sexta-feira, 10 de março de 2017

Lidar

Alguns sentimentos são filhos bastardos que eu adoto, cuido, protejo, mas não registro, pra ninguém saber que é meu.

quinta-feira, 9 de março de 2017

CERTAS COISAS

Acontecem como mágica.
Do nada, como um coelho que sai da cartola
Vencendo o óbvio e deixando meu olhar perplexo.
Como é que faz isso?
Como coloca de volta?

Volta o video que eu quero ver onde foi que eu perdi o movimento que causou isso tudo.
Se eu descobrir, posso prometer não revelar o segredo até ser conveniente.
A garantia é porque isso me afeta e é pior quando eu não sei o que houve.
E porque houve... E mesmo assim ter que lidar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O MOMENTO

Depois do disparo, um tiro leva menos de um segundo para atingir alguém.
E tem muita coisa no mundo que é como um tiro.
E todas as consequências indeléveis!

Estupidez

Talvez não seja tão difícil
acertar o caminho de pronto
Sentir o tranco e voltar ao ponto
onde fomos contra a placa

E se descobrirmos, da próxima
a gente acerta o foco, o passo
e sofre a dor sem perder o requebrado
e sem quebrar os corre-mãos no encosto

Mas agora eu acho tão difícil
e o talvez é só possibilidade
Porque tenho feito coisas estúpidas
tido pensamentos estúpidos
Sentindo a estupidez dos fracos
Desprogramando meus circuitos

Eu sinto que por ironia
Tanta estupidez quase é poesia
mas fica com o risco vermelho
de auto- correção do word
Mostrando que tem algo errado
em continuar sendo estúpida
depois de tanto aprendizado.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Concerto nº 5 para Piano (Beethoven)


Essas portas se abriram uma a uma, alternada e simultaneamente.
O que importa a ordem agora, o modo, a forma e a intensidade?
Agora isso é o que sinto e sinto tudo ao mesmo tempo.
Parte de mim quer fragmentar e definir cada detalhe do sentimento, as curvas, nuances, tons.
Mas não há como fragmentar algo sólido e integral de maneira exata.
Estou conectada ao mundo e o mundo está vibrando em cada átomo dos meus corpos.
Eu sinto tanto.
Eu sinto muito.
Mas preciso me dissolver e ser tudo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Fênix Brilhante

Às vezes me sinto flutuando.
É curioso, porque isso acontece nos dias mais densos. 
Parece que fico mais leve do que tudo ao meu redor, mas acho que pode ser o contrário.
É o mundo todo que flutua, não eu.
Pensar nisso  me faz cair enquanto o chão nunca chega.
As coisas estão flutuando numa esteira invisível, de cabeça pra baixo.
E o chão nunca chega.
Nem o céu.
Estou no espaço e não encontro sua mão. Quando encontro não alcanço. Quando alcanço, me desfaço e descubro outro espaço entre nós.
Não sei se é cedo ou tarde demais pra dizer adeus ou pra dizer jamais.
Talvez nem tenhamos que dizer nada.
Talvez seja só gritar silenciosamente, enquanto as nuvens nos atravessam.
Ou ficar em modo avião.
Está ficando cada vez mais difícil respirar e mal consigo formular uma prece.
Desejo que a sexta passe depressa e que dezembro demore a chegar.
Estou flutuando como um astronauta na lua e quero ter aquela fênix brilhante no peito.
O que é preciso fazer?
E então as letras pequenas me rodeiam e não quero ler nenhuma.
Não estou pensando nisso.

Na verdade, nem estou pensando...

domingo, 3 de julho de 2016

O Amor é o novo Poder (que c'est vie la nouveauté)


Pode conter spoilers de Orange is the New Black.

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Terminamos de assistir ao último episódio de Orange is the new black.

Olhei para Gabs e ela fez um breve silêncio depois do último olhar da Poussey e após desabou em lágrimas. Eu também estava chorando, como fiz em quase toda temporada, mas fui dar o meu abraço de consolo, pois acreditei que fosse pela perda da personagem pela qual sempre nutrimos afeto. Mas depois ela começou a soluçar e intensificar o choro. Percebi que o motivo estava além da série.

Tenho percebido ao longo desses últimos anos que a ficção é apenas um retrato ensaiado da realidade. Com trilha sonora sincronizada.

Hoje é sábado e sábado é dia da Gabriela fazer visitas ao Centro Socioeducativo de Sete Lagoas. O CSE. Na semana anterior ela enfrentou um agente misógino e homofóbico. Temi pela retaliação.

Eu cuido da parte profilática, que numa visão à curto prazo é praticamente ineficaz. Os meninos que aprendemos a amar continuam movimentando esquinas, ingressando no mundo fascinante das drogas, que parece ter maior poder do que Jesus e nossas aguerridas tentativas de transformar destinos, mostrar outras alternativas. 

Pelo visto, estamos gastando energia tentando mover uma peça emperrada do sistema. As vezes a gente até pensa: Tudo bem,  até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento, mas vira e mexe a gente vê as pessoas queimadas pela baforada flamejante. Como negar que havia um dragão ali? Por mais que estejamos ainda na base da pirâmide social, raramente respinga em nós. Queima apenas nosso coração mesmo, mas fica tudo bem quando lembramos que existe Mc Flurry e Kit Kat. Palavras estrangeiras com gosto de perfeição que só parecem irônicas agora enquanto escrevo, nesse contexto cinza delineado pelas palavras acima. E as cinzas são reais.

Mas ok, o problema da opressão é universal. Não é invenção do primeiro mundo.  O sistema zomba de quem faz força pra mover a engrenagem, porque foi tão genialmente criado ao longo da história do mundo, que não depende de líderes. Ele se auto alimenta e cria seus próprios líderes, mudando de vez em quando, pra variar, a ideologia dominante. No final, tem sempre alguém querendo um pedaço maior do pão, mas quem ganha é só uma pequena parte que tem privilégios no modelo que vigora, seja dinheiro, beleza ou armas. E quem sobra com as migalhas ou com o vento é quem já não tem nada desde o início. E dentre quem não tem nada desde o início, ainda há subdivisões com variações tristes sobre não ter nada.

É um saco, porque os planos nascem com o germe da própria destruição, como diria Marx, tido como vivo por alguns. É assim com o sistema prisional que não funciona. Com o educacional que não funciona como deveria. Com a saúde. Com as coisas básicas que fazem o ser humano ser humano.

Quando não se tem nada, também não se tem nada a perder quando se trata de ganhar alguma coisa. Ou dinheiro, ou poder, ou voz, ou respeito. E se o sistema é estragado, então se torna uma cobra que para se manter viva precisa se alimentar do próprio rabo. Ele se destrói enquanto se alimenta, e coitado de quem fica na frente na boca da cobra para impedir a mordida ou fica criando rabos metálicos de proteção da cauda. Com o tempo a cobra quebra o dente e fica impotente, pois perde as defesas, os ataques e o técnico, se a cauda tiver proteção metálica. Então não adianta certas estratégias de melhorar o sistema. Pode até trocar a cobra, mas vai ser a mesma coisa com a próxima. Temos testemunhado isso ao longo da história da humanidade.

Infelizmente isso não vai mudar se houver uma revolução social ou política, violenta ou não. Porque a matéria prima da revolução vai ser sempre o ser humano. E o ser humano já é um sistema em si, cheios de peças para consertar e aprimorar.

Poussey, embora rica e instruída, era preta. E quando ela morre e eles tentam encontrar algum potencial ofensivo nela, tem como resposta: Ela tinha 45 kg. Era fraca. E os fracos são esmagados.  O policial Baxter que a matou acidentalmente também era uma peça fraca com nome de cachorro e foi esmagado. Os bons não têm vez.

Caputo é vulnerável e também é fraco. Tem ímpetos nobres, mas está encurralado. E não o culpo pela covardia ou pelo impulso sexual que o deixa fraco e mais vulnerável ainda. Quando ele acorda, está igualmente esmagado, e percebe que a instituição institucionaliza as pessoas e formata seus corações.

A Crazy Eyes, que sabe o mecanismo dos buracos de minhoca e viagens intergalácticas, muitas vezes percebe a verdade antes de todo mundo, mas não sabe como empregá-la. Quer sentir o esmagamento, mas por ser livre dentro de uma prisão, já foi esmagada.

A institucionalização potencializa a insanidade e intensifica a sombra.

Lolly estava na linha de transição dos mundos e tinha informação de todos esses mundos. Estava inapta para o plano real das vibrações, então até o telespectador prefere que ela pague do que Alex Vause, branca, linda, cheia de sex appel, ou Red, que nem no esquema estava. E dormimos sossegados quando dizemos: Ah, mas foi ela mesmo que matou.

Mesmo com todas as linhas aniquiladas, há sempre uma luz no fim ou no meio do túnel. Ou do corredor. A Doggett, por exemplo. Já chegamos a odiá-la e querer que ela morresse. E talvez nem o estranho Healy (que tem a cura no nome) perceba que Doggett foi seu maior bem deixado ao mundo de Orange. Ele a ajudou no início ao impedir sua ruptura e a partir disso a caipira pode se reconstruir e se erguer através de uma força que ela não trouxe da estatura, da condição social, da beleza ou qualquer outro poder que não ela mesma. A amizade de Boo e Dogget foi uma das coisas mais lindas da 3 e da 4 temporada, e a lição sobre dor e perdão, embora clichê, foi o único poder que libertou pessoas ao invés de esmaga-las. E é o único poder no qual acredito para transformar esse mundo para melhor.

Vejo a mim. Eu me considero pacífica. Esforço pra caramba pra promover a paz nos ambientes onde estou. Mas aí uma série mostra o quanto não está tudo em paz dentro de nós quando a gente fica com raiva do opressor e quer que ele sofra, que apanhe, que verta sangue, que se humilhe e se contorça em culpa. Quis ver o sofrimento do Bigode, quis ver o sofrimento do Healy, e quis ver o sangue do Trepada. E sim, não quero que ele seja morto com o tiro da Daya, porque seria fácil demais. Ainda quero o sofrimento do vilão. Então não. Não estou em paz, porque algo se inflama dentro de mim a ponto de querer ver mais sangue do que justiça. E isso me aproxima da fera. Da fera que desejo deixar de ser.

Quando analisamos a história de cada personagem violento, encontramos razões que justifiquem suas escolhas e atitudes. Só que nós todos já sabemos que a violência não tem justificativas. Não estamos fadados ao fracasso. Existe a chance de escolher outro sabor, outra cor, de provar que o determinismo é uma ilusão pseudo- antropológica. Sim, há escolhas.

Olho nossos meninos do projeto e embora ainda encontremos a maioria nas esquinas da favela, exercendo o “ofício”, há aqueles que mesmo num ambiente inóspito, criado em situações totalmente adversas, são os lírios do pântano. E os outros? Por que os outros não conseguem ser? É só o sistema ou é uma pecinha interna?

Sempre haverá razões que expliquem porque alguém se tornou opressor e seguiu pelo lado negro da força.  Mas inexoravelmente haverá escolhas e paradoxalmente desejamos que a força esteja com o fraco, mas a força certa que o ajude a estender a mão ao invés de dar o soco. Porque disso já estamos cheios, e essa paz eu não quero seguir admitindo.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

REPRESENTAÇÃO

Tenho a sensação que estamos numa experimentação, como se um chef de cozinha inexperiente estivesse testando alguma receita nova. Parecia que estávamos avançando, mas agora sinto como se estivéssemos correndo numa esteira até que o chef atinja o ponto ideal do tempero. Mas isso vai de paladar a paladar.

Numa visão estrita é bem isso que sinto. Uma esteira. Se você simplesmente parar, se cansar, se desistir, boa sorte!

Talvez não possamos parar. Em um panorama onde um ser humano, onde uma mulher paga um preço altamente desproporcional por causa da sede de sangue e poder de outros, por causa de um sistema que sofreu as dores da mudança e quis retornar ao status quo,  não se pode pensar que está tudo bem com nossos corações e simplesmente parar.

Não se pode crer que no mundo tudo esteja tranquilo e favorável quando alguns afetos gritam ou apenas pensam injúrias, calúnias e difamações (porque a verdade se esconde atrás dos fatos) contra um ser humano que corajosamente lutou e suportou golpes que não eram todos pra ela. Cadê os outros rostos?

E a satisfação de alguns a vê-la nocauteada, também dói em mim. Parece que a face esquerda meio que sumiu.

Seus planos de governo nem sempre me representavam, mas você Dilma Roussef, representa a força que eu queria ter. A você minha reverência e respeito.
(...)
E estrelinhas para Sá e Guarabira hoje! 

Ele pegou o baio e como um raio sumiu no atalho
Na algibeira tinha um retrato e um baralho
Na frente nada, atrás poeira, atrás porteira
Atrás da Rita, que foi bonita, que anda bebendo
Que anda correndo atrás do tempo e dos rapazes
Que eram capazes de ir a fundo, lhe dar o mundo
Lhe dar o brilho que as mulheres têm quando casam e lhes dão filhos

Tava perdido, mas é sabido, que nessa hora, só os amigos são quem socorrem
José de porre tá com mal feito, Antonio morre daquele jeito tão novo ainda
Deixou Benvinda que era linda
Pro Zé Calixto que era mal visto
Por todo lado ladrão de gado.
Ganhou dinheiro, virou posseiro, montou garimpo e anda limpo
Perdeu o cheiro que têm os homens quando trabalham
E na tocaia é o que se fala que aquela bala era pra ele
Não pro parceiro,o violeiro que andava a esmo e era mesmo bom companheiro

E já que agora tá tudo fora, tudo partido e sem sentido
Não faz sentido ter na algibeira o seu retrato, o seu baralho

É ele e o baio e nada mais.