terça-feira, 22 de maio de 2018

Enjoy the silence


All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms

Eis me aqui, nua no palco. É o meu pior sonho, mas não é um pesadelo, porque você está ali e testemunha meu diálogo com o silencio.
Tenho a sensação de que as coisas mais desconcertantes perdem a densidade diante da tua presença.
Recito meu verso: Há oceanos que não saciam meus desertos, mas a pouca água do teu oásis me inunda.
Eu não imaginava o braço de mar sob os continentes que avistava. Nunca vemos demais. É sempre um fragmento, uma peça que não se completa até que nos aproximemos. Supomos pensar na altura, largura e profundidade do que vemos, no entanto, quando aproximamos a respiração, quando tocamos o sentimento, somos surpreendidos com dimensões inimagináveis.
Aconteceu comigo e me vi te entregando as chaves do meu castelo, meus sonhos, meus desejos, meu corpo e o meu coração.
Eis me aqui, nua no palco. Sem palavras.
Muitas vezes encontro esse silêncio que precede os aplausos.
Mas não faz diferença.
Tudo o que eu preciso está aqui em meus braços.

quinta-feira, 1 de março de 2018

01 de março!

E eis que ele quase me alcança!
Sinto muito orgulho do homem que você é.
Feliz Aniversário.
Amo você!

Necessidade

Eu sinceramente, não sei porque dessa necessidade escatológica das pessoas de meter um palavrão no meio de tudo. 
Gosto e cu cada um tem o seu...
Uai, Gosto e impressão digital também.
Gosto e visícula bilial.
Gosto e dedo.
Gosto e nariz.
Gosto e fêmur.
Gosto e pé.
Gosto e traqueia.
Gosto e língua.
Gosto e dna.
Gosto e epiglote...

Mas aí o ditado tem que se voltar pro mínimo espaço por onde a bosta sai.
E eu não entendo todo esse amor do mundo pelo cu.


PARALELEPÍPEDOS

Escutei muito e repeti em vários discursos que o namoro precisa ser leve. Que pesado é o casamento.
Mas agora eu penso, em fase de reajuste, é mesmo possível ser leve, fluido e tranquilo?
Um relacionamento, monogâmico pelo menos, é construído por duas personalidades com uma trajetória de vida diferente, com culturas, crenças, valores que por mais que possam se assemelhar, são diferentes . Cada um, no fim, possui a própria impressão digital.

E então, ambos concordam em fundir esses universos para criar um novo universo de intercessão. Como é que isso pode ser simples e leve?

Se você souber, me fala no privado!rsrs
E o título é só um mero detalhe do caminho!

NUVENS

Criança, eu olhava as nuvens e tinha certeza de que havia vida inteligente e mágica lá.
A Fofolândia,os Ursinhos Carinhosos e muitos outros espaços habitados. Hoje as nuvens estão cheias de dados. E eu, vazia de certezas.

Chega uma hora em que o passo que precisamos dar são mais necessários do que as certezas, a vã certeza de tudo. Teorias, crenças, pontos de vista, convicções... 

Acho que tudo deve ir pra nuvem e formar de repente algum reino, talvez...
Embora eu não ache que seja inútil ter certeza...
Só acho.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

FRENTE FRIA

Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer.

O medo é uma dor e eu não sei precisar se é como um parto ou uma espinha.
Sinto essas múltiplas mãos apertando algo por dentro e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente, displicentemente o nervo se contrai com precisão.
Embora a ânsia e a melancolia dessas horas, não choro. Não sei se sei ou se posso.
Se já estivemos ali, construindo planetas, cuidando de seres intermediários, sendo modestamente cósmicos, o que estamos fazendo aqui ainda, nesse desterro?
É uma tarde fria, mas o frio acabou.

Estamos demasiadamente humanos.

... Mas no fundo eu nem ligo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Além de nós

Você passa... Ficarão pelo chão as marcas dos seus passos!
Você passa... Ficarão seus anseios, ficarão seus temores, ficará o tom da sua voz...

A gente não percebe exatamente o espaço que uma pessoa ocupa dentro de nós, até que ela desocupe. Aliás, desocupar não é o termo correto, porque ela vai continuar ocupando.

Mas aí vem a morte ou coisa parecida e a gente percebe que a importância que a pessoa tinha pra gente era de dimensões maiores que supúnhamos. Como quando a gente machuca o dedo mindinho e percebe que o usa para muito mais atividades que imaginava.

Já viu como se arranca um pé de mandioca do solo? Aquele tubérculo alcança lugares muito distantes de onde ele foi plantando. Ele se entranha pela terra e fica forte.

Ana esteve com a gente desde os primeiros ensaios, quando éramos apenas desconhecidos que se juntaram para uma apresentação da casa. Desde então, ao longo desses 8 anos, convivemos quase que diariamente, na edificação de nós mesmos e na dedicação ao próximo. Convivi mais com Ana nesses últimos anos do que convivi com meus pais. E quando estamos compartilhando a jornada com alguém, indo pro mesmo rumo, é quase imperceptível como esse alguém vai se entranhando dentro de nós. Ana foi fazendo parte de mim, de nós, mesmo nos pontos de atrito que tivemos, mesmo nos julgamentos recíprocos que fazíamos uma da outra. Na trilha que compartilhávamos, era impossível que o amor não fosse a força maior entre o resto. Então nos amamos e era essa força que nos unia.
Apesar dos pesares, construímos um laço forte e agora que ela já não está mais aqui, eu mal aguento olhar um arranjo de voz para sopranos. Talvez porque esteja recente. Talvez porque sempre fiz os arranjos pensando na voz dela.

Ainda não é saudade. Mas será inevitável sentir. Cada vez que ouvir, na música, a palavra africana que ela não dava conta de dizer, cada vez que alguém fizer os solos que eram dela.

A vida vai ter sequencia e vamos sorrir, cantar com alegria novamente e mesmo assim vamos descobrir, casualmente, nos detalhes, com ela estava infiltrada em nós. Isso vai doer um pouquinho.

Eu só espero que nesse momento saibamos valorizar e amar melhor todos aqueles que continuam aqui.
Apenas começamos...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ESSE É O SHOW DA LUNA...

Não é desejo, nem é saudade
Sinceramente, nem é verdade
L'Aventura - Renato Russo

É quase uma hora da madrugada.
Como não tem sol, ainda parece domingo.
Acabei de encontrar o carregador do celular debaixo da pilha de roupas que está em minha cama.
Estou morrendo de sono, a cabeça explodindo e mesmo assim não consigo dormir. É como se tivesse um alarme disparado dentro do meu corpo todo.
Não sei definir o que estou sentindo. Não sei ser precisa, não sei se preciso...
São tantas pessoas, fatos, situações, que agora eu poderia ser uma vitamina de frutas, ou um mix de mim.
Rodo a roleta imaginária e espero a seta parar em um assunto para eu discorrer nessa madrugada fria.
E... voilà! Você!

Senti sua falta por causa da NetFlix liberando as séries no inverno.
Hoje eu te vi.
E sabe... Isso não me perturbou da maneira que eu achei que pudesse perturbar.
Perturbou de um jeito diferente.
Eu te vi seguindo a vida e isso me deixou feliz por você. Me deu certa paz.
Eu havia  te excluído de tudo para não te ver e não ter que pensar em você nem por acidente, mas o quadrado é pequeno e os links são diversos.
Então te vejo e te verei.
Mas hoje consegui não ter ânsia de vômito por ver encarnado em minha frente um fantasma que me assombrou por anos e agora não é mais fantasma. É verve!
Metade das coisas ficam sem graça quando perdermos o medo de fantasmas.
O que é minha vida sem o drama?
Chega a ser desolador, porque assumir que estou bem é consumir minhas muletas.
Não posso mais dizer que estou quebrada para evitar seguir adiante com quem quer que seja, ou comigo mesma!
Não posso mais dizer que estou meio presa ao meu passado com você, à nossa história.
Não posso mais culpar o luto ou o fato de não ter tido as qualidades necessárias para fazer nossas vidas se encaixarem.
Pra ser sincera, eu nem queria encaixar nada depois que mudamos de jogo.
Eu queria era só ficar triste e com crise de identidade, sabendo do seu prosseguimento feliz enquanto eu me auto - sabotava.
Eu queria te culpar, e sem razão, cada vez que aparecia alguém que me ferisse, ou cada vez que eu me metia em encrencas, ferindo alguém.
Mas agora não vai ter mais nada disso, porque hoje não doeu.
Estou em minha cama cheia de roupas (lavadas), sem muita culpa e sem nenhuma vontade de dobrar minhas calcinhas como origami só pra te mostrar através do cosmos que eu tinha qualidades para você admirar, mesmo com algumas pessoas admirando virtudes minhas que você nem via.
Eu faço origamis de papel. Mas tanto faz...
Isso há muito tempo deixou de ser sobre você.
Você eu amo.
Já faz tempo que é de uma maneira diferente, só que eu ainda tinha um pouco de dúvidas até te ver hoje.
Então ficou estupidamente claro que o que sinto é sobre mim.
Eu não sei exatamente o que fazer com tanto oxigênio em volta.
E não falo por causa da liberdade.
Na verdade, descobri que nunca houve um mandado de prisão. Percebi que as grades e a sentença eram imaginárias e percebi que estou assustada.
A verdade está lá fora. Mas...
Sei lá se quero ir...

Eu quero saber por que o gato mia? Verde por fora, vermelho por dentro, é a melancia!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Como diz o Billy

Eis aí o inverno!
E quem somos nós agora através de todas as estações?
Estamos reunidos aqui depois desses passos e devemos ser outras pessoas não é?
Outras pessoas melhores, com mais lições aprendidas.
Não devemos?
Mas existe um sentimento lá dentro de nós que se parece muito com aquela coisa quando estávamos prestes a dar o primeiro passo nessa jornada.
O primeiro.
Uma coisa que sabe de si, mas que não sabemos o que é! Essa coisa que nos retalha, impulsiona, sangra um pouco e faz com que a queiramos desvendá-la. Essa coisa que mesmo sendo dura e fria, me faz querer colo e quem sabe, uma varanda com balanço ou rede?
É uma coisa que se alimenta de paradoxos e me desconfigura sutilmente.
Essa coisa me segue e eu corro na lâmina dessa aflição...

Como diria o Billy, vamos lotar o inverno com nossas boas intenções!

segunda-feira, 29 de maio de 2017


Here I am!

Fui ricocheteada para uma janela inútil com fotos de antes e depois de atores famosos!
É curioso ver o Johnny Depp envelhecendo enquanto minhas espinhas, ausentes na adolescência mancham meu rosto e escondem o quanto já percorri.
Um pouco!
Sou da velha guarda, perdi e ganhei muita coisa!
Aprendi as cores que estão debaixo do papel esperando um toque ou chuva para novas químicas.
E desaprendi os rabiscos e os mosaicos.
Ganhei um sorriso diferente, talvez mais consciente da alegria que sente!
Perdi batalhas e postos, um pouco da fé e a esperança revolucionária de dividir os mares.
Mas seu abraço é como reintegração de posse.

Ouvindo A-HA! 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

NÃO NOS AFASTEMOS MUITO

Ao Leo

Cara,

Ás vezes vai ser muito ruim.
Você vai ouvir tantos nãos que vai parecer exercícios para voz.
Mas as coisas ficam bem depois do não, mesmo que seja bem chato passar por eles e ouvi-los.
A nossa sorte é que o tempo passa e a gente sobrevive!
A gente não precisa explodir o mundo toda vez que as coisas não saírem como queremos.
Vou te confessar que as vezes dá essa vontade mesmo, mas a gente se controla, pensa no que pode ter de bom depois! Pensa no trabalho que é reconstruir tudo que a gente quebra quando se chateia.
O planeta Terra é uma bola muito grande que gira em torno do sol e em torno do próprio eixo sem um cordão de nylon cósmico controlando tudo. São outras forças, outras leis.
Se existem essas leis regulando tudo, regulando as coisas que a gente nem pensa, então não há porque pensar que um ponto final seja exatamente o fim de tudo, de toda a possibilidade de cor que tem depois!
É a vida, cara!
Tem esses dias em que chove. E em outros que bate sol.
Tem coisas que vão doer, vão doer e depois vão passar.
E quando passarem, se você souber olhar direitinho, vai ver que elas te deixaram mais forte.
Então aguente firme o quanto puder, sem destruir e sem deixar que isso te destrua, porque a luz que a vem de tudo isso pode iluminar a nossa cidade inteira e todas aquelas que você imaginou.

terça-feira, 2 de maio de 2017

É estranho como é estranho esquecer um nome.

Á minha prima

O que será que define estranho?

Essa indiferença ou a saudade sem tamanho?
É o sorriso de canto
É um canto sem juízo?
É apressar o passo enquanto
ter pressa não é preciso?
O que será que define estranho
Num coração que é tão desigual?
Com a inexata medida
desata conceitos e elucida
os nós dados na escuridão
E aí já nem mesmo há razão
dessa razão matemática e lisa
Porém uma razão que se declina
diante do coração de outro ser
e assim, como haveria de ser
O estranho de repente é normal
No coração que por ser desigual
Desmediu-se no que é desconhecido
pra ser formar poético e decidido
e mergulhar no mar da imprecisão.



segunda-feira, 10 de abril de 2017

TRAVESSURAS DO TEMPO

Queria encontrar o remédio
pro que não tem remédio ainda
O ainda é um ponto a preencher
enquanto eu esvazio a cabeça

Queria encontrar um canto exato
pra ficar sem que a dor faça ruído
Como se o tempo acolhesse o meu corpo
feito o sofá mais confortável da loja

E aí isso ia longe
sem ser preciso mergulhar no oceano
pra descobrir que a lagoa resolvia
Pra aprender que faz sentido a travessia
mas que nem sempre é preciso atravessar

E isso ia mais longe
Onde você seria mera holografia
E ao olhar pra tudo eu me perdoaria
Mesmo que algum dedo em riste
vá me condenar

De quem será?
Se não for meu, fazer o que ?
Ou não fazer?
Te relembrar e ir adiante?
Ficar aqui e te esquecer?

sexta-feira, 10 de março de 2017

Lidar

Alguns sentimentos são filhos bastardos que eu adoto, cuido, protejo, mas não registro, pra ninguém saber que é meu.

quinta-feira, 9 de março de 2017

CERTAS COISAS

Acontecem como mágica.
Do nada, como um coelho que sai da cartola
Vencendo o óbvio e deixando meu olhar perplexo.
Como é que faz isso?
Como coloca de volta?

Volta o video que eu quero ver onde foi que eu perdi o movimento que causou isso tudo.
Se eu descobrir, posso prometer não revelar o segredo até ser conveniente.
A garantia é porque isso me afeta e é pior quando eu não sei o que houve.
E porque houve... E mesmo assim ter que lidar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O MOMENTO

Depois do disparo, um tiro leva menos de um segundo para atingir alguém.
E tem muita coisa no mundo que é como um tiro.
E todas as consequências indeléveis!

Estupidez

Talvez não seja tão difícil
acertar o caminho de pronto
Sentir o tranco e voltar ao ponto
onde fomos contra a placa

E se descobrirmos, da próxima
a gente acerta o foco, o passo
e sofre a dor sem perder o requebrado
e sem quebrar os corre-mãos no encosto

Mas agora eu acho tão difícil
e o talvez é só possibilidade
Porque tenho feito coisas estúpidas
tido pensamentos estúpidos
Sentindo a estupidez dos fracos
Desprogramando meus circuitos

Eu sinto que por ironia
Tanta estupidez quase é poesia
mas fica com o risco vermelho
de auto- correção do word
Mostrando que tem algo errado
em continuar sendo estúpida
depois de tanto aprendizado.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Concerto nº 5 para Piano (Beethoven)


Essas portas se abriram uma a uma, alternada e simultaneamente.
O que importa a ordem agora, o modo, a forma e a intensidade?
Agora isso é o que sinto e sinto tudo ao mesmo tempo.
Parte de mim quer fragmentar e definir cada detalhe do sentimento, as curvas, nuances, tons.
Mas não há como fragmentar algo sólido e integral de maneira exata.
Estou conectada ao mundo e o mundo está vibrando em cada átomo dos meus corpos.
Eu sinto tanto.
Eu sinto muito.
Mas preciso me dissolver e ser tudo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Fênix Brilhante

Às vezes me sinto flutuando.
É curioso, porque isso acontece nos dias mais densos. 
Parece que fico mais leve do que tudo ao meu redor, mas acho que pode ser o contrário.
É o mundo todo que flutua, não eu.
Pensar nisso  me faz cair enquanto o chão nunca chega.
As coisas estão flutuando numa esteira invisível, de cabeça pra baixo.
E o chão nunca chega.
Nem o céu.
Estou no espaço e não encontro sua mão. Quando encontro não alcanço. Quando alcanço, me desfaço e descubro outro espaço entre nós.
Não sei se é cedo ou tarde demais pra dizer adeus ou pra dizer jamais.
Talvez nem tenhamos que dizer nada.
Talvez seja só gritar silenciosamente, enquanto as nuvens nos atravessam.
Ou ficar em modo avião.
Está ficando cada vez mais difícil respirar e mal consigo formular uma prece.
Desejo que a sexta passe depressa e que dezembro demore a chegar.
Estou flutuando como um astronauta na lua e quero ter aquela fênix brilhante no peito.
O que é preciso fazer?
E então as letras pequenas me rodeiam e não quero ler nenhuma.
Não estou pensando nisso.

Na verdade, nem estou pensando...

domingo, 3 de julho de 2016

O Amor é o novo Poder (que c'est vie la nouveauté)


Pode conter spoilers de Orange is the New Black.

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Terminamos de assistir ao último episódio de Orange is the new black.

Olhei para Gabs e ela fez um breve silêncio depois do último olhar da Poussey e após desabou em lágrimas. Eu também estava chorando, como fiz em quase toda temporada, mas fui dar o meu abraço de consolo, pois acreditei que fosse pela perda da personagem pela qual sempre nutrimos afeto. Mas depois ela começou a soluçar e intensificar o choro. Percebi que o motivo estava além da série.

Tenho percebido ao longo desses últimos anos que a ficção é apenas um retrato ensaiado da realidade. Com trilha sonora sincronizada.

Hoje é sábado e sábado é dia da Gabriela fazer visitas ao Centro Socioeducativo de Sete Lagoas. O CSE. Na semana anterior ela enfrentou um agente misógino e homofóbico. Temi pela retaliação.

Eu cuido da parte profilática, que numa visão à curto prazo é praticamente ineficaz. Os meninos que aprendemos a amar continuam movimentando esquinas, ingressando no mundo fascinante das drogas, que parece ter maior poder do que Jesus e nossas aguerridas tentativas de transformar destinos, mostrar outras alternativas. 

Pelo visto, estamos gastando energia tentando mover uma peça emperrada do sistema. As vezes a gente até pensa: Tudo bem,  até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento, mas vira e mexe a gente vê as pessoas queimadas pela baforada flamejante. Como negar que havia um dragão ali? Por mais que estejamos ainda na base da pirâmide social, raramente respinga em nós. Queima apenas nosso coração mesmo, mas fica tudo bem quando lembramos que existe Mc Flurry e Kit Kat. Palavras estrangeiras com gosto de perfeição que só parecem irônicas agora enquanto escrevo, nesse contexto cinza delineado pelas palavras acima. E as cinzas são reais.

Mas ok, o problema da opressão é universal. Não é invenção do primeiro mundo.  O sistema zomba de quem faz força pra mover a engrenagem, porque foi tão genialmente criado ao longo da história do mundo, que não depende de líderes. Ele se auto alimenta e cria seus próprios líderes, mudando de vez em quando, pra variar, a ideologia dominante. No final, tem sempre alguém querendo um pedaço maior do pão, mas quem ganha é só uma pequena parte que tem privilégios no modelo que vigora, seja dinheiro, beleza ou armas. E quem sobra com as migalhas ou com o vento é quem já não tem nada desde o início. E dentre quem não tem nada desde o início, ainda há subdivisões com variações tristes sobre não ter nada.

É um saco, porque os planos nascem com o germe da própria destruição, como diria Marx, tido como vivo por alguns. É assim com o sistema prisional que não funciona. Com o educacional que não funciona como deveria. Com a saúde. Com as coisas básicas que fazem o ser humano ser humano.

Quando não se tem nada, também não se tem nada a perder quando se trata de ganhar alguma coisa. Ou dinheiro, ou poder, ou voz, ou respeito. E se o sistema é estragado, então se torna uma cobra que para se manter viva precisa se alimentar do próprio rabo. Ele se destrói enquanto se alimenta, e coitado de quem fica na frente na boca da cobra para impedir a mordida ou fica criando rabos metálicos de proteção da cauda. Com o tempo a cobra quebra o dente e fica impotente, pois perde as defesas, os ataques e o técnico, se a cauda tiver proteção metálica. Então não adianta certas estratégias de melhorar o sistema. Pode até trocar a cobra, mas vai ser a mesma coisa com a próxima. Temos testemunhado isso ao longo da história da humanidade.

Infelizmente isso não vai mudar se houver uma revolução social ou política, violenta ou não. Porque a matéria prima da revolução vai ser sempre o ser humano. E o ser humano já é um sistema em si, cheios de peças para consertar e aprimorar.

Poussey, embora rica e instruída, era preta. E quando ela morre e eles tentam encontrar algum potencial ofensivo nela, tem como resposta: Ela tinha 45 kg. Era fraca. E os fracos são esmagados.  O policial Baxter que a matou acidentalmente também era uma peça fraca com nome de cachorro e foi esmagado. Os bons não têm vez.

Caputo é vulnerável e também é fraco. Tem ímpetos nobres, mas está encurralado. E não o culpo pela covardia ou pelo impulso sexual que o deixa fraco e mais vulnerável ainda. Quando ele acorda, está igualmente esmagado, e percebe que a instituição institucionaliza as pessoas e formata seus corações.

A Crazy Eyes, que sabe o mecanismo dos buracos de minhoca e viagens intergalácticas, muitas vezes percebe a verdade antes de todo mundo, mas não sabe como empregá-la. Quer sentir o esmagamento, mas por ser livre dentro de uma prisão, já foi esmagada.

A institucionalização potencializa a insanidade e intensifica a sombra.

Lolly estava na linha de transição dos mundos e tinha informação de todos esses mundos. Estava inapta para o plano real das vibrações, então até o telespectador prefere que ela pague do que Alex Vause, branca, linda, cheia de sex appel, ou Red, que nem no esquema estava. E dormimos sossegados quando dizemos: Ah, mas foi ela mesmo que matou.

Mesmo com todas as linhas aniquiladas, há sempre uma luz no fim ou no meio do túnel. Ou do corredor. A Doggett, por exemplo. Já chegamos a odiá-la e querer que ela morresse. E talvez nem o estranho Healy (que tem a cura no nome) perceba que Doggett foi seu maior bem deixado ao mundo de Orange. Ele a ajudou no início ao impedir sua ruptura e a partir disso a caipira pode se reconstruir e se erguer através de uma força que ela não trouxe da estatura, da condição social, da beleza ou qualquer outro poder que não ela mesma. A amizade de Boo e Dogget foi uma das coisas mais lindas da 3 e da 4 temporada, e a lição sobre dor e perdão, embora clichê, foi o único poder que libertou pessoas ao invés de esmaga-las. E é o único poder no qual acredito para transformar esse mundo para melhor.

Vejo a mim. Eu me considero pacífica. Esforço pra caramba pra promover a paz nos ambientes onde estou. Mas aí uma série mostra o quanto não está tudo em paz dentro de nós quando a gente fica com raiva do opressor e quer que ele sofra, que apanhe, que verta sangue, que se humilhe e se contorça em culpa. Quis ver o sofrimento do Bigode, quis ver o sofrimento do Healy, e quis ver o sangue do Trepada. E sim, não quero que ele seja morto com o tiro da Daya, porque seria fácil demais. Ainda quero o sofrimento do vilão. Então não. Não estou em paz, porque algo se inflama dentro de mim a ponto de querer ver mais sangue do que justiça. E isso me aproxima da fera. Da fera que desejo deixar de ser.

Quando analisamos a história de cada personagem violento, encontramos razões que justifiquem suas escolhas e atitudes. Só que nós todos já sabemos que a violência não tem justificativas. Não estamos fadados ao fracasso. Existe a chance de escolher outro sabor, outra cor, de provar que o determinismo é uma ilusão pseudo- antropológica. Sim, há escolhas.

Olho nossos meninos do projeto e embora ainda encontremos a maioria nas esquinas da favela, exercendo o “ofício”, há aqueles que mesmo num ambiente inóspito, criado em situações totalmente adversas, são os lírios do pântano. E os outros? Por que os outros não conseguem ser? É só o sistema ou é uma pecinha interna?

Sempre haverá razões que expliquem porque alguém se tornou opressor e seguiu pelo lado negro da força.  Mas inexoravelmente haverá escolhas e paradoxalmente desejamos que a força esteja com o fraco, mas a força certa que o ajude a estender a mão ao invés de dar o soco. Porque disso já estamos cheios, e essa paz eu não quero seguir admitindo.