quarta-feira, 4 de outubro de 2017

FRENTE FRIA

Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer.

O medo é uma dor e eu não sei precisar se é como um parto ou uma espinha.
Sinto essas múltiplas mãos apertando algo por dentro e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente, displicentemente o nervo se contrai com precisão.
Embora a ânsia e a melancolia dessas horas, não choro. Não sei se sei ou se posso.
Se já estivemos ali, construindo planetas, cuidando de seres intermediários, sendo modestamente cósmicos, o que estamos fazendo aqui ainda, nesse desterro?
É uma tarde fria, mas o frio acabou.

Estamos demasiadamente humanos.

... Mas no fundo eu nem ligo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Além de nós

Você passa... Ficarão pelo chão as marcas dos seus passos!
Você passa... Ficarão seus anseios, ficarão seus temores, ficará o tom da sua voz...

A gente não percebe exatamente o espaço que uma pessoa ocupa dentro de nós, até que ela desocupe. Aliás, desocupar não é o termo correto, porque ela vai continuar ocupando.

Mas aí vem a morte ou coisa parecida e a gente percebe que a importância que a pessoa tinha pra gente era de dimensões maiores que supúnhamos. Como quando a gente machuca o dedo mindinho e percebe que o usa para muito mais atividades que imaginava.

Já viu como se arranca um pé de mandioca do solo? Aquele tubérculo alcança lugares muito distantes de onde ele foi plantando. Ele se entranha pela terra e fica forte.

Ana esteve com a gente desde os primeiros ensaios, quando éramos apenas desconhecidos que se juntaram para uma apresentação da casa. Desde então, ao longo desses 8 anos, convivemos quase que diariamente, na edificação de nós mesmos e na dedicação ao próximo. Convivi mais com Ana nesses últimos anos do que convivi com meus pais. E quando estamos compartilhando a jornada com alguém, indo pro mesmo rumo, é quase imperceptível como esse alguém vai se entranhando dentro de nós. Ana foi fazendo parte de mim, de nós, mesmo nos pontos de atrito que tivemos, mesmo nos julgamentos recíprocos que fazíamos uma da outra. Na trilha que compartilhávamos, era impossível que o amor não fosse a força maior entre o resto. Então nos amamos e era essa força que nos unia.
Apesar dos pesares, construímos um laço forte e agora que ela já não está mais aqui, eu mal aguento olhar um arranjo de voz para sopranos. Talvez porque esteja recente. Talvez porque sempre fiz os arranjos pensando na voz dela.

Ainda não é saudade. Mas será inevitável sentir. Cada vez que ouvir, na música, a palavra africana que ela não dava conta de dizer, cada vez que alguém fizer os solos que eram dela.

A vida vai ter sequencia e vamos sorrir, cantar com alegria novamente e mesmo assim vamos descobrir, casualmente, nos detalhes, com ela estava infiltrada em nós. Isso vai doer um pouquinho.

Eu só espero que nesse momento saibamos valorizar e amar melhor todos aqueles que continuam aqui.
Apenas começamos...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ESSE É O SHOW DA LUNA...

Não é desejo, nem é saudade
Sinceramente, nem é verdade
L'Aventura - Renato Russo

É quase uma hora da madrugada.
Como não tem sol, ainda parece domingo.
Acabei de encontrar o carregador do celular debaixo da pilha de roupas que está em minha cama.
Estou morrendo de sono, a cabeça explodindo e mesmo assim não consigo dormir. É como se tivesse um alarme disparado dentro do meu corpo todo.
Não sei definir o que estou sentindo. Não sei ser precisa, não sei se preciso...
São tantas pessoas, fatos, situações, que agora eu poderia ser uma vitamina de frutas, ou um mix de mim.
Rodo a roleta imaginária e espero a seta parar em um assunto para eu discorrer nessa madrugada fria.
E... voilà! Você!

Senti sua falta por causa da NetFlix liberando as séries no inverno.
Hoje eu te vi.
E sabe... Isso não me perturbou da maneira que eu achei que pudesse perturbar.
Perturbou de um jeito diferente.
Eu te vi seguindo a vida e isso me deixou feliz por você. Me deu certa paz.
Eu havia  te excluído de tudo para não te ver e não ter que pensar em você nem por acidente, mas o quadrado é pequeno e os links são diversos.
Então te vejo e te verei.
Mas hoje consegui não ter ânsia de vômito por ver encarnado em minha frente um fantasma que me assombrou por anos e agora não é mais fantasma. É verve!
Metade das coisas ficam sem graça quando perdermos o medo de fantasmas.
O que é minha vida sem o drama?
Chega a ser desolador, porque assumir que estou bem é consumir minhas muletas.
Não posso mais dizer que estou quebrada para evitar seguir adiante com quem quer que seja, ou comigo mesma!
Não posso mais dizer que estou meio presa ao meu passado com você, à nossa história.
Não posso mais culpar o luto ou o fato de não ter tido as qualidades necessárias para fazer nossas vidas se encaixarem.
Pra ser sincera, eu nem queria encaixar nada depois que mudamos de jogo.
Eu queria era só ficar triste e com crise de identidade, sabendo do seu prosseguimento feliz enquanto eu me auto - sabotava.
Eu queria te culpar, e sem razão, cada vez que aparecia alguém que me ferisse, ou cada vez que eu me metia em encrencas, ferindo alguém.
Mas agora não vai ter mais nada disso, porque hoje não doeu.
Estou em minha cama cheia de roupas (lavadas), sem muita culpa e sem nenhuma vontade de dobrar minhas calcinhas como origami só pra te mostrar através do cosmos que eu tinha qualidades para você admirar, mesmo com algumas pessoas admirando virtudes minhas que você nem via.
Eu faço origamis de papel. Mas tanto faz...
Isso há muito tempo deixou de ser sobre você.
Você eu amo.
Já faz tempo que é de uma maneira diferente, só que eu ainda tinha um pouco de dúvidas até te ver hoje.
Então ficou estupidamente claro que o que sinto é sobre mim.
Eu não sei exatamente o que fazer com tanto oxigênio em volta.
E não falo por causa da liberdade.
Na verdade, descobri que nunca houve um mandado de prisão. Percebi que as grades e a sentença eram imaginárias e percebi que estou assustada.
A verdade está lá fora. Mas...
Sei lá se quero ir...

Eu quero saber por que o gato mia? Verde por fora, vermelho por dentro, é a melancia!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Como diz o Billy

Eis aí o inverno!
E quem somos nós agora através de todas as estações?
Estamos reunidos aqui depois desses passos e devemos ser outras pessoas não é?
Outras pessoas melhores, com mais lições aprendidas.
Não devemos?
Mas existe um sentimento lá dentro de nós que se parece muito com aquela coisa quando estávamos prestes a dar o primeiro passo nessa jornada.
O primeiro.
Uma coisa que sabe de si, mas que não sabemos o que é! Essa coisa que nos retalha, impulsiona, sangra um pouco e faz com que a queiramos desvendá-la. Essa coisa que mesmo sendo dura e fria, me faz querer colo e quem sabe, uma varanda com balanço ou rede?
É uma coisa que se alimenta de paradoxos e me desconfigura sutilmente.
Essa coisa me segue e eu corro na lâmina dessa aflição...

Como diria o Billy, vamos lotar o inverno com nossas boas intenções!

segunda-feira, 29 de maio de 2017


Here I am!

Fui ricocheteada para uma janela inútil com fotos de antes e depois de atores famosos!
É curioso ver o Johnny Depp envelhecendo enquanto minhas espinhas, ausentes na adolescência mancham meu rosto e escondem o quanto já percorri.
Um pouco!
Sou da velha guarda, perdi e ganhei muita coisa!
Aprendi as cores que estão debaixo do papel esperando um toque ou chuva para novas químicas.
E desaprendi os rabiscos e os mosaicos.
Ganhei um sorriso diferente, talvez mais consciente da alegria que sente!
Perdi batalhas e postos, um pouco da fé e a esperança revolucionária de dividir os mares.
Mas seu abraço é como reintegração de posse.

Ouvindo A-HA! 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

NÃO NOS AFASTEMOS MUITO

Ao Leo

Cara,

Ás vezes vai ser muito ruim.
Você vai ouvir tantos nãos que vai parecer exercícios para voz.
Mas as coisas ficam bem depois do não, mesmo que seja bem chato passar por eles e ouvi-los.
A nossa sorte é que o tempo passa e a gente sobrevive!
A gente não precisa explodir o mundo toda vez que as coisas não saírem como queremos.
Vou te confessar que as vezes dá essa vontade mesmo, mas a gente se controla, pensa no que pode ter de bom depois! Pensa no trabalho que é reconstruir tudo que a gente quebra quando se chateia.
O planeta Terra é uma bola muito grande que gira em torno do sol e em torno do próprio eixo sem um cordão de nylon cósmico controlando tudo. São outras forças, outras leis.
Se existem essas leis regulando tudo, regulando as coisas que a gente nem pensa, então não há porque pensar que um ponto final seja exatamente o fim de tudo, de toda a possibilidade de cor que tem depois!
É a vida, cara!
Tem esses dias em que chove. E em outros que bate sol.
Tem coisas que vão doer, vão doer e depois vão passar.
E quando passarem, se você souber olhar direitinho, vai ver que elas te deixaram mais forte.
Então aguente firme o quanto puder, sem destruir e sem deixar que isso te destrua, porque a luz que a vem de tudo isso pode iluminar a nossa cidade inteira e todas aquelas que você imaginou.

terça-feira, 2 de maio de 2017

É estranho como é estranho esquecer um nome.

Á minha prima

O que será que define estranho?

Essa indiferença ou a saudade sem tamanho?
É o sorriso de canto
É um canto sem juízo?
É apressar o passo enquanto
ter pressa não é preciso?
O que será que define estranho
Num coração que é tão desigual?
Com a inexata medida
desata conceitos e elucida
os nós dados na escuridão
E aí já nem mesmo há razão
dessa razão matemática e lisa
Porém uma razão que se declina
diante do coração de outro ser
e assim, como haveria de ser
O estranho de repente é normal
No coração que por ser desigual
Desmediu-se no que é desconhecido
pra ser formar poético e decidido
e mergulhar no mar da imprecisão.