sem perguntar de novo, sem tentar entender o que ele disse. Levanta.
- Esse creme hidratante de cereja é uma delícia.
Dizendo, quase esfrega o braço no nariz dele.
- Sente? Não é? Vontade de comer o meu braço.
- Porque você está tão visceral hoje? Assim, querendo matar, querendo se comer?
- Meu Deus, homem? O que é visceral? E aquela coisa que me xingou... putável... Estou aqui, “indo pro meu lugar calmo”, como aprendi no desenho. Respirando, e você só me ofende. Qual é?
Ele movimenta os lábios. Algo que parece um sorriso. Vai até a estante, pega um volume imenso, volta pra mesa, passa por ela e continua à procura do santo graal.
Ela olha pra ele com piedade. Aproxima. Faz menção, mas não fecha o livro que ele pesquisa.
- Urbano, estou doente. O médico disse que vou morrer.

*

*

(continua em qualquer dia desses)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

de macadâmia


Porque o mundo tem dessas coisas das quais não podemos fugir.
E essas coisas são capazes de sangrar seu companheiro de guerra, por dolo ou acidentalmente.
Ainda sim, precisarão verificar se em sua culpa há imprudência, negligência ou imperícia.
Talvez não se possa ser feliz impunemente.
Talvez seja preciso oferecer virgens ao sacrifício para que a maioria seja beneficiada.
Mas pode ser que todas essas dificuldades sejam apenas nossa falta de jeito de lidar com a vida e suas voltas, seus zigues-zagues e seus zagueiros cansados do jogo e do empate.
No final, com noves fora, vai restar apenas o que fomos capazes de amar.
Material para reconstruir.
E quando você perceber que houve mortes e que foi você quem atirou, quando você perceber que seu mundo só não está melhor por causa das coisas que deixou de fazer, quando você fizer verter lágrimas dos olhos de quem ama, haverá pouco consolo no mundo.
E isso vai acontecer, meus amigos.
Porque somos um monte de filosofias incompletas carregando uma caixinha de interrogações.
Porque somos desajeitados para amar, para oferecer amor e para receber amor dos outros.
Mas uns, mais que outros, precisam estar totalmente sóbrios para passar por tudo, pelo fogo e pela água.
Uns, mais que os outros, querem ter controle em momentos de decisões importantes e em momentos de sofrer ou se beneficiar pelas conseqüências.
Uns, mais que os outros, não podem lançar mão de portas de escape artificiais.
É importante afirmar, no entanto, que mesmo para esses sóbrios por convicção, haverá soluções emergenciais que tornarão suportável todo conflito e todo o peso da alegria.
Para esses outros, existe Häagen-Dazs de macadâmia, cujo nome não faz sentido em nenhuma língua, mas cuja essência aflora seus outros sentidos na primeira colher.
Sua origem não possui glamour, como a nossa vida nos bastidores, mas seu sabor é capaz de nos consolar até onde dói mais, anestesiando a chaga e derretendo a lágrima que já é líquida com a suavidade de uma nuvem em dias claros. Por um segundo, seu interior é meditação, mesmo sem um jazz para acompanhar. Mesmo no completo silêncio da sua sala.
Porque para os caretas, a vida é sempre mais áspera, já que evitamos as fugas.
Porque para os caretas, tudo se mostra como é, sem o frágil véu que não permite às vistas lidarem com as verdades e com a dor.
Porque aos caretas é necessária uma dose a mais de coragem para enfrentar a própria culpa ou o golpe inimigo e ela não será oferecida pelo senhor Johnny Walker ou Jack Daniels. Nem por nenhum senhor semelhante.
Porque nenhum deles podem fazer por mim o que Häagen-Dazs faz.
*
*
Faço parte do mundo proletário, onde tantas vezes nos privamos de certos prazeres por considerá-los superfluos os caros demais. Mas não acredito que o alento, o alívio, a anestesia sejam gratuitos mesmo...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

LIDAR

É sem a pretensão de querer parecer mais forte que admito: é difícil lidar com as escolhas.
Não sei dizer se é mais difícil decidir do que suportar as consequências.
Algumas escolhas nos trazem alívio.
Outras, saudade.
E a saudade, como eu já disse por aqui,possui efeito mágico, capaz de revogar todos os incidentes e fazer da lembrança uma morada confortável.
Ainda há aquelas escolhas das quais nos arrependemos.
Pode ser que seja possível voltar atrás.
Pode ser que seja imprescindível seguir.
Lidar com o que há depois é a arte do desapego ao que era antes.
Mesmo que o antes não parecesse tão brilhante como o antes que é agora.
Uma sensação temporal de relatividade.
Sensação que sobe como lava até a garganta e se transforma em um nó.
Lembro que quando era criança, enviei uma carta para o programa da Xuxa.
Toda manhã, eu, meu irmão mais novo e meu cobertor vermelho, ficávamos lá esperando ela sortear a nossa carta.
E quando ela lia um outro nome, subia em nós essa lava, uma frustração infantil que ia passar.
Criança sabe lidar bem com essas coisas.
Um dia a Xuxa pegou nossa carta!
Mas esperávamos que ela, não o carteiro de roupa amarela, azul e boné, viesse entregar o brinquedo.
Não importa, nós crescemos de qualquer maneira e passamos a deixar de esperar pela Xuxa e pelos disco voadores.
Pela estrada afora nós continuamos esperando outras coisas, buscando,sonhando, conquistando e aprendendo, recuperando e desistindo.
Não sei quantas vezes nós tivemos certeza absoluta do que fazíamos
E sei que perdemos tesouros pelo caminho.
Como aprendizes, não se pode esperar de nós atitudes tão mais sábias.
Não se pode esperar que alguém acerte os números da mega-sena em todo jogo, embora a gente saiba que quem não joga não vai esperar ganhar ou perder. Vai apenas passar.
O que precisamos ter é a consciência de que seja qual for a nossa escolha, é preciso lidar com elas, porque não vai adiantar fingir que não há consequencia, perdas, ganhos e expectativa de arco-íris depois da chuva.
A vida é assim.
Uai!
O importante é apesar dos pesares conservar o sorriso da lida.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

PRA NÃO DEIXAR ESFRIAR

Um pouco mais sobre o post abaixo. Um pouco mais sobre nós...

Hoje ao acordar, pensei duas vezes se ia tomar banho.
São dias frios esses.
O café esfria sobre a mesa em segundos.
Mas eu não esquento a cabeça.
Meu coração ta aquecido e pulsa.
A própria vida desfibrila quando a morte aparenta aparecer e fazer parar seu coração.
E depois do choque existe mais vida.
Mas se não houver VONTADE, andaremos sobre o deserto.
As noites no deserto são frias, mesmo assim, são tantas estrelas visíveis no céu...
No final, a felicidade acaba sendo escolha própria, conquista dos bravos.
E vai depender da natureza da felicidade que se quer.
Efusividade? Vulcões? Festa?
Ou paz, calmaria, certezas efêmeras, assistir filme a dois, abraçados...
Em alguns dias fica difícil acreditar, mas ter a paz como salário recompensa nosso esforço, nossa luta contra a desistência.
E nos redime de nossas ações mais infelizes contra o belo e contra o justo que supomos não existir.
Eu acredito. Não porque minha fé seja grande, mas porque vejo, porque toco, porque sei que é palpável a bondade humana.
Porque sei que a luz faz diferença demais quando ta escuro e ninguém te ouve.
Até os afogados têm lanternas!!
Mesmo uma lanterninha de celular, ou o display, já resolve quando a energia acaba.
Como as estrelas do deserto, que falei a pouco.
Como quando seu sobrinho vem correndo da esquina pra te abraçar.
Pequenos fragmentos de luz.
Normal, a gente se perde, a gente perde a fé e perde junto tantas coisas pelo caminho. Algumas a gente perde e nem percebe, e no futuro sente falta e nem sabe do que.
Tudo bem mesmo se colocamos o dedo em riste, se esperneamos, ou se conservamos uma resignação cética perante o mal do planeta.
É normal você chorar, se sentir confusa, sentir que o Sr.urso polar raivoso está urrando dentro de você. Se até a semente sofre para romper a terra e nascer, então é bom sinal esse incômodo. Tá ótimo.
Mas será tudo péssimo se for assim pra sempre. Porque o importante é o movimento, são as transformações.
O mundo te abraça, mesmo que seus braços estejam rente ao corpo.
Mas quando você abraça a vida, você envolve um mundo inteiro perto do seu coração e deixa um rastro luminoso por onde passar.
Então, me explica, pra que deixar o café esfriar, porque deixar o amor esfriar, se ele vale e pena e nos faz tão bem?
Porque deixar a sombra do medo ocultar as belezas da simplicidade?
Porque teimar em seguir contra a corrente?
Se vai doer de todo jeito, melhor que a dor valha a pena, melhor que ela nos ensine e nos liberte da escuridão.
Ne não?
Nosso caminho é como o Buzz Ligth Year (!!!!) disse: Ao infinito e além!!!
As crianças sabem disso.
Acho que não perdemos por tentar.

***

Meu espelho, meu anel,
Diga agora o que virá?
Arco-íris de papel
Onde o ouro deve estar?
Quero aprender pra saber
Quando a estrela faz sinal
É uma bola de cristal?
Ou é você que quer me dizer
Que gosta de brilhar,
Solto no céu, favo de mel,
Tão doce de provar, tão fácil de gostar!!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Da amarga planta

Às vezes dá a impressão de que nós falhamos como seres humanos,
De que Deus falhou como ser supremo de infinita bondade e justiça.
De que o conceito de evolução permite retrocessos.
No entanto, se analisarmos a história do mundo, se pensarmos bem em tudo o que acontece ao nosso redor, acabaremos por perceber que são apenas impressões, geradas por um pensamento rápido, baseado no senso comum, isento de críticas.
O mundo está bem.
Olha como eram as ruas de Roma.
Olha como a França era suja e promíscua.
Olha como os bárbaros comiam!!
Olha como era no início, na colonização do Brasil.
Olha o direito penal, como ficou mais humano.
Olha o fim da escravidão.
Olha os julgamentos feitos através do devido processo legal.
Olha nosso direito ao voto, à democracia, por mais imaturos que sejamos.
Olha a higiene como melhorou.
Hoje tem banheiro, band-aid, absorvente, desodorante, pílula anticoncepcional, travesseiro, edredon.
Olha só, temos edredons!
Como alguém diz que o progresso anda de ré?!?????
O noticiário às vezes nos espanta. Casos como o do goleiro Bruno atraem a atenção da mídia e a ira da turba que mal sabe que o mal está em cada gesto bom que deixamos de fazer.
Sujos querendo justiça feita aos mal lavados.
Se a justiça fosse feita, daquela olho por olho, dente por dente, o mundo estaria perdido.
Seria uma prisão, cheia de aspirantes a redenção.
Mas a lei que nos rege é outra, uma lei que permite que a dor ensine e revele novos caminhos.
Da amarga planta extrai-se a mais salutar substância.
O boldo resolve problemas digestivos.
O soro antiofídico é tirado do próprio veneno da cobra.
Não há criminoso que não contenha algo que brilhe por dentro.
Não há catástrofe que não venha redimir o mundo de alguma forma.
Como diz meu chefe, depois que descobriram que cocô vira esterco, nada mais se perde no mundo!!
E sendo um pouco mais rebuscada na intenção, quando há amor em nossos olhos, em nossos corações, o mundo não parecerá pior do que já foi.
Estamos na Highway da evolução.
Para o Alto e Avante!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SOMETHING

A rodovia era a mesma a não ser por um pequeno desvio perto da entrada da cidade.
Há poucos minutos a vida esteve por um fio, um deslize, uma distração, um movimento errado no volante, visibilidade distorcida pela lágrima caída...
Ela era tão dramática, adorava chorar acelerando.
Demorava pra tomar as decisões, mas quando tomava era porque a quota de certeza era maior do que a parcela nebulosa da dúvida.
Então, se estava certa, porque aquela sensação de perda, de soco no estômago?
Cadê a serenidade das decisões?
Cadê a calmaria da coisa certa?
Ah... Pensava em como a vida era inexata.
Nunca achou que João Gilberto, o chato de galochas era melhor que o silêncio.
Para aquele momento, Luan Santana, o chatinho de botas cairia melhor. Depois o resto da play list sertaneja que ela um dia teve certeza que nunca ouviria.
Mas era tão claro o motivo do sucesso daqueles artistas. Eles simplesmente falavam. Não rebuscavam sentimentos com palavras bonitas ou com metáforas preciosas. Eles falavam. Eles expunham o coração pulsando, sob os efeitos do vento, do olhar do mundo. Não tinha que ser bonito, tinha apenas que tocar quem ouviria. E a despeito de tudo o que gostava e respeitava, de tudo o que prezava e admirava, a rodovia para ela era uma faixa contínua de altas doses de vozes populares. E eles tinham razão.
Até que por descuido na seleção, eles param para dar passagem à guitarra de George Harrison. E Something veio como uma flecha com ponta envenenada.
Sentiu vontade de voltar e mudar seu destino. Teve ímpetos de andar mais centenas de quilômetros pra dizer que estava errada
Mas o retorno demorou tempo suficiente para a música acabar e ela mudar de idéia.
Então o refrão bobinho de Maria Cecília e Rodolfo soou como uma água fria no rosto.
É preciso acreditar no tempo, na natureza que não amadurece os frutos de um dia para o outro.
Acreditar que tudo se ajeitaria, mesmo que as renúncias doessem.
Acreditar que por mais difícil que fosse, era melhor pagar adiantado do que a prestação e com juros.
Acreditar que de alguma forma o amor vai nos encontrar preparados.