domingo, 3 de julho de 2016

O Amor é o novo Poder (que c'est vie la nouveauté)


Pode conter spoilers de Orange is the New Black.

************************

Terminamos de assistir ao último episódio de Orange is the new black.

Olhei para Gabs e ela fez um breve silêncio depois do último olhar da Poussey e após desabou em lágrimas. Eu também estava chorando, como fiz em quase toda temporada, mas fui dar o meu abraço de consolo, pois acreditei que fosse pela perda da personagem pela qual sempre nutrimos afeto. Mas depois ela começou a soluçar e intensificar o choro. Percebi que o motivo estava além da série.

Tenho percebido ao longo desses últimos anos que a ficção é apenas um retrato ensaiado da realidade. Com trilha sonora sincronizada.

Hoje é sábado e sábado é dia da Gabriela fazer visitas ao Centro Socioeducativo de Sete Lagoas. O CSE. Na semana anterior ela enfrentou um agente misógino e homofóbico. Temi pela retaliação.

Eu cuido da parte profilática, que numa visão à curto prazo é praticamente ineficaz. Os meninos que aprendemos a amar continuam movimentando esquinas, ingressando no mundo fascinante das drogas, que parece ter maior poder do que Jesus e nossas aguerridas tentativas de transformar destinos, mostrar outras alternativas. 

Pelo visto, estamos gastando energia tentando mover uma peça emperrada do sistema. As vezes a gente até pensa: Tudo bem,  até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento, mas vira e mexe a gente vê as pessoas queimadas pela baforada flamejante. Como negar que havia um dragão ali? Por mais que estejamos ainda na base da pirâmide social, raramente respinga em nós. Queima apenas nosso coração mesmo, mas fica tudo bem quando lembramos que existe Mc Flurry e Kit Kat. Palavras estrangeiras com gosto de perfeição que só parecem irônicas agora enquanto escrevo, nesse contexto cinza delineado pelas palavras acima. E as cinzas são reais.

Mas ok, o problema da opressão é universal. Não é invenção do primeiro mundo.  O sistema zomba de quem faz força pra mover a engrenagem, porque foi tão genialmente criado ao longo da história do mundo, que não depende de líderes. Ele se auto alimenta e cria seus próprios líderes, mudando de vez em quando, pra variar, a ideologia dominante. No final, tem sempre alguém querendo um pedaço maior do pão, mas quem ganha é só uma pequena parte que tem privilégios no modelo que vigora, seja dinheiro, beleza ou armas. E quem sobra com as migalhas ou com o vento é quem já não tem nada desde o início. E dentre quem não tem nada desde o início, ainda há subdivisões com variações tristes sobre não ter nada.

É um saco, porque os planos nascem com o germe da própria destruição, como diria Marx, tido como vivo por alguns. É assim com o sistema prisional que não funciona. Com o educacional que não funciona como deveria. Com a saúde. Com as coisas básicas que fazem o ser humano ser humano.

Quando não se tem nada, também não se tem nada a perder quando se trata de ganhar alguma coisa. Ou dinheiro, ou poder, ou voz, ou respeito. E se o sistema é estragado, então se torna uma cobra que para se manter viva precisa se alimentar do próprio rabo. Ele se destrói enquanto se alimenta, e coitado de quem fica na frente na boca da cobra para impedir a mordida ou fica criando rabos metálicos de proteção da cauda. Com o tempo a cobra quebra o dente e fica impotente, pois perde as defesas, os ataques e o técnico, se a cauda tiver proteção metálica. Então não adianta certas estratégias de melhorar o sistema. Pode até trocar a cobra, mas vai ser a mesma coisa com a próxima. Temos testemunhado isso ao longo da história da humanidade.

Infelizmente isso não vai mudar se houver uma revolução social ou política, violenta ou não. Porque a matéria prima da revolução vai ser sempre o ser humano. E o ser humano já é um sistema em si, cheios de peças para consertar e aprimorar.

Poussey, embora rica e instruída, era preta. E quando ela morre e eles tentam encontrar algum potencial ofensivo nela, tem como resposta: Ela tinha 45 kg. Era fraca. E os fracos são esmagados.  O policial Baxter que a matou acidentalmente também era uma peça fraca com nome de cachorro e foi esmagado. Os bons não têm vez.

Caputo é vulnerável e também é fraco. Tem ímpetos nobres, mas está encurralado. E não o culpo pela covardia ou pelo impulso sexual que o deixa fraco e mais vulnerável ainda. Quando ele acorda, está igualmente esmagado, e percebe que a instituição institucionaliza as pessoas e formata seus corações.

A Crazy Eyes, que sabe o mecanismo dos buracos de minhoca e viagens intergalácticas, muitas vezes percebe a verdade antes de todo mundo, mas não sabe como empregá-la. Quer sentir o esmagamento, mas por ser livre dentro de uma prisão, já foi esmagada.

A institucionalização potencializa a insanidade e intensifica a sombra.

Lolly estava na linha de transição dos mundos e tinha informação de todos esses mundos. Estava inapta para o plano real das vibrações, então até o telespectador prefere que ela pague do que Alex Vause, branca, linda, cheia de sex appel, ou Red, que nem no esquema estava. E dormimos sossegados quando dizemos: Ah, mas foi ela mesmo que matou.

Mesmo com todas as linhas aniquiladas, há sempre uma luz no fim ou no meio do túnel. Ou do corredor. A Doggett, por exemplo. Já chegamos a odiá-la e querer que ela morresse. E talvez nem o estranho Healy (que tem a cura no nome) perceba que Doggett foi seu maior bem deixado ao mundo de Orange. Ele a ajudou no início ao impedir sua ruptura e a partir disso a caipira pode se reconstruir e se erguer através de uma força que ela não trouxe da estatura, da condição social, da beleza ou qualquer outro poder que não ela mesma. A amizade de Boo e Dogget foi uma das coisas mais lindas da 3 e da 4 temporada, e a lição sobre dor e perdão, embora clichê, foi o único poder que libertou pessoas ao invés de esmaga-las. E é o único poder no qual acredito para transformar esse mundo para melhor.

Vejo a mim. Eu me considero pacífica. Esforço pra caramba pra promover a paz nos ambientes onde estou. Mas aí uma série mostra o quanto não está tudo em paz dentro de nós quando a gente fica com raiva do opressor e quer que ele sofra, que apanhe, que verta sangue, que se humilhe e se contorça em culpa. Quis ver o sofrimento do Bigode, quis ver o sofrimento do Healy, e quis ver o sangue do Trepada. E sim, não quero que ele seja morto com o tiro da Daya, porque seria fácil demais. Ainda quero o sofrimento do vilão. Então não. Não estou em paz, porque algo se inflama dentro de mim a ponto de querer ver mais sangue do que justiça. E isso me aproxima da fera. Da fera que desejo deixar de ser.

Quando analisamos a história de cada personagem violento, encontramos razões que justifiquem suas escolhas e atitudes. Só que nós todos já sabemos que a violência não tem justificativas. Não estamos fadados ao fracasso. Existe a chance de escolher outro sabor, outra cor, de provar que o determinismo é uma ilusão pseudo- antropológica. Sim, há escolhas.

Olho nossos meninos do projeto e embora ainda encontremos a maioria nas esquinas da favela, exercendo o “ofício”, há aqueles que mesmo num ambiente inóspito, criado em situações totalmente adversas, são os lírios do pântano. E os outros? Por que os outros não conseguem ser? É só o sistema ou é uma pecinha interna?

Sempre haverá razões que expliquem porque alguém se tornou opressor e seguiu pelo lado negro da força.  Mas inexoravelmente haverá escolhas e paradoxalmente desejamos que a força esteja com o fraco, mas a força certa que o ajude a estender a mão ao invés de dar o soco. Porque disso já estamos cheios, e essa paz eu não quero seguir admitindo.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

REPRESENTAÇÃO

Tenho a sensação que estamos numa experimentação, como se um chef de cozinha inexperiente estivesse testando alguma receita nova. Parecia que estávamos avançando, mas agora sinto como se estivéssemos correndo numa esteira até que o chef atinja o ponto ideal do tempero. Mas isso vai de paladar a paladar.

Numa visão estrita é bem isso que sinto. Uma esteira. Se você simplesmente parar, se cansar, se desistir, boa sorte!

Talvez não possamos parar. Em um panorama onde um ser humano, onde uma mulher paga um preço altamente desproporcional por causa da sede de sangue e poder de outros, por causa de um sistema que sofreu as dores da mudança e quis retornar ao status quo,  não se pode pensar que está tudo bem com nossos corações e simplesmente parar.

Não se pode crer que no mundo tudo esteja tranquilo e favorável quando alguns afetos gritam ou apenas pensam injúrias, calúnias e difamações (porque a verdade se esconde atrás dos fatos) contra um ser humano que corajosamente lutou e suportou golpes que não eram todos pra ela. Cadê os outros rostos?

E a satisfação de alguns a vê-la nocauteada, também dói em mim. Parece que a face esquerda meio que sumiu.

Seus planos de governo nem sempre me representavam, mas você Dilma Roussef, representa a força que eu queria ter. A você minha reverência e respeito.
(...)
E estrelinhas para Sá e Guarabira hoje! 

Ele pegou o baio e como um raio sumiu no atalho
Na algibeira tinha um retrato e um baralho
Na frente nada, atrás poeira, atrás porteira
Atrás da Rita, que foi bonita, que anda bebendo
Que anda correndo atrás do tempo e dos rapazes
Que eram capazes de ir a fundo, lhe dar o mundo
Lhe dar o brilho que as mulheres têm quando casam e lhes dão filhos

Tava perdido, mas é sabido, que nessa hora, só os amigos são quem socorrem
José de porre tá com mal feito, Antonio morre daquele jeito tão novo ainda
Deixou Benvinda que era linda
Pro Zé Calixto que era mal visto
Por todo lado ladrão de gado.
Ganhou dinheiro, virou posseiro, montou garimpo e anda limpo
Perdeu o cheiro que têm os homens quando trabalham
E na tocaia é o que se fala que aquela bala era pra ele
Não pro parceiro,o violeiro que andava a esmo e era mesmo bom companheiro

E já que agora tá tudo fora, tudo partido e sem sentido
Não faz sentido ter na algibeira o seu retrato, o seu baralho

É ele e o baio e nada mais.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

TERRA FIRME

O café esfria enquanto procuro lugar pra sentar.
É tarde, estou sem rede e quando é assim, fico só comigo.
Dizem que há água se movendo debaixo de toda a terra e que não há em mim nada que seja paralisado.
Todo átomo está em movimento.
Acordei com sono e precisei despertar, levantar, seguir, caminhar e sorrir.
Esses verbos são partes da vida e a vida é uma conjugação, mesmo quando o vento deixa aquela folha intacta na árvore.
Se eu chegar perto, verei seu balanço depois de se desprender do galho e quiçá, ela cairá perto dos meus pés, descendo como um pêndulo.
A despeito da folha, sinto que nos importamos mais do que outrora.
Mesmo em off, sinto que a nossa conexão cresce.
Importamos com coisas que não são nossas, e isso é bom.
Fazemos sinápses humanas e expandimos algo muito parecido com amor dentro de nós.
Embora mais frio, ainda sinto a fumaça saindo da xícara, indo pro espaço.
Perdi um segundo e não percebi onde a folha foi parar.
Parecia imóvel, mesmo assim agora já não está lá.
(...)
Temos muito a fazer e preciso aportar.
Mas... onde há mesmo terra firme?


quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Emoções Superlativas"

O verbo morreu por asfixia
Provável pronúncia de alguém muito mal
Procuro o sujeito que proclame a república porque é o fim da regência verbal
Se houvesse um sujeito, o verbo doente seria paciente de outra oração
Mas provavelmente o seu predicado não tinha nem mente e nem corpo são
A frase represa, despreza as regras e foge ao problema da própria ação
Pois se propagados seus atos pregressos, será acusada de apropriação

A fuga depressa na pressão das horas, enseja uma prece, profilaxia
Se foge sozinha, sem ter complemento, dispensa a propina da preposição
Prepara a mesa, quer ver alegria, propõe convidados pra estrofe em questão
Instala objetos de focos diretos com verbos dispersos e de ligação
Pretende um lugar para paraíso
É ré e juízo no mesmo refrão
Prolata sentenças e nega autoria, alega inocência pra absolvição:
Sem corpo não há menor evidência, sem verbo na frase, não há oração
Sem propósito na fresta, a palavra é vazia, mas sobra na lavra a boa intenção
E ali sobre a mesa, o prato do dia! E pra todo dia, sobre mesóclises e rimas
A gíria, degraus acima inicia a encenação:

Não impeça meu grito, pô
A promessa era doce e se quebrou
Mas game over uma ova!
Se tu quer um crime, então prova!

Justifique o desvio sem invalidar as entrelinhas
Flexione a poesia, mas não diga que é canção
Para a frase impune, paráfrases e alegorias
não explica-se o erro sem oferecer correção

Pretende o juiz dessa causa atuar sem concordância,
Sublinha os defectivos fora da ordem natural
Sabe que no processo existem trechos em abundância
e que frase que atua sem verbo só pode ser nominal
Releva o crime, oculta o sujeito: é briga de rinha, é verde o sinal
O que aqui for real e também moralmente aceito
Que comece a fazer efeito antes do ponto final e
Que o sujeito passivo reaja e defina a última linha
Pois o verbo morreu por asfixia,
mas tomara que exista outra conjugação.

Estrelinhas para os Deolinda!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Pedra Fundamental

Não sem dor, fui aprendendo ao longo da minha vida que eu fazia parte das minorias. 
As bandas que eu gostava, quase ninguém conhecia. Os livros da minha estante não eram os mais vendidos. Os filmes da minha lista (com exceções como a franquia Star Wars) não estouravam bilheterias. Os versos que eu inventava, com sorte, alguém entendia. A religião que eu abraçava até pouco tempo atrás era alvo do preconceito e da ignorância, assim como a minha orientação sexual.  E pra mim estava ok ser da minoria, ir na contra mão, não ter um bando numeroso e nem uma banda em propaganda de refrigerante. Depois que eu entendi que eu só preciso estar racionalmente sintonizada com meu coração, nunca mais sofri por não pensar como a multidão e pela multidão não prezar o que eu admirava. Cabe o mundo inteiro no vasto mundo e cabe a mim desejar que as coletividades amem acima de tudo, acima das diferenças que nos caracterizam.

Mas hoje eu lamento. Lamento que meus ideais sejam da minoria. E com todo o respeito que devo no espaço que compartilho com a maioria, eu acho que se todos enxergassem as coisas que são óbvias, talvez a multidão não escolhesse Barrabás. Talvez acolhêssemos outras vozes que transformem os desejos de melhora de todo mundo em flores e não nesse pileque homérico da maioria.

Eu ainda sigo confiante que possamos aprender grandes lições, mesmo que colhendo nos campos da consequência. Eu ainda acredito que podemos cuidar do que se ganha em se perder.

Mas hoje, eu lamento pela maioria que ao meu ver, ainda não vê e insiste em não ouvir através de megafones que a gente não vende fácil o que não tem preço.
A gente não levanta bandeiras sem saber direito qual é a causa.
A gente não dá o microfone para alguém que deseja nos silenciar...
Pelo menos não devíamos.

Vai ficar tudo certo, eu sei.
Os anos ajeitam a história, mesmo que eu sacrifique os meus trilhando uma parte mais escura desse caminho.

Todavia, hoje eu lamento. Muitíssimo.

Dia 17/04/2016 (a gente rejeitou de novo a pedra de esquina)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

RAPTE-ME, CAMALEÃO!



Ele entrou em minha vida versionado, travestido de astronauta marmorizado na voz de outros caras. 
E veio a calhar que esse ser transmórfico chegasse assim, travestido e oculto, até que se revelasse poderoso e hiper icônico, manipulando bolas de contato e hipnotizando Sarah na terra dos duendes. Aquilo mudaria minha infância e minha vida para sempre. Esse camaleão raptou-me para um mundo de homem das estrelas, labirintos mágicos e me fez procurar no dicionário a palavra androginia.
Não tem como ser uma criança igual quando você escuta uma frase marcante aos cinco anos de idade. Aos 33 você é capaz de repeti-la com a mesma crença:

 "Passei por imensos perigos
E inúmeras dificuldades pra chegar até aqui,
 No castelo da cidade dos duendes
 E retomar a criança que você roubou,
 Meu reino é tão grande quanto o seu,
 E minha vontade é tão grande quanto a sua,
 Você não tem poderes sobre mim."

O engraçado, é que não conheço David Bowie e seu trabalho como um todo. Reconheceria uma música dele pelo seu timbre, mas não saberia relatar os títulos, os álbuns, embora saiba que ele pode ter me alcançado sem que eu nem tenha percebido, como Modern Love!! Ele é meu “ídolo referência”, porque está sempre marcando uma outra coisa que me marca. Quando penso em músicas inesquecíveis da minha vida, encontro David Bowie. Em "As Vantagens de Ser Invisível", é Heroes que me expande e me torna infinita. Com The Man Who Sold The World, "Fringe" se sagrou o melhor seriado que já vi até hoje e eu arrisco dizer que não lembro de uma música antiga ter resumido tão bem o espírito de uma série inteira. 
E tem Labirinto, A Magia do Tempo. (...)
Hoje soubemos que ele partiu e isso não me dói como doeria se ele fosse meu pai ou qualquer pessoa próxima. 
David Bowie é um desses artistas que possuem o dom da eternidade e quando morrem, mostram que o tempo está passando só para nós. 
Quem percebe a efemeridade é o sobrevivente! 
Quem parte, vai para as estrelas, para os céus, o inferno, Marte ou qualquer outro lugar do espaço e mesmo assim permanece aqui, nos lugares sagrados dentro daqueles que marcaram, tornando-se eternos. Infinitos!



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

DEFORMAÇÕES

Quando é o caso, fico procurando desenhos no mármore, nas cortinas florais, no emaranhado de árvores. Geralmente procuro rosto de pessoas, de animais, de formas que conheço.
Gosto de encontrar o familiar, por isso talvez eu estranhe quando você revela coisas inéditas pra mim.
Sinto que essa parte estranha me faz querer te agredir de formas nas quais ninguém verá o sangue, mas que vai doer do mesmo jeito, ou pior.
É que Narciso acha feio o que não é espelho.
Fica meio confuso isso, porque há quem diga que nos incomoda no outro somente as sombras que também são nossas.
Eu gosto dos seus jardins, das telas e das tintas, dos rostos sorrindo... 
Gosto quando encontro um beija-flor, a mão do Spock desejando vida longa e próspera, gosto quando encontro um dragão ou qualquer personagem épico. São coisas do nosso universo e isso a gente reconhece e se alegra por encontrar.
Mas eu não sei por que essas outras coisas que são tão intimamente estranhas a nós ainda atravessam nosso coração como flecha envenenada. Poderíamos apenas aceitar que o mundo é infinito demais para conhecermos tudo e admitirmos que é necessário aprender até sobre matéria escura. 
Que forma é essa que me confrange? 
Se eu reconheço alguns de seus aspectos, porque quero apagá-los?
Eu não sei exatamente por que quero gritar até a imagem ser outra, até se tornar algo mais familiar e aconchegante como um abraço ou a primeira colher de Häagen-Dazs de macadâmia.
Olhando as rajas do mármore dessa parede, só procuro o que conheço, porque do contrário, poderia inventar qualquer forma e dizer que ela estava ali, por coincidência.

O problema, meu bem, é que a gente nunca acreditou no acaso.